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terça-feira, 29 de julho de 2014

Secretary III - Capítulo 6

A beleza de uma mentira 
(Músicas do capítulo: When I'm Gone do 3 Doors Down e You Look So Fine do Garbage. Deixe ambas carregando e coloque para tocar quando cada uma de suas letras surgir.)



Meus olhos se abriram e meus pulmões imploraram por ar. Balancei meus braços rapidamente, os impulsionando para cima, na intenção de sair daquela água. Quando por fim consegui respirar novamente, apoiei com firmeza meus pés no fundo do lago onde eu estava, sentindo as várias pedras machucarem a pele dos mesmos. O lugar era semelhante a um jardim inglês; repleto de árvores, flores coloridas e muita grama. A água do lago era agradável, mas eu me sentia estranha ali dentro. Tentei chegar até uma das bordas, escorregando em uma das rochas e voltando a afundar, era como se eu não conseguisse sair. Mas enquanto minhas mãos se balançavam, desesperadas por algum apoio, senti alguém segurar uma delas. O toque foi severo e frio, e então a pessoa me puxou para cima, revelando que eu já estava na borda do lago. Larguei meu corpo na grama, ainda tentando normalizar a respiração e me livrar da agonia que sentia no peito. Quando senti os raios solares cobrirem minha pele molhada, abri os olhos e enxerguei apenas o céu. Escutei o canto de passarinhos e senti estar sendo observada. Ergui o tronco lentamente e ligeiramente fiquei imóvel, arregalando os olhos e depois os piscando diversas vezes para ver se o ser sumia. Mas nada aconteceu, exceto pelo sorriso que recebi em seguida.
- Olá, irmãzinha. - sua voz me causou arrepios, mas por algum motivo eu não sentia vontade de fugir.
- Carter? - chamei, tentando me colocar de pé. Mas ele se aproximou mais e encostou uma de suas mãos frias em meus ombros. As tatuagens em seus braços permaneciam em cada mísero pedacinho de pele, os cabelos espetados como se tivesse levado um intenso choque. Os olhos verdes.
- Boo! - ele provocou, parecia certo de que conseguiria me assustar. - Como sempre, metida em encrenca. - Carter fez um som negativo com a boca e riu, voltando a me olhar. O brilho da insanidade continuava a brilhar por aquelas íris, o jeito de deixar os ombros relaxados e às vezes tombar a cabeça para um dos lados enquanto pensava continuava a fazer parte de suas muitas manias. Decidi me aproximar um pouco mais dele, espantada comigo mesma por deixar que tal sentimento se manifestasse: saudade. Uma saudade que não queria estar sentindo, de maneira alguma, mas era incontestável.
- Isso é um sonho, certo? - perguntei totalmente convicta, voltando a prestar atenção no jardim e evitando o contato visual com Carter.
- Onde mais você me veria tão pacífico, sentado de frente para um lago e apreciando a vida, sweetheart? Ok, minto. Não tenho mais vida para apreciar. - o homem deu de ombros, conformado com seu próprio destino. - Então, sim, é um sonho. Apenas obra do seu subconsciente que ultimamente não tem me deixado em paz. Por que pensando tanto em mim, Demetria?
Eu sabia que nada daquilo era real, que bastava algum movimento brusco e eu estaria acordada, mas me permiti captar os mínimos detalhes de toda aquela cena. A semelhança entre Carter e Julian era mesmo absurda. Talvez eu tenha me esquecido um pouco de como era o rosto daquele homem, por isso sentia que o pai de Olivia não era tão semelhante a meu meio-irmão. Mero engano. Os dois poderiam, facilmente, receber as nomeações de: homem e espelho.
- Recentemente um homem que poderia ser seu irmão gêmeo apareceu e...
- Eu sei! - ele cortou. - O reflexo ambulante.
- Digamos que sim... - concordei incerta, percebendo que Carter desfez a expressão descontraída e estava pronto para dizer algo sério.
- Tenho aparecido nos sonhos dele também. E da garota, filha da Margo... Você consegue acreditar nisso? Aquela vadia me confundiu com um homem normal! - um Carter inconformado começou a gesticular com as mãos. Era quase engraçado ele estar chamando o amor de sua vida de "vadia". Mas, bem, aquele era - mesmo que de mentira e fruto de minha mente - Carter Stone.
- Pensei que vocês finalmente estivessem juntos. - zombei da situação, realmente fingindo que de fato conversava com um espírito. Quando aquele sonho teria seu fim?
- Não, irmãzinha... - contou entristecido. - Acho que nos mandaram para lugares diferentes. Eu estou no céu e ela no inferno, ou vice versa. Ainda não descobri a diferença. De qualquer maneira, vamos pular todo esse papo mórbido. Me diga: como anda o mundo sem mim?
- Confuso, como sempre. - respondi de qualquer jeito, não querendo compartilhar nada de minha vida com ele.
- O velho está tramando algo, você sabia? - ele me olhou com um olhar investigativo, apenas uma sobrancelha erguida. A cor dos olhos dele era irreal demais, sempre me deixava transtornada.
- Que velho?
- Papai Arthur. - riu ao pronunciar as duas palavras de um jeito infantil.
Meu subconsciente necessitava de uma trabalhosa limpeza.
- Você sabe o que ele está tramando? - dei continuidade a seu jogo. Carter se levantou e olhou para cima, deixando linhas se formarem em sua testa e então formou uma expressão de dor. A área de seu abdômen coberta por uma camiseta branca e gasta foi se tingindo aos poucos de vermelho. Sangue.
- Ah, de novo não! - ele resmungou e levou a mão até o local. Levantei-me assustada. Era o lugar onde ele tinha levado um tiro. O tiro que arrancou a vida que ele já não fazia mais questão alguma de viver. - Sinto muito, sweetheart. Nos vemos em uma próxima!
Carter me puxou por um dos braços e, como se eu fosse leve feito uma pluma, arremessou meu corpo novamente para dentro da água. O ar esvaiu-se novamente. 


A água turva devido a sais de banho em excesso se agitou com os movimentos bruscos que meu corpo fez assim que abri os olhos. Tornei minha coluna ereta e segurei com força nas duas beiradas da banheira, respirando fundo e tentando me recuperar da sensação estranha que aquele sonho proporcionou. Cerca de quase um minuto depois, voltei a me largar e fechei os olhos novamente, lamentando pela água que já não estava tão quente. Mas a vontade de não mover o corpo falava mais alto, então permaneci daquele jeito. O sonho não fazia mais diferença, eu sabia que sempre sonhava coisas bizarras quando minha mente vagava demais por assuntos complexos. 
O silêncio dominava toda a parte superior daquela casa, eu nem mesmo sabia se Joseph ainda permanecia acordado. Aquela noite não fora boa como imaginei que pudesse ser. O jantar no apartamento de Lexi quase poderia ser chamado de desastroso. Após me encontrar conversando no corredor com Cameron, Joseph permaneceu por quase meia hora em outro lugar, voltando atordoado depois. Ele me atormentou tanto com o pedido de sair dali, que não tive escolha. Desculpei-me com o casal e disse que poderíamos nos ver uma próxima vez. Joseph voltou para casa em silêncio, até mesmo Jamie ele fez questão de responder com simples e curtas palavras. Eu não estava com o humor bom o suficiente para tentar quebrar sua tensão, então desfrutei da frieza que ele oferecia. 
Já era tarde da noite, provavelmente nós dois éramos os únicos acordados na casa. E juntamente com toda a ausência de som, eu me senti triste. Aquela tristeza que aperta no peito e você não sabe exatamente de onde vem, mas não consegue eliminá-la. O estômago revirando, mãos e pernas inquietas. Nervosismo. 
As coisas andavam estranhas. Minha relação com aquele homem sempre foi cheia de pedras pelo caminho, até mesmo grandes montanhas em alguns casos, mas nós sempre dávamos um jeito de passar por elas. Não importasse o que viria a seguir. Mas, naquela noite, a falta de motivação que andava a nosso lado permitiu que eu a enxergasse perfeitamente pela primeira vez. Joseph estava diferente comigo, qualquer um era capaz de notar. Continuava possessivo, terrivelmente ciumento como naquele jantar de horas antes, mas, mesmo assim, não se dava ao trabalho de me contar seja lá o que passava pela sua cabeça. Isso era algo que ele gostava no passado, vivia dizendo que sempre gostaria de me ter por perto, porque não sentia a necessidade de esconder qualquer mísera coisa de mim. 
Casamentos sofrem tormentas, obviamente. Acho que a nossa havia chegado. Pela segunda vez
Senti seu perfume amadeirado no ar e encolhi minhas pernas, abrindo os olhos e percebendo que Joseph se encontrava sentado ao lado da banheira, olhando distraidamente para o chão. As pernas esticadas, os olhos cansados, uma das mãos que se levantou e alcançou minhas costas nuas, distribuindo carinhos por onde era capaz. Eu não queria olhar para aquele homem e enxergar um estranho novamente. Não. Nós tínhamos dois filhos, uma vida adulta repleta de rotinas e simples complicações que infestam a existência de qualquer ser humano. Estava de bom tamanho. Eu não queria mais problemas de capacidade elevada para lidar, situações incompreensíveis como a que tínhamos presenciado há pouco tempo. 
Ainda sentindo seu toque em minhas costas, aproveitando como se soubesse que acabaria logo, abri a boca para falar. 
- Você se cansou de mim? - a pergunta pareceu absurda até para minha própria pessoa. Em minha mente, não seria tão errado soltar aquelas palavras, mas quando o som de minha voz entrou pelos ouvidos de Joseph, ele rapidamente removeu a mão de minhas costas e virou seu rosto em minha direção, visivelmente confuso. O impulso que fazia parte de minha lista de defeitos se fez presente. Então continuei a falar. - Sabe, eu não sou mais a Demetria que você conheceu. - mesmo que não admitisse em voz alta, ele sabia que no fundo era verdade. Pessoas mudam, não importa qual seja o motivo. - A cintura pela qual você era completamente apaixonado não é mais tão fina. - por instinto levei uma das mãos e desenhei a curva de minha cintura, aborrecida por não tê-la mais da maneira que me lembrava. Ela ainda estava ali, feminina e notável aos olhos de qualquer um, mas diferente. - Quando você chega em casa, muitas vezes, ao invés de me encontrar vestida de um jeito que te agrada, eu estou com um pijama largo. Cansada, cabelos presos e bagunçados. Certas vezes quando você procura por calor, e sabe a qual calor estou me referindo, tudo que eu faço é virar o corpo e alegar cansaço. A minha forma de olhar para você não mudou, mas e a sua de olhar para mim? Joe, se você se cansou de mim, deixe-me saber. É só o que eu peço.
Joseph soltou um risinho inconformado e se ergueu, colocando um pé dentro da banheira e depois o outro, sem se importar. Abaixou o corpo e sentou-se do outro lado. Continuava vestido, mas ele realmente não ligava. Depois sorriu minimamente e inclinou o corpo, me puxando por um dos pulsos e pedindo com um olhar para que eu me virasse. Eu não sabia se começava a gargalhar por ele ter entrado na banheira daquele jeito ou se cumpria sua ordem. Virei-me, deslizando meu corpo de encontro ao seu, encostando minhas costas em seu peitoral que era coberto por uma camisa parcialmente molhada. Ele abraçou minha cintura, contemplando o seu contorno. E ao fazer isso, voltou a rir perto do meu ouvido, como se desacreditasse que ela tinha sofrido qualquer mudança. 
Me preparei. Me preparei, pois sabia que ele transformaria todo o meu discurso desesperado em cinzas. Ele atacaria minhas palavras com as suas, as transformando em nada. Talvez apenas em arrependimento por ter falado demais, dito o que não era necessário. 
Tentada a olhar para seu rosto, inclinei o meu e lá estava ele. Me olhando serenamente, segurando um sorriso. Em seus olhos verdes passei a enxergar um paraíso. Talvez não fosse o paraíso de que todos falam, o lugar tão almejado... Mas era o meu paraíso. Meu paraíso cheio de lugares escuros, tempestades violentas e silêncio ensurdecedor. Porém, continuava a ser o lugar que eu desejava descansar meu corpo e minha alma. 
Sua boca se abriu um pouco e sua voz soou, provocando a sensação de sempre em mim. O amor. 
- Primeiro, gostaria de dizer que você merece longas semanas sem minha presença por dizer essas coisas, Demetria. - ele me repreendeu de um jeito divertido, aumentando o aperto de seu abraço em meu corpo. - Segundo, eu acho que o jeito mais válido de mostrar que não me cansei de você, seria arrancando essas roupas e te fazendo delirar junto comigo... - seus dedos subiram um pouco e brincavam com minha pele, extremamente próximos de meus seios. - Mas eu sei que você vai gostar de ouvir o que tenho a dizer, então aqui está: - Joe respirou fundo e eu fechei os olhos. Amava tanto aquele desgraçado que tinha vontade de apertá-lo até que sumisse. E aparecesse novamente segundos depois, pronto para se vingar, é claro. - Depois do Matt você está mais linda do que nunca, mais forte do que nunca. - pensei no bebê e tive vontade de sorrir. Isso nunca mudaria. - O seu corpo continua sendo a perdição da minha vida. Nunca vou me cansar de você, mulher. - ele abaixou sua cabeça e depositou um beijo em minha orelha, descendo um pouco mais e chegando até minha bochecha. Eu já estava pronta para me virar e beijá-lo. - Não há um dia em que eu não precise de você mais do que precisei no anterior. - sem conseguir controlar, eu apoiei meus joelhos na banheira e me virei, sentando em seu colo e alinhando nossos corpos. Nossos lábios apenas se encostaram, mas ele ainda não queria me beijar de verdade. - Você é o anjo da minha vida. - após soprar as últimas palavras, ele descansou a cabeça em meu ombro e beijou o local repetitivas vezes. Segurei seu queixo e o obriguei a levantar o rosto, grudando nossos lábios o mais rápido que pude. Agarrei os cabelos de sua nuca e senti suas mãos fazerem o mesmo com minha cintura, descendo e aproveitando minhas coxas. A paixão exalava entre nossos corpos, passando de um para o outro. Ele mordeu meu lábio inferior durante o contato, arrancando um sorriso involuntário por minha parte. Deslizei o dedo indicador por seus pontos de barba e em seguida senti seus lábios úmidos e quentes em meu queixo, deslizando pelo meu pescoço e beijando todo o local. Notei suas mãos subindo, abraçando outra vez minha cintura. Minha implicância com aquele local fora embora. - Não existe rotina com você. Demetria, eu nem sequer sei o que é isso. E nem quero saber. Nós não nascemos para viver em uma rotina... Eu te prometo
Os olhos intensos de Joseph reforçaram aquela afirmação, e depois ele voltou a me beijar, dessa vez de maneira mais provocativa e marota. Todavia, escutamos o choro de Matt e logo estávamos fora da banheira, completamente vestidos - no meu caso - e prontos para sermos o que tanto gostávamos de ser: pais. 
Quando chegamos ao quarto de Matthew, ele não parecia aborrecido. Olhava de maneira sapeca para nós dois, balançando os bracinhos e perninhas. Derretida, fui até seu berço e me inclinei para pegá-lo no colo. 
- Matthew, por acaso eu já te disse que é errado interromper certos momentos dos seus pais? Desse jeito você nunca vai ter irmãos, garotão. - ri, assim como Matt - mesmo que ainda não entendesse o significado de nenhuma daquelas palavras - e Joseph se aproximou, segurando sua mãozinha. O bebê esticou os dois braços, deixando claro que queria ir com ele. Assim que fiz sua vontade, fiquei olhando abobada para os dois. 
Onde mesmo estava minha tristeza? 

/Demetria's P.O.V


A ruiva caminhava cabisbaixa, certas vezes apenas levantava o rosto para comprovar que estava em seu caminho certo. Sua mente estava a mil, um turbilhão de pensamentos assustadores a banhava de uma só vez. Certas vezes, queria fechar os olhos com força e esfregá-los até que acordasse; mas também queria deixar que o lado positivo de todos aqueles acontecimentos falasse mais alto que o lado negativo. Sem que ela pudesse evitar, uma de suas mãos deslizou pelo tecido da blusa preta que usava. Ainda era cedo demais, nada parecia diferente. Mas logo, com o passar dos meses, sentiria vontade de gritar e sair correndo toda vez que olhasse no espelho. 
Ainda não estava acostumada com os cabelos curtos, pois tinha a mania de ficar puxando os fios e não conseguia mais fazer isso da maneira que gostava. Então, ela os deixou de lado e andou mais um pouco, olhando de um jeito tenso para o visor de seu celular a cada fração insuportavelmente lenta de segundo que se passava. Tinha receio de receber outra ligação daquela pessoa, o fato dela saber tanto sobre seu passado era totalmente desconfortável. Duvidava muito que poderia conseguir algum tipo de ajuda do ser ainda desconhecido. 
Scarlett parou de andar e escondeu-se atrás de uma árvore, estreitando os olhos quando notou o homem do lado de fora. Ele permanecia parado, por vezes encarava a motocicleta reluzente estacionada no gramado. A ruiva fechou as mãos em punhos, sentindo raiva da capacidade que Caleb tinha de ser tão infantil. Antes que pudesse parar a si mesma, já estava caminhando com passos pesados e rápidos em sua direção, até mesmo o vento parecia intimidado com sua presença. Quando foi notada, tudo que fez foi cruzar os braços. Caleb a olhou, fingindo não estar surpreso, depois desviou o olhar e passou a ignorá-la. Scarlett bufou e deu mais alguns passos até ele. A maneira como estava vestida naquele dia era diferente. Apesar de manter o preto em destaque em suas vestes, parecia levemente mais feminina. Talvez nem ela mesma tenha percebido isso, mas ele percebeu. 
- Eu vou socar a sua cara! - falou imediatamente, arrancando um risinho debochado do homem. - O que você tem na cabeça para trocar o seu carro por essa coisa? - apontou inconformada para a motocicleta. - Vá desfazer essa burrada agora mesmo, ou... 
- Ou o que, Karlie? - Caleb voltou a fitá-la seriamente, aos poucos rompendo a distância entre os dois. Sabia que tocava em um ponto grave quando a chamava por aquele nome. O rosto de Scarlett se fechou no mesmo instante. - Desse jeito você até parece minha esposa. Mas, oh, você não aceitou se casar comigo, lembra? - ela revirou os olhos, inconformada com a maneira a qual estava sendo tratada. Ele merecia uma boa surra, ela pensou. Caleb negou com a cabeça quando não obteve resposta e virou as costas, deixando que Scarlett contemplasse apenas o xadrez em tons variados de azul de sua camisa. Ela abriu a boca para falar, tentando mandar a fala para baixo e desistir daquilo, mas não podia. Ele precisava saber. Na verdade, já sabia de certo modo, mas precisava da confirmação. 
- Fiz três testes. - disse alto, congelando o corpo de Caleb. - Sim, gato, três! E adivinha? Todos apontaram o mesmo resultado. - ele se virou, desmanchando a indiferença em seu rosto e a transformando em preocupação. - Eu fiquei durante horas apontando para a minha própria barriga e dizendo "Cara, você não está aí, não está! Com tantas barrigas pelo mundo, por que surgir dentro da minha?" Mas a criaturinha não quis saber. - Caleb não conseguiu evitar uma fraca risada. Aquela mulher não perdia o bom humor mesmo quando lágrimas se formavam em seus olhos. - Ela está aqui dentro. E agora, o que eu faço? Não estou pronta pra cuidar de uma vida que não seja a minha. Aliás, nem da minha eu cuido direito. - riu de si mesma, triste pela realidade que havia acabado de revelar. 
- Eu posso ajudar, posso cuidar de três vidas. 
- Ah, por favor... - voltou a rir, dessa vez com deboche. 
Scarlett respirou fundo, com raiva pelo fato dele não demonstrar qualquer sintoma de nervosismo. Como era possível? Quando se deu conta, já estava ficando cada vez mais próxima dele. Puxou seu braço, tentando levá-lo até a porta. Mas sentiu que não era mais fácil como costumava ser. Caleb se livrou do toque violento dela e, surpreendendo a mulher totalmente, inverteu a situação, segurando seus braços e chocando suas costas contra uma das paredes da entrada. A ruiva arregalou os olhos. 
Ele nunca, nunca tinha revidado a uma de suas crises. Nunca tinha tentado assumir o controle em situações como aquela. 
Ela suspirou. 
- Me solta! E anda logo, vamos conversar lá dentro. - tentando fingir que não estava abalada por aquela atitude irresistível dele, Scarlett subiu os três pequenos degraus e abriu a porta. Ficou do lado de dentro, e apenas esperou que Caleb parasse ao seu lado, para finalmente lhe dar um belo tapa no braço. Ele gemeu de dor. 
- Você bate feito um homem! 
- E você reclama feito uma garota. 
- Sim, claro, você engravidou de uma garota. 
- Cale a boca! - ela voltou a estapeá-lo. Mas assim que olhou em seus olhos escuros, sentiu-se vulnerável novamente. Deu passos arrastados pelo cômodo e largou o corpo em um sofá, brincando distraidamente com os fios do cabelo que ainda parecia se adaptar com a recente mudança. Logo ele se sentou ao lado dela. 
- Eu sinto muito, Karlie, mas não vou fingir que estou triste com essa notícia. Não vou mesmo. - e então, ele abriu um sorriso. Um sorriso que a fez se sentir inferior. Inferior porque ainda não era capaz de imitar um sorriso como aquele. Nem sabia se queria, na verdade. Scarlett sentiu sua mão esquerda ser segurada, virando o rosto para a direção contrária, apenas sentindo o toque da mão masculina. Detestava expor suas fraquezas daquele jeito. 
- O destino é muito sacana, não é? Você me pede em casamento, eu nego, as coisas viram completamente de cabeça para baixo e... Surpresa! Oi, estou grávida! - Scar falou rápido demais, tornando novamente seu desabafo algo com um leve índice de humor. 
- Que nada, acho que me apressei. Não deveria ter feito o pedido daquele jeito, foi... Horrível. 
- Me desculpe. - ela soltou. 
- O que você disse? - ele a olhou boquiaberto. 
- Não vou dizer de novo. Se não entendeu, o problema é seu. - Scarlett ajeitou-se no sofá, encostando a cabeça na parte superior. - É isso! Eu não deveria ter agido daquela maneira, mas... O que você não sabe, é que mais de uma coisa estava acontecendo naquela noite. 
- Vai me contar, pelo menos? - ela concordou com a cabeça e respirou fundo, pronta para compartilhar. 
- Ando recebendo alguns telefonemas de uma pessoa que alega conhecer meu passado. Karlie Russell. A pessoa diz claramente que eu posso recuperar tudo que pertencia à Karlie. Inclusive seu nome. - Scarlett olhou para Caleb diretamente nos olhos, procurando por algum consolo. Sentia-se novamente a menina amedrontada e perdida no mundo. Ele sorriu compreensivo e sem mostrar os dentes, apertando um pouco mais a mão dela e aproximando os corpos. Não disse nada, mas havia entendido completamente a situação. Só precisava de tempo para processar. - Não é que eu não te queira por perto, mas não sei se estou pronta para tê-lo tão perto assim. Principalmente agora. 
Karlie Russell, Scarlett Meredith, ou quem quer que fosse aquela mulher, estava mesmo dizendo coisas como aquelas? 
- Eu acho que posso ficar à distância que você quiser. - Caleb deu de ombros e Scarlett sentiu seu pulso acelerado. - Nós vamos dar um jeito nisso. Tanto nessas estranhas revelações do seu passado, como também no nosso filho. 
- "Nosso filho" - ela fez aspas com os dedos, se mexendo desconfortável. - Ah, cara, não acreditou que vou entrar nessa vida de brincar de casinha! 
- Vai ser uma menina. 
- O quê? 
- Uma menina! - Caleb afirmou convicto, sorrindo presunçoso. - E ela será forte como a mãe, vai bater nos garotos que tentarem importuná-la na escola. Vai ganhar campeonatos de esporte, e mesmo assim chegar em casa todos os dias desesperada pelo abraço dos pais, completamente vulnerável. E chorar por garotos, mas felizmente eu poderei me vingar deles por ela. - talvez a ideia de que seria pai em um futuro ainda incerto tinha mexido um pouco com a cabeça de Caleb. 
Scarlett sentiu o estômago embrulhar repentinamente. Ele percebeu que ela parecia congelada, os olhos tensos presos em alguma coisa, as mãos pressionadas contra as próprias coxas como se estivesse tentando conter alguma coisa. 
- Eu vou vomitar... - ela enrijeceu o corpo, engolindo em seco na intenção de mandar o enjoo embora. Era evidente a palidez em seu rosto, assim como sua voz desesperada. 
- Scarlett, leve o que eu digo a sério pelo menos uma vez na vida. - Caleb parecia ter se esquecido de um pequeno detalhe presente na vida de uma futura mãe... 
- Mas é sério! - a mulher não aguentou mais e levantou o corpo, levando a mão até a boca. Seus olhos lacrimejaram e se tornaram assustados. - Droga! 
Caleb apenas viu seu vulto sumir pelo corredor, ouvindo o barulho alto da porta do banheiro ao ser fechada. 
- Tem espaço para dois? - gritou para ela, totalmente assustado. 


Demetria's P.O.V

O frear dado foi tão brusco que senti todo o interior do meu corpo sair do lugar por um instante. Após tirar alguns fios de cabelo presos em meu rosto e tentar dizer a meu coração que ele poderia continuar a bater livremente, olhei embasbacada através do vidro do carro para o homem congelado a minha frente. Julian. Que ótimo, além de tudo, ele ainda entraria na frente do meu carro para tentar ser morto? Buzinei enfurecida, gesticulando e pedindo que saísse da frente, mas ele continuou parado, os olhos, assim como o resto de seu rosto, levemente escondidos pelo capuz da blusa que usava. Parecia perdido. 
Não tive outra escolha a não ser abrir a porta do carro e ir confrontá-lo. O tempo era horrível, as nuvens no céu eram de um cinza fúnebre. Longos dias de chuva nos aguardavam. Julian me olhou fundo nos olhos, remetendo lembranças do sonho que havia tido com meu falecido meio-irmão poucos dias antes. 
- Vai ficar parado me olhando por quanto tempo? - perguntei de mau humor. Ele parecia querer me dizer alguma coisa, mas não conseguia. Dei as costas para Julian, determinada a voltar para casa, mas sua voz soou pela primeira vez. Baixa e vazia. 
Diga ao seu pai para parar com isso. - assim que escutei aquele alerta, arrepios me atingiram. Arrepios de natureza sombria, certeiros. - E eu estou cansado de sonhar com você, com problemas acontecendo com pessoas que não me importam. Eu não sei o que se passa aqui, mas quero que pare. Agora! - pensei por um instante que ele avançaria em mim, mas percebeu seu grande erro e recuou, puxando um pouco o capuz para esconder ainda mais o rosto. 
- Você disse meu pai? - precisei perguntar, torcia para ter entendido errado. Meu pai. O desprezo correu livre pelas minhas veias, a raiva e a repulsa se misturaram. Ódio. Ódio imenso do homem que deveria ter honrado com o compromisso de ser pai. E, principalmente, honrado com o compromisso de não tentar fazer mal aos próprios filhos. Eu era sangue de seu sangue. Estava quase sentindo nojo de mim mesma, já que o sangue de Arthur Sheppard corria pelas minhas veias. 
- Não quero ficar no meio disso! Então peça a ele para parar de me ligar! Ele disse que está fazendo certas coisas para o meu bem, e para o seu também. Ele sabe que nós nos conhecemos. Não sei como, mas sabe. Me escute bem: - voltou a se aproximar, me fazendo dar passos hesitantes para trás. - Eu tenho uma filha, eu vou fazer qualquer coisa por ela. Se não quiser que eu chame a atenção do seu pai através de você, coloque um fim nisso. 
- Como você ousa me dizer essas coisas, seu doente? Não tenho a mínima ideia do que fala! Não pedi para aparecer em seus sonhos e... 
- Quase toda noite. Lá está você e seu marido... É tudo escuro, medonho. Ouço gritos, depois parece que estou no corpo de outra pessoa. Como se alguém estivesse tentando alertar algum perigo. Não vejo razão para isso, eu não me importo com você... - ele voltou a frisar aquela afirmação. Minha mão estaria preparada para acertar seu rosto se não fosse o medo. Ele parecia à beira da loucura, tão parecido com... Carter
Julian levou a mão até um extenso bolso de sua blusa e retirou um papel dobrado, o estendendo friamente para mim. Peguei com raiva, abrindo ali mesmo em sua frente, boquiaberta com o que estava lendo. Tive que me esforçar para entender aquela caligrafia desordenada. 
"Diga a eles que o combinado é que eu não me aproxime da Inglaterra. Mas, e se eles vierem até meu encontro? Aliás, não importa. Eu posso colocar meus pés na Inglaterra se quiser. Henry está morto.
- Ele me disse isso na última ligação que fez. Eu anotei e decidi te entregar, talvez a brincadeira de vocês fique mais empolgante... - zombou. 
- Vá para o inferno! 
Como uma covarde, disse apenas isso, joguei o papel em sua direção e corri para dentro do carro novamente, fugindo o mais rápido que pude. 
Assim que cheguei em casa, aliviada pela ausência de Joseph e Jamie, corri pela escada e me tranquei no quarto. Meus olhos fitavam confusos a tela iluminada do notebook, meus dedos digitavam com rapidez. Nem eu mesma estava acreditando que me tranquei em um quarto para pesquisar coisas como aquelas. Patético. Impossível. 
Provável? 
"Mortos se comunicam através dos sonhos?
O resultado da busca surgiu em segundos. Passei os olhos pelos links suspeitos de alguns sites que preferi não visitar, até que achei um bem simples, que portava de apenas um longo texto, provavelmente escrito por alguém que já tinha presenciado situações como aquela. A pouca iluminação no quarto me fez mexer nervosamente pelos cabelos enquanto tentava achar algo plausível no meio de todas aquelas palavras. Muitas explicações sem pé nem cabeça eram dadas. O texto diversas vezes afirmava que sonhamos com mortos tentando dizer algo, porque nosso subconsciente os prende por muito tempo. Que mortos não se comunicam com vivos. De maneira alguma. Isso não existia. 
Mas, de maneira totalmente contraditória, o último parágrafo colocava a perder todas as teorias anteriores. 
Eu sonhei com Erin Fields quando Joseph estava sendo acusado de seu assassinato; ela implorava para que eu livrasse meu marido de uma culpa que não lhe pertencia. Sonhei com meu amigo Jared McDowell alegando-me que estava tudo bem... Sonhei com Carter Stone afirmando que nosso pai, Arthur, estava tramando algo. Coincidência? 
Ri sozinha. 
As últimas linhas que li a seguir mostraram a seguinte explicação: 
"De fato, quem deixou este plano, tende a não retornar. Mas, talvez, se algo de grande importância permanecer inacabado, um aviso do sobrenatural poderá surgir. Cada um acredita no que se permite acreditar, mas se pararmos para pensar por um instante, ficará evidente que, sim, eles podem continuar nos assistindo. Eles podem procurar ao nosso redor por problemas invisíveis aos nossos olhos. Eles podem entrar em nossos sonhos sem receber convite, e, completamente tolos, pensamos apenas se tratar de preocupações acumuladas em nossas mentes. Se você sonhar com um ente querido falecido, e ele tentar alertá-lo sobre algum perigo, ou até mesmo usar dos sonhos de uma pessoa próxima a você para isso, fique alerta. Investigue os passos que circulam por onde você também circula. Acredite.
Tudo que fiz após ler isso fora fechar o notebook e permanecer estática encarando um ponto qualquer do quarto. Baboseira, apenas e exclusivamente pura baboseira. 
- Se isso é realmente verdade, Carter, apareça em meus sonhos essa noite novamente. Diga mais. - falei para ninguém, rindo mais uma vez de minhas idiotices e, por fim, saí do quarto, já que Matthew parecia ter acordado e ansiava pelos meus cuidados. 

/Demetria's P.O.V 


Os pingos de uma chuva que se iniciava chocavam-se contra os vidros impecavelmente limpos da janela que permanecia fechada. Nenhuma luz estava ligada, a pouca claridade presente se esforçava ao máximo para permitir que Joseph continuasse a olhar para seu filho. Ele conseguia ouvir o barulho do chuveiro ligado também, sabia que Demetria ficaria se aprontando durante muito tempo naquele dia, afinal, tinha prometido a ela uma surpresa. Seus olhos pesados pelo sono se fecharam por um tempo e ele soltou o ar pela boca, sentindo-se vazio por um instante. Após a misteriosa ligação daquela maldita mulher, os dias passaram vagarosamente, ele torcia para que aquele momento acontecesse de uma vez. Talvez, se fosse rápido, doeria menos. Mas como acabar com a dor? Joseph sabia que tomaria uma atitude extrema, como sempre acabava fazendo. Se culparia eternamente por ter a terrível capacidade de se envolver em situações como aquela. Como poderia acabar com todos os insistentes demônios e por fim presentear sua família com o paraíso? Eles precisavam disso, eles mereciam isso. 

There's another world inside of me that you may never see
(Há outro mundo dentro de mim que você nunca poderá ver)
There're secrets in this life that I can't hide
(Há segredos nessa vida que eu não posso esconder)
Somewhere in this darkness there's a light that I can't find
(Em algum lugar nessa escuridão, há uma luz que eu não posso encontrar)
Maybe it's too far away...
(Talvez esteja muito longe...)

Or maybe I'm just blind
(Ou talvez eu seja cego)
Maybe I'm just blind...
(Talvez eu seja cego...)

A grande questão não era o dinheiro, ele pouco se importava com aquela empresa, muito menos com os três hotéis. No entanto, mais uma vez, mostrava-se fraco. Sempre acabava cedendo a ameaças, sempre se arrependia quando o relógio de sua vida alegava ser tarde demais. Como Cameron havia lhe dito: Velhos hábitos nunca mudam
Um de seus péssimos hábitos era se colocar contra si próprio, um tipo de mecanismo de defesa autodestrutivo. Mas apenas ele deveria sentir as conseqüências, apenas ele deveria sofrer. Estava acostumado com o sofrimento, talvez nem fizesse mais tanta diferença. Poderia se determinar entorpecido. 
Para uma mente repleta de cicatrizes, que diferença fará mais uma? O que realmente lhe importava era assegurar que Demetria ficasse bem, que seus filhos ficassem bem. Melhor eles o assistindo sofrer do que o contrário. E esse fora um pensamento humanamente egoísta, dolorosamente masoquista. É claro que a mulher que amava ofereceria sua própria vida em troca de um pouco de felicidade para ele, mas Joseph estava farto de vê-la se dispor a isso. 
Tinha a vaga esperança de conseguir driblar aqueles obstáculos. Lembrava-se perfeitamente bem da promessa que vez a dona de seu coração, deixando claro que nada mais a machucaria. Nada mais. Nada

So hold me when I'm here, right me when I'm wrong
(Então me segure quando eu estiver aqui, me corrija quando estiver errado)
Hold me when I'm scared 
(Me abrace quando eu estiver assustado)
And love me when I'm gone.
(E me ame quando eu for.)

Everything I am and everything in me
(Tudo o que eu sou e tudo em mim
Wants to be the one
(Quer ser o único)
You wanted me to be
(Que você queria que eu fosse)
I'll never let you down, even if I could
(Eu nunca a decepcionaria, mesmo se pudesse)
I'd give up everything if only for your good
(Eu desistiria de tudo se fosse para o seu bem)
So hold me when I'm here, right me when I'm wrong
(Então me segure quando eu estiver aqui, me corrija quando estiver errado)
You can hold me when I'm scared, you won't always be there
(Você pode me segurar quando eu estiver assustado, mas você não estará lá sempre)
So love me when I'm gone.
(Então me ame quando eu partir.)

Love me when I'm gone...
(Me ame quando eu partir...)

Joseph estava exausto. Possuía promessas demais a cumprir, porém tempo de menos para tentar. 
Ele balançou a cabeça, mostrando-se conformado e acariciou o rosto de Matthew, que o olhava com os pequenos e brilhantes olhos verdes. O bebê apreciava sua presença, sempre parecia extremamente feliz ao tê-lo por perto. Seus pezinhos gordinhos se balançavam animados e sons indefinidos saíam por seus pequenos lábios. Os olhos de Joseph arderam após marejar. 
- Não sei mais o que fazer, meu filho, não sei. - o chuveiro se desligou e Joseph limpou os olhos com a manga de sua blusa simples de mangas longas. O sorriso de Matthew sumiu, e, como se percebesse a tristeza que rodeava seu pai, passou a chorar também. O homem o pegou, balançando seu corpo levemente na tentativa de acalmá-lo. - Mas eu te fiz uma promessa, lembra? - beijou sua testa. - É claro que lembra, não é? Horas depois do seu nascimento. Te prometi ser o pai que você precisa, não importa o que venha pelo caminho. Prometi sempre ficar ao seu lado... - Joseph tinha medo de Demetria surgir e acabar escutando o que não devia. - E eu vou ficar... Talvez não possa agora, mas não se sinta triste. Isso tudo vai passar, eu sei que vai. - o bebê permaneceu inquieto, resmungando baixinho. Seu pai o abraçou, deixando que o corpo do filho se moldasse ao seu peitoral. - Chegou a hora de mostrar a eles que estão mexendo com a pessoa errada, Matthew. Vai dar tudo certo, mesmo que eu tenha que arcar com algumas conseqüências. O que você disse? - sabia que Matthew não tinha dito nada, mas poderia fingir. - Você disse que eu sou forte? Realmente acredita nisso? Pois bem, se você acredita, eu serei
Demetria saiu do banheiro tempos depois, apenas enrolada em uma toalha. Olhou incerta para o homem que permanecia com o bebê em seus braços e o acordou de seus pensamentos turbulentos.Joseph ajeitou Matthew na cama e se levantou, abraçando de um jeito desesperado a mulher, que, pega de surpresa, quase deixou sua toalha cair. O homem fechou os olhos fortemente e apertou seu corpo contra o dela, misturando seus cheiros, querendo marcar aquele contato em sua memória. Depois, ao soltá-la, segurou seu rosto com as duas mãos e deixou que a mulher se perdesse em seus olhos verdes. Ela tinha o poder de enxergar quando aqueles olhos estavam tristes. Na verdade, nem precisava olhar diretamente para Joseph para conseguir notar. Ela sentia, sentia de um jeito inexplicável. O sentia mesmo quando ele não estava por perto. 

When your education x-ray can not see under my skin
(Quando seu raio-X de educação não puder ver dentro da minha pele)
I won't tell you a damn thing that I could not tell my friends
(Eu não te contarei uma coisa ruim que eu não possa contar aos meus amigos)
Roaming through this darkness
(Vagando por essa escuridão)
I'm alive but I'm alone
(Estou vivo, mas estou só)
Part of me is fighting this
(Parte de mim está lutando)
But part of me is gone.
(Mas parte de mim se foi.)

- Eu te amo, Demetria Jonas. Isso é tudo que importa agora. - ela poderia responder com um simples "eu também te amo", mas algo no olhar de Joseph entregava que havia algo implícito naquela declaração que seus ouvidos tanto se deliciavam ao ouvir, assim como em sua voz rouca e apaixonante. Porque, apesar de triste, ela continuava apaixonante. - É tudo que vai importar depois
- Sim, mas por que você parece tão... - com um beijo, ele a impediu de continuar. 
- Não, não diga nada. Por favor. - acariciou a bochecha dela. Morreria por aquele ser humano, não restavam dúvidas. 
- Você sabe que eu também te amo. Agora e depois. - um alívio gélido varreu a derrota de sua existência por tempo o suficiente para que ele conseguisse dar um sorriso sincero. 
Escorregou suas mãos pelos ombros e braços nus de Demetria, segurando as mãos dela e entrelaçando os dedos. 

Maybe I'm just blind...
(Talvez eu seja cego...)

O amor dói. - o homem não soube por que deixou que ela ouvisse aquelas palavras, mas queria compartilhá-las, precisava. - Mas eu aguento essa dor por você. Eu aguento qualquer coisa, Demi. 
Demetria voltou a abraçá-lo, quem sabe desse jeito levava embora as sombras que não saíam de perto de Joseph naquele momento. Seus dedos passearam pelas costas dele, seu corpo se deleitou com o calor que emanava do corpo dele e seu olfato absorveu o cheiro dele como se precisasse disso para continuar de pé. 
- Somos dois. - sorriu-lhe valente, como se soubesse que uma guerra os aguardava de braços abertos. Ele se soltou dela e afastou-se um pouco, não queria mais prolongar aquele momento. 
- Preciso sair, mas me espere aqui. Às nove da noite, como combinados. - fingiu um risinho feliz e empolgado para sua esposa. Mal sabia ela o que estava prestes a acontecer. O fim de mais um capítulo de sua vida não seria como o esperado. 
Demetria só teve tempo de concordar com a cabeça antes que Joseph sumisse de sua visão e alcance. Sentiu-se estranha, como se a sensação de estar impedida de tê-lo em seus braços fosse durar tempo demais. Tempo demais para aguentar. 
Tempo demais para permanecer com a cabeça em ordem. Tempo demais para evitar a loucura

Love me when I'm gone
(Me ame quando eu partir)
When I'm Gone
(Quando eu partir)
When I'm Gone
(Quando eu partir)
When I'm Gone.
(Quando eu partir.)


Flashback
Los Angeles

Ele poderia ter ignorado aquela porta dupla que surgiu em seu caminho, mas enquanto andava pelos corredores e tentava tirar pensamentos ruins da cabeça, não pôde evitar. Observou a pouca iluminação que era feita por velas. Logo colocou um pedaço do corpo para dentro do recinto, checando se ninguém estava por ali. Com alívio, ele entrou completamente. O cansaço estava em seu auge, ele ainda nem sabia como suas pernas conseguiam mantê-lo de pé. Por vezes, ainda parecia um pesadelo. 
Principalmente por não saber o que aconteceria com aquela mulher. E se ela não resistisse? 
Joseph ergueu o rosto, olhando com atenção para o altar daquela pequena capela dentro do hospital. Negou com a cabeça, pensando seriamente em dar meia volta e sair. Por que pedir ajuda a Deus quando seu lugar no inferno já se encontrava perfeitamente reservado? Porém, o homem não tinha mais onde buscar ajuda. 
Relutante, ele se sentou na primeira fileira de bancos de madeira e apenas manteve os olhos baixos, evitando olhar para a imagem a sua frente. Respirou fundo, perguntando a si mesmo se não seria melhor fugir daquele lugar. Deixar para lá. Ele era um perigo para Demetria e, se ela sobrevivesse, provavelmente não iria nem sequer querer olhar em seu rosto novamente. 
Mas não conseguia. 
- Eu sinceramente não sei se você existe, e acho uma tremenda perda de tempo falar com algo inanimado. Mas não tenho mais para onde correr, não tenho... - flashes do acontecimento de mais cedo passaram como um filme agonizante diante de seus olhos. Joseph conseguiu sentir tudo novamente: a chuva caindo sobre seu corpo, o olhar frágil que recebeu dela, o barulho do tiro. A sensação do corpo desacordado de Demetria em contato com o seu. Sangrando, enfraquecendo mais a cada segundo. - É cruel quando isso acontece, não é? Procurar salvação em algo que você não acredita, no desconhecido. Então, tudo bem, se você existe, não está necessariamente nessa imagem, estou certo? Está em qualquer lugar. Esteve comigo durante todos esses anos vendo a droga de homem que fui, cada mísera burrada que fiz. Acho que suas costas já se viraram para mim há tempos. - riu sem alegria alguma. - Isso deve ser uma punição, eu sei! Mas ela... Aquele ser humano lindo por fora e por dentro não merece o que está acontecendo. - Joseph manteve as mãos fechadas em punhos enquanto falava, ainda escolhendo manter os olhos longe do centro do altar. - Eu odeio dizer isso em voz alta, mas ela é a melhor coisa que aconteceu em toda a minha vida. O que tem seu lado ruim, é claro. O lado ruim prevalece, porque não tenho e nunca terei o direito de chamá-la de minha. - levantando-se, ele deixou que seus olhos inchados e vazios encarassem o que estava acima dele pela primeira vez. - Por favor, salve ela. - após sussurrar, saiu andando sem olhar para trás. 
E procurou se afastar o máximo que pôde em seguida. 

Fim do flashback


Joseph não conseguia acreditar na coragem que teve de dirigir até aquele lugar. Assim que parou o carro, esfregou as próprias mãos e soltou o ar como se esse simples ato provocasse algum tipo de dor. Tinha receio de virar o rosto e encarar a pessoa sentada tranquilamente ao seu lado, que deixava um sorriso impecável se formar nos lábios pintados com um batom escuro. Ele se perguntava por que ainda não tinha começado a bater sua cabeça contra o volante, até que sentiu uma mão quente segurar a sua. 
- Chegamos, querido. Saia do carro, só sairei depois de você. - ela lhe disse com um olhar confiante, levando sua mão que segurava a dele até a coxa do homem, que olhou tensamente para aquele movimento e puxou seu braço com violência, esquivando o corpo de qualquer tipo de contato. Abriu a porta e saiu, sendo recebido por um forte vento. As folhas largadas no asfalto dançavam devido à tempestade que começava a se formar novamente. Joseph ergueu os olhos, perguntando-se o que diabos fazia em frente a uma igreja
Sua arquitetura era antiga, e isso só contribuiu para que a atmosfera que o rodeava se tornasse mais sombria. Valerie parou ao seu lado, cruzando os braços e erguendo apenas uma das sobrancelhas desenhadas de maneira perfeita. Ambos vestiam preto, ambos se olharam nos olhos. Apenas Valerie sorriu. 
- Uma igreja? - ele perguntou visivelmente irritado. 
- Sim, Jonas, uma igreja. - Valerie subiu no primeiro degrau, ficando de frente para o homem. Seus cabelos se chocavam contra seu rosto e ela não se preocupava com isso. - Vamos nos confessar. Porque você precisa se livrar de todos os seus antigos pecados. - seus olhos maquiados eram perversos, maliciosos ao extremo. - E abrir espaço para novos
- E quando eu pecarei? Quando te matar? Boa ideia! - Joseph sorriu de maneira irônica e passou a frente dela, mesmo que por dentro perguntasse a si mesmo o motivo de continuar fazendo o que aquela mulher estava mandando. Mas ele tinha que permanecer em silêncio, enganá-la. Só assim conseguiria. 
Os dois adentraram a igreja vazia e fitaram o longo corredor com bancos de madeira por ambos os lados. Os vitrais imensos e coloridos apagados por causa da escuridão da noite. Nem uma vela sequer estava acessa, como se quem cuidasse daquele lugar soubesse que os dois pisariam ali. Valerie adiantou-se a sentar em uma das fileiras de bancos, começando a rir quando notou um Joseph estagnado ao seu lado. Ela só podia estar brincando, ele pensou. A mulher loira deu uma batidinha na madeira do banco, o chamando para sentar com ela. 
A obedeceu contra sua vontade, mantendo os músculos de seu corpo tensos. Valerie se aproximou um pouco mais, roçando os braços dos dois. 
- Nunca pediu nada a Deus, Joe? - ela perguntou interessada, a voz sempre carregada de um charme venenoso. 
- O que você pretende me fazendo ficar dentro de uma igreja? Eu pensei que essa porcaria toda seria solucionada do jeito que combinamos. 
- Paciência é um dom que poucos têm. - Valerie fechou os olhos, fingindo-se de aborrecida. - Responda minha pergunta ou as coisas acontecerão à minha maneira. 
Ele desejou matá-la. Talvez fosse exagero, mas não aguentava mais servir de fantoche. Seu jeito impulsivo de ser não combinava com a situação. Fingir estar de acordo com tudo aquilo fazia seu coração bater enfurecidamente e dolorosamente no peito. 
- Só uma vez. - disse de qualquer jeito. 
- Suponho que o pedido envolvesse sua amada Demetria.
- Não ouse envolvê-la em tudo isso. 
- O que você vai fazer se eu tentar? - Valerie aproximou seu rosto do dele o máximo que conseguiu, deslizando delicadamente seus dedos mais uma vez pela coxa coberta de Joseph, que olhou para frente e empurrou sua mão dali novamente. Não estava tenso com as provocações inúteis dela, mas sim com outro momento que se aproximava. 
- Já que você quer tanto que eu confesse coisas, por que não começa a fazer o mesmo? - rosnou, os olhos verdes brilhavam em fúria. 
- Meu nome é Valerie Blanchett, sou uma viúva milionária. E sabe por que sou viúva? Porque meu marido me traiu e eu o matei. Em todo o caso, ele já estava com um pé na cova. - deu de ombros. - Não sei como teve energia para permanecer em cima de uma vadia qualquer que encontrou pelo caminho. - olhou para as unhas pintadas de vermelho calmamente, como se estivesse comentando como tinha sido seu dia. Joseph não se deixou impressionar, mesmo que por dentro se questionava se a aquela revelação era verídica ou não. Valerie quebrou todo o clima denso ao soltar uma risada alta, que ecoou por toda a igreja. - Estou brincando, querido. Meu marido tinha câncer cerebral. - estendeu as duas mãos e balançou os dedos. - Mãos limpas, vê? Não fiz nada. 
- Diga o que eu quero saber, porra! Até agora não entendi o seu envolvimento com o desgraçado do Arthur. 
- É como eu lhe disse ao telefone há poucos dias, coração: Reparou que os malvados sempre conhecem uns aos outros? É uma regra. Todos nós estávamos na mesma fruteira, todos fomos contaminados pela mesma fruta podre. Quem seria a primeira fruta podre e responsável pelo contágio? Grande, grande mistério. 
Apesar de tentar, Valerie não conseguiu arrancar um mísero riso ou sorriso de Joseph, mesmo que falso. Ela começava a se irritar, pensava que ele era um homem mais fácil. Conhecia algumas histórias de seu passado, mas, aparentemente, aquele homem que estava parado e com uma expressão indecifrável ao seu lado não era mais o mesmo. 
- Então podemos sair daqui agora e acabar com isso de uma vez por todas? - Joseph levantou-se e se afastou dela, dava passos determinados até a saída da igreja. Mas a voz alta de Valerie o congelou. 
- Você realmente não se lembra de mim, não é? - o homem virou apenas o rosto e a olhou sério, erguendo uma sobrancelha. 
- Deveria? 
Ele assistiu a mulher ficar cada vez mais próxima, parando enfim ao seu alcance, deslizando os dedos pelos ombros cobertos pelo paletó. Ela o olhava distraidamente, abrindo sorrisos felizes, um brilho intenso nos olhos. Na mente dela, pensamentos sujos predominavam. 
- Bem, vejamos... 

Flashback

A garota que completara dezoito anos recentemente voltava sozinha de uma festa, um pouco alterada pelo álcool, talvez. Dirigiu sem cuidado por uma estrada vazia, sem sinal algum de outros seres humanos. Mais a frente, ela avistou luzes fortes de faróis e decidiu estacionar, talvez fosse melhor esperar o veículo ir embora. Não sabia de quem se tratava. E enquanto tentou fazer isso, percebeu que algo estava errado. Seu carro parou de responder aos seus comandos. 
O outro carro parou e três homens com aparência de adolescentes desceram do mesmo, segurando garrafas de alguma bebida forte. Duas loiras saíram também, mas essas preferiam tomar certa distância. O mais alegre dos homens, provavelmente o mais bêbado, riu ao notar a moça dentro do carro e bateu no vidro. Ele aparentava ter no máximo vinte anos de idade. A garota do lado de dentro ergueu o rosto e o encarou por um instante, se lembrou de seu rosto. Seu bonito e malvado rosto. Os cabelos eram bagunçados, as roupas caras, mesmo que totalmente desarrumadas. Os dentes terrivelmente brancos sempre expostos em um sorriso que intimidaria qualquer um. Mas, apesar de tudo isso, um homem triste. Isso era notável devido a todas as suas atitudes imprudentes. 
- Hey, precisa de ajuda? - Joseph Jonas fingiu uma voz galante, escondendo as segundas intenções. Os outros homens apenas bebiam e se divertiam com o que seus olhos enxergavam. - Vamos, saia dai. Não vou morder... Tão forte. Prometo. - gargalhou. 
A garota puxou a porta e ingenuamente saiu do carro, encostando-se ao mesmo e encolhendo um pouco seu corpo quando Joseph quase grudou os dois e mediu cada detalhe de seu rosto. Ele também se recordou que sabia de quem se tratava. E isso, definitivamente, o fez ter uma ideia cruel. 
- Não sei o que aconteceu com o meu carro... 
- Ah, quer que eu dê uma olhada nele para você? 
Quando ela concordou com a cabeça, o homem deu passos para trás e pegou algo com um de seus amigos, então retornou com passos firmes, ombros relaxados e queixo erguido. Ela enxergou a luz dos postes refletir em um objeto pontudo e se preparou para o pior. Joseph se abaixou rapidamente e enfiou sem grande esforço a pequena faca na borracha resistente dos quatro pneus de seu carro, um de cada vez, desabilitando o uso de todos eles. A garota sentiu os olhos marejados e pensou em tomar uma iniciativa ou gritar, mas a faca estava perto demais de seu corpo. 
- Tudo bem, eu nunca enfiaria ela em você. Procuro não fazer mal a conhecidos... - os olhos dele se estreitaram. - Sim, eu sei quem você é. Valerie Blanchett, filha de um dos caras que tiram meu pai do sério. Aliás, ele sempre descontava a raiva que sentia do seu pai em mim. Quando eu não podia me defender. E, veja só, agora posso descontar a minha em você! - Joseph tomou o celular das mãos de Valerie, fingindo um aquecimento e depois ergueu o braço, o jogando para longe com toda a força que tinha. Depois, segurou um dos braços de Valerie e sussurrou em seu ouvido. - É uma bela noite, não? Sortudos aqueles que podem aproveitá-la. 
O homem se afastou, indo ao encontro de uma loira com decote chamativo e seios fartos, que pareceu satisfeita ao receber um beijo provocante. Depois que soltaram suas bocas, Joseph a abraçou pela cintura e desceu um pouco a mão, arrancando um risinho da mesma. Logo todos eles entraram no carro e deixaram Valerie sozinha, perguntando-se como sairia daquela emboscada. 

Fim do flashback.

Ele realmente não se lembrava. 
Apesar de se esforçar para conseguir lembrar, nada surgia em sua mente. E não se surpreendia com isso. Aquele fato fazia parte de um passado que ele não queria recordar. Então, mesmo que ela detalhasse ainda mais aquela lembrança, seria inútil. Mas Joseph não acreditava, não acreditava nas obras do destino que continuavam a construir barreiras e mais barreiras em sua vida. Quem mais de seu passado amargo seria enviado para o presente? 
- Agora você se lembra? Eu era só uma garota inocente que tinha acabado de sair da escola, nervosa, e então um bando de bêbados surge e acaba com a minha noite. Mas eu guardei seu rosto, meu amor, passei a te seguir desde então. Depois casei com um homem rico, e, como a vida sempre oferece coincidências chocantes todos os dias, conheci Arthur Sheppard. Um dos homens que mais quer te afundar em todo o mundo. E então, bastou apenas tempo para que tudo de desenrolasse. 
- Não faz sentido. 
- Faz sim. - Valerie torceu os lábios em uma demonstração de tristeza. - Você era tão detestável, e agora parece completamente bom. Eu sei que aquele vilão ainda está aí dentro... Consigo vê-lo, tentando sair. 
- Ele realmente está, mas só aparece para quem merece. - Joseph rebateu, olhando em seu relógio e assustando-se com a hora. Precisava sair logo dali. 
- Eu prefiro o Jonas que era o vilão na vida de todos, e não apenas na dos que mereciam. 
- Sinto muito não poder te agradar. - ele fingiu se importar. 
Está pronto
Sem uma resposta por parte dele, os dois saíram da igreja e voltaram para o carro. Pingos escassos começaram a cair do céu, e o vento cada vez ficava mais forte. Ninguém estava preparado para uma tempestade como a que se aproximava. E, não, água não teria nada a ver com aquilo. 
Joseph pisou no acelerador com força, arrancando com o carro e fazendo Valerie se sentir desconfortável. Era o que ela merecia. Na verdade, merecia muito mais. Após virar uma esquina e ultrapassar um sinal vermelho, ela se irritou com seu jeito bruto de dirigir e tentou pará-lo, tendo o corpo empurrado para seu banco novamente. 
- Vá devagar, seu idiota! - ralhou. 
- Aprenda uma coisa sobre mim: não sei ir devagar. Nunca. 
- Só por que vai quebrar o coração de sua amada, quer quebrar todos os ossos do meu corpo? - Valerie provocou e Joseph não sabia mais o que fazer para aumentar a velocidade do veículo. Talvez não fosse possível. 
- Sorte a sua morrer de um jeito tão rápido. 
O homem desejou intensamente algo. Algo que nunca pensou desejar. Algo que, naquele momento, seria semelhante a uma cura para qualquer male. Desejou estar preso. Na cadeia, como antes. Pelo menos saberia que não estava no comando de uma operação que poderia destruir sua própria vida. 
- Cale-se e apenas faça o que eu disser. Vamos dar um jeito no Arthur. 


Demetria's P.O.V

Abri um sorriso ao checar minha imagem no espelho mais uma vez. Será que ele gostaria de minha produção ou acharia exagerada? Eu estava sentindo que aquela seria uma boa noite, apesar da chuva que caía. Sentia que Joseph finalmente estava conseguindo contornar toda a situação com a empresa e o que teríamos naquela noite seria o começo de uma longa comemoração. Mas ele escolheu manter tudo em segredo, nem sequer me disse se o lugar onde iríamos ficava perto ou longe. 
Após borrifar um pouco de perfume nos pulsos, calcei os sapatos de salto e deslizei minhas mãos pelo tronco, só para acertar totalmente o vestido em minhas curvas. Saí feliz do quarto, cantarolando uma música qualquer. Gostaria de saber por que aquela tremenda ansiedade na boca do estômago andava me dominando tanto. E deixando isso de lado, me despedi dos meninos que já reclamavam de sono. Nancy era um anjo por adorar cuidar deles enquanto eu estivesse fora, seria eternamente grata a ela por isso. 
Impaciente, eu andava de um lado para o outro, olhando para um relógio de parede, escutando apenas as gotas de chuva do lado de fora e os saltos de meus sapatos se chocarem contra o chão. Já passava das nove, quase nove e meia. Onde ele estaria? Talvez a demora fosse parte da surpresa. 
Estava prestes a tomar um remédio para dor de estômago, já que ele não parava de reclamar e praticamente gritar para que eu ficasse calma. Minhas mãos inquietas ajeitavam compulsivamente o penteado em meu cabelo e o batom em meus lábios provavelmente encontrara um fim, já que eu não conseguia parar de mordê-los e passar a língua pelo fato de estarem secos. 
Escutei quando um carro parou em frente a casa. 
Sorrindo de orelha a orelha, peguei um guarda-chuva vermelho e minha bolsa, trancando a porta e confirmando que era meu marido. Caminhei rápido, mesmo com os saltos e fui chegando cada vez mais perto do carro. O ar era frio e úmido, a rua contava com uma iluminação quase nula. E, de repente, meu sorriso se desfez. 

You look so fine
(Você parece tão bem)
I want to break your heart
(Quero partir seu coração)
And give you mine
(E te dar o meu)
You're taking me over.
(Você está me dominando.)

Joseph estava parado a minha frente, um semblante tão duro que quase doía apenas por olhar. Duas linhas roxas embaixo de seus olhos entregavam seu cansaço, os lábios trancados em uma linha reta me causaram arrepios. Os olhos mortos confirmaram que, não, aquela não seria a noite que imaginei. Principalmente porque, quando pensei em me aproximar e dizer a ele que estava tudo bem se permanecêssemos em casa, a outra porta do carro se abriu e uma mulher revelou-se. A mulher que vi com Joseph em uma fotografia, no dia do maldito baile. Provavelmente eu acabaria adquirindo um grave problema em meu estômago, porque, naquele momento, ele passou a doer de verdade, revirar-se dentro de mim. 
Ela me olhava serenamente, e apoiava os dois braços na parte de cima do carro, erguendo os cantos dos lábios e as sobrancelhas. Meus olhos procuraram pelos de meu marido atrás de uma explicação, mas tudo que ele fez foi dar um passo a minha frente e, sem me tocar, soltou as palavras: 
- Só passei aqui para me despedir. 
Choque. Descrença. Confusão. Foram algumas das sensações que passaram pelo meu corpo e marejaram meus olhos. Pedi aos céus que se tratasse de outro sonho, um pesadelo tão cruel que eu acordaria abalada e correria até Joe para abraçá-lo. Mas quanto mais eu tentava acordar, menos acreditava ser capaz de conseguir. 
- C-como é? - perguntei incrédula, sem paciência para segurar o guarda-chuva. Então o larguei no chão, deixando que a chuva me molhasse. Tudo se arruinava aos poucos, então não faria diferença.
Meu marido mordeu seu lábio inferior com força, virando o pescoço para encarar a mulher o devolveu com outro olhar malicioso. Meu coração acelerou. Uma imagem angustiante se formou em minha mente, e não adiantava tentar apagá-la. Já estava plantada ali, sem opção de remoção. O nojo foi certeiro, mas meu coração, tolo como sempre foi, implorava para que eu buscasse por alguma explicação melhor. 
- Não sei quando nos veremos de novo, Demetria. Eu tenho de ir agora. Por favor, não faça drama. Apenas me deixe ir com ela. Eu preciso ir com ela. Eu quero ir com ela
- É algum problema da empresa? Eu posso ir com você agora, nós damos um jeito. - ignorei o que ele tinha dito sobre ela e estava prestes a virar o corpo e entrar em casa para solucionar aquela situação, mas ele negou com a cabeça e me pediu para permanecer onde eu estava. 
- Não percebeu ainda que não estou te chamando para ir? - não consegui aceitar. Meu orgulho falou mais algo do que tudo. 
E estava ferido. 
Impulsivamente eu ergui meu braço e acertei um tapa em seu rosto. Deixando que a fúria em meu olhar escorresse, que a decepção borbulhasse em meu interior. Ele apenas segurou o local com a mão, não se dando ao luxo de se mostrar irritado. Desejei não estar tão arrependida. 

It's so insane
(É tão insano)
You've got me tethered and chained
(Você me mantém presa e acorrentada)
I hear your name
(Ouço seu nome)
And I'm falling over.
(E estou caindo.)

- Você está me deixando? Deixando seus filhos? - questionei em voz alta, logo os vizinhos notariam e não seria nada bom. - Qual é a piada, Joseph? Me diga que meus olhos não estão vendo, não estão vendo essa vadia sair de dentro do seu carro e te olhar como se... Como se... - não consegui prosseguir. 
- Confie em mim. - já recuperado de meu tapa, ele pediu com a voz leve. A raiva voltou. 
- Não posso! Você está... Está me traindo, certo? Com ela? Mentiu quando usou aquela explicação barata depois do baile, mentiu quando disse que me respeitaria! 
Jonas, ela é mais esquentadinha do que eu imaginei... - escutei a voz daquela mulher soar e a olhei com fúria, me esquecendo de Joseph e cruzando o carro, pronta para o pior de mim. Mas o homem que naquele momento eu odiava me segurou com força pelo braço e me puxou para trás. Tentei me soltar, não desgrudando nossos globos oculares. 
Demetria, pare com isso, agora! Deixe-me ir. Antes que tudo se complique ainda mais e... 
- Você não vai negar, não é? Não vai negar que dormiu com ela. - bati palmas ironicamente, tão descontrolada que não me lembrei de deixar que lágrima alguma caísse. Ele pensou por segundos e depois se recuperou, o olhar duro que eu tanto repudiava. 
Quando eu o trai, pensei no pior. Mas pela maneira como ele me olhava, provavelmente não tinha pensado em nada. 
Andei de um lado para o outro, batendo levemente em meu próprio rosto, na esperança utópica de que ainda tinha a chance de acordar. Mas a cena permaneceu a mesma. 
Na verdade, ela mudou para pior. 
Cansei de te prometer um final feliz. - confessou sem emoção, os olhos mal piscavam. Seu peito subia e descia da maneira que só acontecia quando ele estava com muita raiva de alguma coisa. O lugar em que acertei em seu rosto adquiria um tom avermelhado. 

I'm not like all the other girls
(Eu não sou como as outras garotas)
I can't take it like the other girls
(Eu não posso aguentar como as outras garotas)
I won't share it like the other girls
(Eu não vou dividir como as outras garotas)
That you used to know.
(Que você estava acostumado.)

- EU NÃO QUERO UM FINAL FELIZ, EU QUERO UM FINAL COM VOCÊ, SEU IDIOTA! - gritei a todo pulmões, pouco me importando com o mundo a minha volta. - Independente de como ele seja... - a vontade de deixar de amá-lo era crescente. Mas só de pensar em conseguir, qualquer mísero calor presente em meu corpo ia embora. Eu estava cansada, completamente cansada. Os intervalos para que um novo golpe fosse dado em minha vida diminuíam cada vez mais... Temi que logo não fosse mais capaz de ter um único dia feliz. 
Demi... 
- Se ousar ir embora, não pense em voltar. Eu não quero que você volte. - menti. 
Ele não me respondeu. Apenas voltou a colocar o corpo para dentro do carro e foi seguido pela mulher loira, que deu um aceno debochado para mim. O motor do carro roncou e desapareceu em questão de segundos pela chuva, provavelmente ele dirigia rápido demais. 
E então, certas coisas passaram a fazer sentido. Mesmo com o organismo a ponto de entrar em colapso, consegui associar certos fatos. 
"Primeiro, gostaria de dizer que você merece longas semanas sem minha presença por dizer essas coisas." Foi o que ele disse quando perguntei se estava se cansando de mim. Mas extasiada demais com seu jeito apaixonante de falar, acabei por não notar o sentido ambíguo que se escondia naquela frase. 
"Nós não nascemos para viver em uma rotina... Eu te prometo." Se existia uma promessa que eu gostaria que ele não tivesse feito, era aquela. Passei a clamar por uma rotina. Uma rotina que fazia parte da vida dos casais que passavam diariamente por mim nas ruas. Tão felizes com sua realidade pacata... Tão livres de toda aquela porcaria. 
"Eu te amo, Demetria Jonas. Isso é tudo que importa agora. É tudo que vai importar depois.
MENTIROSO! - gritei novamente, mesmo sabendo que ele não seria mais capaz de ouvir. 
Meus olhos, tão ofendidos com o que enxergavam, que a imagem quase tinha o poder se de tornar preta e branca. 

You look so fine.
(Você parece tão bem.)

A luz me iluminou durante muito tempo e, sem mais nem menos, resolveu me deixar. Escuridão. Eu estava em plena escuridão. Sem rumo, sem vontade de continuar viva. Odiando a mim mesma pela fraqueza. Odiando a ele por agir daquela maneira tão detestável. Por que teve de ser tão rápido? Por que simplesmente não fingiu que estava tudo bem, fingiu um final feliz? Por que sempre tinha que me magoar ao extremo antes de partir? Joseph era egoísta. Eu estava quase acreditando que ele se deliciava com o meu sofrimento. Quase acreditando que seu amor por mim não existia mais. Se é que um dia existiu de fato. 
Era tão inacreditável! A cena que acabara de acontecer no teatro real daquela cruel vida parecia exagerada demais, incerta demais. Fora do lugar. Parte da minha consciência insistia ao dizer "Você sabe que ele deve ter um motivo muito forte para fazer isso, então por que está tão descontrolada?" Mas eu não queria ser racional, não queria parar para pensar com clareza. Por que ele mentiu? Eu lhe disse que gostaria de saber caso se cansasse de mim. Por que simplesmente não colocou um fim entre nós antes de me matar por dentro daquela maneira? 

Knocked down
(Abatida)
Cried out
(Desesperada)
Been down just to find out
(Estive para baixo só pra descobrir)
I'm through
(Estou farta)
Bleeding for you.
(De sangrar por você.)

Por que ele não negou a traição? 
Eu não os vi juntos, não obtive uma confirmação através daqueles lábios. Mas também não obtive uma negação. Ele não se deu ao trabalho de desmentir. Simplesmente... Foi embora. Eu não sabia nem mesmo a direção que escolheu tomar. 
Olhando ao redor e com a respiração descompassada, corri para dentro da casa novamente e ignorei Nancy que se colocou em meu caminho tentando saber o que acontecia. Ignorei a dor nos pés pelos saltos, ignorei tudo que não fizesse parte do ódio que sentia. Cheguei como que na velocidade da luz ao quarto que dividi tantos momentos com aquele homem e puxei as portas do closet, entrando de qualquer jeito e tomando em mãos uma das grandes caixas brancas. 
Eu estava vazia. Entorpecida. 

I'm open wide
(Estou bem aberta)
I want to take you home
(Quero levá-lo para casa)
We'll waste some time
(Vamos desperdiçar um tempo)
You're the only one for me.
(Você é o único para mim.)

You look so fine
(Você parece tão bem)
I'm like the desert tonight
(Sou como o deserto hoje à noite)
Left her behind
(Deixe ela para lá)
If you want to show me.
(Se você quiser me mostrar.)

A joguei com violência no chão, me ajoelhando e puxando sua tampa de qualquer jeito. O vermelho estava por toda a parte. Uma beleza tão refinada, mas que escondia tantas tragédias. Tantas mentiras mascaradas com a beleza de uma verdade inexistente. Minha primeira reação foi trazê-lo para fora e segurar um pedaço de sua saia com força, puxando minhas duas mãos que o apertavam em direções contrárias. O som do tecido se rasgando perfurou meu ouvido e meu coração palpitou de maneira insuportável. Me senti como se estivesse perdendo o ar. Mas continuei. Continuei até que meu corpo se levantou sem que eu percebesse, para conseguir efetuar rasgos mais precisos, destroçando totalmente algo que deveria me trazer apenas boas recordações. Mas, não, eu não tinha boas lembranças daquele casamento. Meu melhor amigo que participara dele estava morto, minha melhor amiga que participara dele me apunhalou pelas costas. O homem que escolhi para entregar minha vida pisou em meu coração como se fosse uma pedra miserável em seu caminho. Mais uma vez. 
Sentindo a garganta doer, esbravejei quando fiz força para rasgar outra parte. Minhas mãos tremiam tanto que eu mal conseguia controlá-las, era como se uma força maior estivesse se apossando de mim e finalizando todo aquele estrago. 
Ofegante, caí novamente de joelhos e observei o vestido retalhado a minha frente, no chão. Eu sabia desde muito tempo que bastaria apenas uma situação como aquela para me fazer surtar de vez. Estava mortalmente arrependida, segurando algumas partes do tecido que roçavam em minhas mãos, queria poder remendá-lo até que ficasse perfeito como antes. Mas não era possível. 
Suspirei agoniada, pois não conseguia chorar. 

You're taking me over
(Você está me dominando)
Over and over
(Repetidas vezes)
I'm falling over
(Eu estou caindo)
Over and over.
(Repetidas vezes.)

You're taking me over
(Você está me dominando)
Drown in me one more time
(Afogue-se em mim mais uma vez)
Hide inside me tonight
(Esconda-se dentro de mim hoje à noite)
Do what you want to do
(Faça o que quiser fazer)
Just pretend happy end
(Apenas finja um final feliz)
Let me know, let it show.
(Me avise, demonstre.)

Era a segunda vez que Joseph me magoava de uma maneira tão absurda. Segunda vez que tentaria de tudo para me ter de volta, pois sabia que eu precisava demais dele para ficar longe. Última vez que eu permitiria isso. 
Eu me condenava tanto naquele momento, pois nem a capacidade de pensar em meus filhos conseguia ter. Só pensava na minha dor, em como seria difícil a partir daquele momento. Não conseguia mais parar de imaginá-lo em um momento íntimo com aquela desgraçada que eu mal sabia o nome. Joseph não tinha o direito de fazer aquilo comigo... Eu entreguei a ele tudo que tinha, não era justo jogar fora como se não fosse nada. Lixo. 
Eu o amava, sim, amava de um jeito que por vezes me deixava desconcertada. Mas não era justo ter meu coração partido tantas e tantas vezes por alguém que prometeu cuidar para que isso não acontecesse. Eu o odiava naquele momento, odiava como nunca pensei conseguir. O ódio preso ao amor; o amor preso ao ódio. 

Ending with letting go
(Terminando com tudo, deixando para lá)
Ending with letting go
(Terminando com tudo, deixando para lá)
Ending with letting go.
(Terminando com tudo, deixando para lá.)

Constatei que meus olhos estavam secos, eu não seria fraca. Não mais. Se eu não poderia jamais ter uma vida normal, me acostumaria com o oposto. Final feliz? Já não fazia mais questão disso. Tudo que eu queria era fazê-lo se sentir exatamente como eu estava me sentindo. Mesmo que, tempos depois, desmoronasse em seus braços. Pois, como ele mesmo me disse: o amor dói. 

Let's pretend, happy end.
(Vamos fingir um final feliz.)


O tempo passou, e eu não encontrava motivação alguma para levantar. Então continuei com o corpo largado no chão, com a saia rasgada do vestido cobrindo minhas pernas. Por que eu o rasguei? Daria qualquer coisa para perder aquela detestável capacidade de agir totalmente por um impulso que surgia sem aviso, e depois me fazia chorar com o mais devastador arrependimento. Minha respiração já estava normalizada, meu coração tentava bater como era recomendado e meus olhos permaneciam secos, perdidos na quase escuridão do quarto. O cheiro dele estava por toda a parte, não havia lugar onde se esconder. Não dentro daquela casa. Mas eu não queria sair dali, pois era o único lugar no mundo onde eu me sentia totalmente segura. Mesmo depois daquela terrível noite, isso não mudou. 
Identifiquei o choro baixinho de Matthew e por instinto me levantei rápido, sentindo tontura em seguida. Segurei minha cabeça com uma das mãos e me apoiei nas paredes até chegar à porta. Cruzei o corredor e entrei no quarto de Matt, o pegando no colo e o tirando dali. Ele me olhava e mais e mais lágrimas saíam de seus olhinhos verdes. Apenas beijei sua testa e o levei para dentro de meu quarto novamente. Chequei sua temperatura, mas não estava com febre. A fralda ainda não precisava ser trocada e ele não tinha fome. Talvez apenas estivesse triste... Exatamente como sua mãe. 
Sentei no meio da cama, esticando as pernas e me mantendo encostada na cabeceira. Apertei o corpo de Matthew ainda mais contra o meu, e cantarolei em sussurros a primeira música que veio em minha cabeça. 
- Eu sei, meu amor, eu sei. Também gostaria que ele estivesse aqui agora... - uma de suas mãos delicadas tocou minha bochecha e eu a beijei, me esquecendo por um instante do que tinha acontecido. Queria apenas fitá-lo. 
Aquele bebê cada dia perdia os possíveis traços que poderia herdar de mim e se tornava parecido em excesso com seu pai. Os olhos eram os meus, o nariz também. O tom de pele, a cor dos cabelos. E isso não me fez sentir raiva devido a lembrança imediata de Joseph. Subitamente me senti feliz. Feliz porque não estava sozinha. 
A porta do quarto abriu totalmente em um barulho desconfortável e Jamie se revelou, me olhando com receio. Eu o chamei e logo o garoto estava sentado na cama ao meu lado, procurando por palavras que nem mesmo entendia o verdadeiro significado ainda. Passei os dedos pelos seus cabelos escuros e apenas ergui os cantos dos lábios em um sorriso. 
- Quer ouvir uma história, Jamie? - ele apenas consentiu. - Era uma noite de eclipse lunar... O mar nunca fora tão agitado, escuro, desafiador. Ele se sentia incompleto, porque a lua, sua fiel amiga, tinha desaparecido, deixando apenas que uma insignificante parte de sua luz permanecesse no céu. A lua, por sua vez, sentia-se esquecida e invisível. Preocupava-se com o mar, temendo que ele encontrasse algo que combinasse melhor com a sua beleza. As pessoas ao redor da praia apreciavam tudo aquilo, considerando uma bela paisagem... Mas os dois, lua e mar, torciam incessantemente para que aquela estranha noite acabasse de uma vez. Bem rápido, tão rápido como fora a sua separação. 
Fechei a boca e engoli em seco, observando linhas de confusão se formarem na testa de Jamie, assim como suas sobrancelhas que se uniram. 
- E o que aconteceu depois? 
- Os dois estão esperando que o dia amanheça e que a noite caia novamente... Quem sabe, poderão ficar juntos novamente. 
Jamie não disse mais nada, mas eu sabia que ele era capaz de entender que a história que lhe contei entregava que passávamos por uma situação ruim. Felizmente, aqueles dois meninos não permitiriam que eu me esquecesse de uma coisa: eu ainda era a Demetria de antes, sim, ela ainda estava dentro de mim. A Demetria forte que não pensava antes de defender o que amava. Tudo que eu precisava fazer, era conseguir forças para colocá-la em ação mais uma vez. 
Contra quem for. 

Um comentário:

  1. Tem como você divulgar meu blog por favor? historiaslove.blogspot.com

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Sem comentario, sem fic ;-)