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sábado, 28 de junho de 2014

Secretary II - Capítulo 23


Inferno



Joseph abriu os olhos e devido a escuridão tateou a parede, tentando descobrir onde estava. O ambiente era sufocante, obrigando ele a respirar fundo e forçar os músculos das pernas para que pudesse levantar. Assim que deu alguns passos, percebeu que o local realmente não era grande, seu corpo foi impedido de continuar por uma parede fria e rústica. Ainda em meio a escuridão, ele se virou e conseguiu enxergar uma pequena janela um pouco acima de onde estava deitado. Ela estava fechada. Praticamente correu até a mesma e tentou abri-la, tendo que usar mais força, não sabendo se aguentaria. Estava fraco.
Quando finalmente conseguiu abrir a janela e deixar um pouco da luz da lua iluminar o recinto, se assustou ao descobrir que não estava sozinho naquele cubículo. Continuou estático e com os olhos arregalados, até que ela deu um passo a frente, sorrindo. De repente, Joseph não se sentiu mais assustado e desceu da cama, ficando de frente para ela. Os dois se olharam por segundos que pareceram uma eternidade e então ele sorriu também, mesmo não sentindo vontade.
- Erin... - ele começou, incerto se estava sonhando ou enlouquecendo. - O que faz aqui? - Joseph sentiu a mão dela se encostar em seu rosto e pôde olhá-la melhor. Estava diferente. Os cabelos estavam compridos e ela não usava óculos. Também parecia mais alta e com um corpo mais desenvolvido. Erin fez um carinho singelo no rosto dele e voltou a sorrir.
- Já fazem tantos anos, não é? - sua voz soou angelical, provocando um efeito calmante no corpo de Joseph. - E você continua com os mesmos olhos tristes daquele menino. Sinto a sua falta, Joe.
- Eu também sinto a sua. Queria poder ter visto você uma última vez, antes que... - a fala dele foi cortada por um "shh" que saiu pelos lábios dela.
- Tudo que você faz é lamentar, Joseph. Pare um pouco com isso. - os dois se sentaram na cama, encarando o nada. - Eu sempre vou acreditar em você, na sua inocência. Sempre vou acreditar no seu melhor. Não se esqueça.
- Eu vou enlouquecer se continuar preso, Erin. Sinto que estou mudando com tudo isso... E eu não quero mudar. - o tom na voz de Joseph entregava todo o medo que ele sentia de ficar preso para sempre. Os dias e noites atrás das grades estavam tornando ele frio, como se lembrava de ter sido um dia.
- Tem mais alguma coisa acontecendo com você? - Erin perguntou, mesmo já sabendo a resposta. Ele a olhou nos olhos.
- Tem. - concordou com a cabeça e engoliu em seco. - Por que de repente eu não tenho mais certeza de nada?
- Não se preocupe, meu garoto... - ela negou com a cabeça, se aproximando dele e dando um beijo em sua bochecha. Joseph fechou os olhos e sentiu a temperatura do lugar cair. Os lábios que estavam em sua bochecha se afastaram e ele abriu os olhos. Se assustou quando percebeu que não era mais Erin que estava ao seu lado. Era Demetria.
- Eu sempre vou acreditar em você, meu amor. - ela disse, com a voz carregada de convicção e ternura. Como ele sentia saudade de ouvi-la falando daquele jeito com ele. Mas aquilo não aliviou a confusão que se instalava em sua mente.
- Demi... - ele chamou, com insegurança.
- Feche os olhos. - ela pediu docemente. O jeito que os cabelos escuros caiam enrolados pelos ombros o fascinavam. Como podia ser tão linda? Ele não pensou duas vezes antes de obedecerDemetria. E logo sentiu a queda de temperatura de novo. Não esperou que a sensação passasse, abriu os olhos de imediato.
Erin estava ao seu lado, Demetria tinha sumido.
Joseph se levantou e levou as mãos até a cabeça, procurando por alguma explicação no rosto sereno do ser loiro a sua frente.
- O que houve com a Demetria? - ele sentiu todo o seu corpo tremer quando a imagem de Erin se transformou na de Demetria. Como se fosse mágica. Embasbacado, Joseph se afastou e deixou o corpo encostar na parede. Demetria apenas se levantou e foi para perto do homem, ignorando o fato de que ele tentava se esquivar dela.
- Sempre vou acreditar que existe bondade dentro de você, Joe.
- Por favor, parem com isso! - ele pediu, confuso demais. A imagem a sua frente voltou a mudar. Erin tinha um semblante triste.
Joseph estava prestes a perder a razão, não queria mais olhar para o que estava a sua frente. Fechou os olhos e implorou para que acordasse. Só podia ser um sonho.
 

Quando abriu os olhos, o sol entrava pela pequena janela acima de sua cama. Sua cela não parecia mais tão claustrofóbica e nem fria. Sim, tinha sido um sonho. Ele só não entendia o motivo de ter sonhado com algo tão bizarro. O que Demetria tinha a ver com Erin? Por que as duas pareciam ser a mesma pessoa naquele sonho? Era loucura que fosse apenas pelo fato de que as duas acreditavam nele. Loucura. 
Sem nada mais para fazer, e mesmo com medo de voltar para aquele sonho, ele dormiu novamente. 


Demetria's P.O.V

(n/a: Coloque essa música para tocar)

O casaco de couro se ajeitou perfeitamente em meu corpo, assim como as calças justas e as botas. A junção daquelas peças me deixou com um ar rebelde, como se eu realmente fosse vocalista de uma banda de rock. Exatamente como desejei ser no passado. Ajeitei o leve decote da blusa vermelha que estava por baixo da jaqueta e caminhei até minha penteadeira, ouvindo os saltos altos e finos se chocarem com o chão. Me olhei no espelho por um instante e não hesitei ao soltar meu cabelo e penteá-lo para o lado, as pontas não estavam enroladas e ele parecia mais escuro do que nunca. A maquiagem em meus olhos era negra e um pouco borrada, exatamente como eu me lembrava de fazer quando era adolescente. Exatamente do jeito que fazia com que Carter zombasse de mim. Enquanto passava um batom de cor forte, percebi que um sorriso de canto surgiu em meus lábios. Não sabia porque estava sorrindo, mas queria sorrir. Algo dentro de mim dizia que aquele plano arriscado daria certo. 
Saí da frente da penteadeira e saí do quarto, descendo as escadas e escutando um carro buzinar do lado de fora. Assim que abri a porta, avistei Scarlett e Caleb. Ambos vestidos de preto, assim como a ocasião pedia. Ele não parecia mais o cara nerd e desajeitado que eu tinha conhecido; ela estava com uma roupa parecida com a minha, a única diferença era que não estava com saltos altos. Assim que me olharam, eles arregalaram os olhos. 
- Quem é você e o que fez com a Demetria? - Caleb perguntou, arrancando um risinho de Scarlett. Ela imitou um som de gato e arranhou no ar. Quando Scarlett começou a procurar por algo no bolso interno da jaqueta, enxerguei duas seringas pequenas e lacradas e um pequeno frasco branco. Ela estendeu aqueles três objetos para mim e, como se agisse por conta própria, minha mão se estendeu para pegá-los de uma vez. Olhei determinada para os dois. 
- Hoje Demetria está morta, vamos logo ao que interessa. - falei, guardando as coisas no bolso da minha jaqueta e passando por eles até a direção do carro. 
- Eu ainda acho que isso é uma missão suicida. - escutei a voz de Caleb atrás de mim. 
- Você não acha nada, gato. Nem deveria estar com a gente, então cala a boca e entra no carro. - virei o corpo para olhar os dois, sentindo vontade de rir. Ele a olhou inconformado e abriu a porta. - Ok... - ela olhou para nós dois e mordeu o lábio inferior. - Sammy e... - Scarlett mediu Caleb de cima a baixo. - Castiel... Temos um demônio para caçar! 
- Por que eu sou o Castiel e ela é o Sam? - ele perguntou e eu revirei os olhos. 
- Olhe para a sua cara de anjo, Caleb! - ela apontou para o rosto dele como se aquilo fosse uma coisa óbvia e finalmente todos entraram no carro. Scarlett dirigia, Caleb estava no banco do passageiro e eu no banco de trás. Pelo retrovisor, eu e Scarlett nos olhamos. Eu não poderia deixar que ela percebesse o quanto assustada eu estava. Como já tinha dito: naquela noite, Demetria estava morta. Tinha que dar certo. Foquei meus pensamentos em Joseph livre novamente, em meus braços. Era tudo que importava. 
I'm on the highway to hell, on the highway to hell... - quebrando o silêncio que envolvia o carro já em movimento, Scarlett começou a cantar, aumentando um pouco o volúme da música. Não me importei, ocupada com diversos pensamentos. 
Arquitetando ideias extras para que nada saísse errado. Se o plano principal não funcionasse, eu poderia usar um segundo. Mas é claro que Scarlett e Caleb não precisavam saber dele. 
Um outro carro buzinou para nós e o motorista xingou algo que não consegui entender. Scarlett estava distraída e dirigia em alta velocidade, logo acabaria nos matando. Caleb também percebeu. 
- Será que dá para você tomar cuidado? - ele pediu, olhando com raiva para ela. Afinal, o que estava acontecendo entre aqueles dois? 
- Sério que você vai ser um pé no saco? Vem dirigir, então! - ela freou bruscamente, impulsionando nossos corpos para frente. Abriu a porta e desceu, encarando Caleb do lado de fora. - Anda, seu recatado, saia daí e me ensine e dirigir como um homem! - Caleb bufou e também abriu a porta, saindo. Os dois passaram um pelo outro na frente do carro e logo estavam de volta, trocando de lugar.
- Existe um abismo entre dirigir em alta velocidade e dirigir feito uma tapada! - Caleb soltou as palavras, girando a chave na ignição e arrancando com o carro. Scarlett foi pega de surpresa e quase bateu a cabeça no banco, cruzando os braços e olhando para ele com aquela típica cara de "Você não perde por esperar!" Fingi que não estava mais presente, só para ver até onde ela briga chegaria. 
Depois de vários mínutos, Caleb estacionou em frente a um lugar repleto de outros carros e pessoas vestidas totalmente de preto, assim como nós. Abri a porta e saí, olhando para as luzes fortes que piscavam em um tom de vermelho. 
- Quanta nostalgia... - Scarlett comentou, ficando ao meu lado. 
- Ah, que ótimo! Você nos trouxe para um bordel? - arregalei meus olhos quando vi apenas o vulto de Scarlett puxar o corpo de Caleb e chocá-lo com o carro. Ela segurava os braços dele de maneiras que ficavam dobrados para trás, com uma expressão demoníaca no rosto. Ele apenas fechou os olhos e tentou fingir que não estava doendo. 
- Você está me irritando. 
- Você é maluca! 
- E vocês dois precisam urgentemente ficar a sós entre quatro paredes! - assim que eu disse aquilo, ela o soltou e os dois me olharam abiscamos. Levantei os cantos dos lábios e percebi que ambos se afastaram, tentando ignorar o que estava acontecendo. Olhando para a enorme fila perto da entrada do que só podia ser uma boate, apontei para a peruca que Scarlett estava segurando. 
- Ah, eu tinha me esquecido! - rapidamente ela colocou a peruca chanel de cor preta e óculos escuros. Caleb também colocou óculos escuros. Eles tinham disfarces, eu não. Scar caminhou com passos decididos até o começo da fila, abaixando os óculos e deixando que o segurança e o responsável pela lista de nomes a reconhecessem. Logo olharam para mim e para Caleb e cederam passagem, puxando uma corrente de prata para o lado. 
- O que você fez? - Caleb perguntou para ela, como se já tivesse se esquecido da briga de antes. 
- Cara, eu tenho meus meios! 
O interior da boate era excêntrico! Olhei para baixo e percebi que o chão da pista de dança era de vidro, produzindo uma imagem de fogo, como se as pessoas estivessem dançando sobre chamas. As paredes eram brancas e pretas; as pretas tinham alguns objetos de prata pendurados, como correntes e algemas; as brancas estavam manchadas se sangue, com frases sombrias escritas. O lugar tinha um ar vampiresco, todos estavam vestidos com roupas pretas ou vermelhas. Duas escadas enormes em formato de caracol levavam até um andar superior, onde conjuntos de luzes verdes e vermelhas davam a sensação de que se poderia enlouquecer a qualquer momento. A música de batidas frenéticas fazia meu estômago revirar. 
Quando pensei em um jeito de atrair Carter para que pudéssemos pegar a tal da fita, não pensei em um lugar como aquele. Na verdade, pensei apenas em um jeito de atrair sua atenção, dizer a ele tudo que eu sabia e, caso fosse necessário, me arriscar para mantê-lo longe de sua casa. Mas Scarlett precisava ir mais longe e acrescentar ideias a toda aquela armação. Eu não sabia como ela tinha conseguido a droga que estava em meu bolso, muito menos se daria certo. Pensei até na hipótese de Carter não aparecer. 
- Então, é isso... - Scarlett disse alto, ficando a nossa frente. - Bem vindos ao inferno! - não existia nome melhor para aquela boate. Inferno era a definição perfeita. 
Duas mulheres bêbadas passaram por nós. Uma delas chocou o corpo da outra com a parede e começou a beijar seu pescoço. Eu e Scarlett demos de ombros, mas Caleb parecia estático. Quando elas realmente começaram a se beijar, a situação dele piorou. Mesmo com ele tentando esconder, Scarlett virou o rosto e percebeu, rindo alto. 
- Qual é, Caleb? Nunca viu duas mulheres tendo esse tipo de contato? Digo, fora de uma tela de computador, é claro. 
- Por que você não cala a boca? - ele rosnou, desviando o olhar do casal. 
- Por que você não faz eu me calar? - eu não acreditava que eles estavam começando de novo! 
- Se quiser, eu faço! 
- Então, vem! - quando ele ia se aproximar, ele o empurrou pelo peito. 
- Qual é o seu problema? - ele gritou, devido a música que parecia ficar mais alta. 
- Qual é o seu problema? - o grito dela foi mais estridente que o dele. 
Tensão sexual. - respondi pelos dois, erguendo uma sobrancelha e obrigando ambos a pararem com aquela briga infântil. 
- Claro que não! - Scarlett cruzou os braços e nós começamos realmente a entrar dentro do local. Coloquei meus pés em cima da pista de vidro e a impressão de que o fogo poderia me queimar era bem real, mesmo que a temperatura no ambiente estivesse baixa. 
- Pelo que vocês falam do Carter, isso aqui é bem a cara dele. - um Caleb já mais calmo comentou, se mantendo longe de Scar. Eu tinha que ficar no meio dos dois. 
- Acredite, é sim. - concordei, sentindo minha cabeça doer com todo aquele barulho. Respirei fundo e olhei ao redor, tentando procurar por ele
- Ele não deve ter chegado ainda, Demetria. - Scarlett disse, procurando também. 
- Em todo o caso, vocês ficam por aqui e eu vou esperar por ele na parte superior. 
- Tem certeza? 
- Tenho. - a convicção em minha voz fora tão bem ensaiada, que até eu mesma estava quase acreditando. 
- Sabe o que fazer com aquilo, certo? - ela apontou para o bolso da minha jaqueta e eu levei a mão até o lugar, me certificando de que não tinha perdido nada. 
- Sim... - mordi o lábio, confiante. - Esperem o meu chamado. E, por favor, não se matem! - deixei um risinho escapar. 
- Tome cuidado, Demi. - Caleb alertou. 
Apenas balancei a cabeça de forma positiva e me afastei deles, entrando no meio daquele inferno. Sendo praticamente cegada por todas aquelas luzes e depois de esbarrar em várias pessoas, consegui chegar até a escada. Subi com pressa, tomando cuidado para não tropeçar nos próprios pés, com os olhos atentos. Preparada para o que estava por vir. 

/Demetria's P.O.V


Quando Demetria sumiu de sua visão, Scarlett ficou encarando Caleb por um longo tempo, até que ele olhou para ela também. A mulher começou a rir e foi para perto dele, o abraçando. Ele riu e correspondeu o abraço. 
- Que coisa mais ridícula... Tem gente se reproduzindo nesse lugar e você e eu estamos nos abraçando. - ela zombou. 
- Me desculpe, ok? - ele decidiu falar. 
- Não, me desculpe você. Foi totalmente nada a ver brigar daquele jeito. 
- Não é? Nem temos motivos para brigar! - Scarlett concordou com a cabeça, levantando as sobrancelhas. 
- Claro que não! Tensão sexual... - ela disse as últimas duas palavras em um tom de deboche. - Fala sério! 
Demetria é louca! - Caleb disse, encarando a pista de dança. 
- Ah, ela é? - Scarlett cruzou os braços, com cara de ofendida. Não por Demetria ter sido chamada de louca, mas pelo fato de que ele também pensava que aquilo era uma besteira. 
- Talvez... 
Ele tentou dizer, mas ela foi mais rápida e o puxou pela braço, contornando aquela pequena multidão. 
- Chega, vamos beber! 
- Você não está nem um pouco preocupada com tudo isso? - ele apontou na região em que Demetria provavelmente estava. 
- Se eu me preocupar com tudo e realmente deixar essa preocupação transparecer, fico louca! 
Quando finalmente chegaram ao bar, se sentaram e Scarlett ficou se balançando no ritmo da música, pensando no que pedir. 
- Eu quero um Bloody Mary. - Caleb decidiu, recebendo um olhar malicioso. 
- Para que começar com coisas fracas, não é? - ele devolveu o olhar. - Hey, gato! - ela sacudiu a mão para que o barman a notasse. - Traga um Bloody Mary para mim e um para o meu amigo aqui! - Scarlett aproximou um pouco mais o corpo do balcão e falou apenas para o barman ouvir: - Coloque um pouquinho mais de vodca no dele, ok? 
- Você precisa mesmo chamar todos de gato
- Por quê? Você se incomoda com isso? - Scarlett ajeitou a franja de sua peruca e Caleb ajeitou os óculos escuros. 
Ele pensou para responder, escolhendo mentir. 
- Não. 


Demetria's P.O.V 

(n/a: Coloque para tocar)

A parte superior parecia muito mais suportável do que a parte de baixo, onde a pista de fogo parecia realmente capaz de pegar fogo a qualquer momento. Tentei procurar por Scarlett e Caleb e os avistei ao longe, sentados no bar. Desviei minha atenção e forcei a vista para enxergar o que estava abaixo de mim, já que as luzes piscavam tanto que pareciam algum tipo de hipnose. A música que tocava não era mais eletrônica, e sim um rock 'n roll com batidas fortes e envolventes. As pessoas que estavam perto de mim dançavam descontroladamente, bebendo suas bebidas e amando seus parceiros. Segurei com as duas mãos na grade metálica que me impedia de cair e debrucei um pouco o corpo, decidida a encontrar Carter. Ele tinha que aparecer, tinha que estar em algum lugar. Em questão de segundos, foi como se meus olhos automaticamente corressem por uma região cujas luzes roxas e vermelhas percorriam. 
Lá estava ele, parado, olhando para cima. Como se soubesse exatamente onde eu estava, como se fosse capaz de me localizar mesmo diante de toda aquela loucura. Senti um calafrio percorrer minha espinha e engoli em seco, ordenando a Demetria medrosa e impulsiva que ficasse afastada de mim, eu não queria ela comigo naquele momento. As luzes se apagaram totalmente e se ascenderam de novo, ainda mais fortes. Perdendo Carter de vista, deduzi que ele estava subindo até onde eu estava. Olhei para os lados e coloquei meu cabelo para trás, sentindo alguém se aproximar. Não fiz cerimônias para virar o rosto, o fiz sem calcular meus movimentos. Dei de cara com Carter. 
Óbviamente sua expressão era do mais puro divertimento. Com certeza estava adorando todo aquele ambiente. Me permiti fitá-lo por alguns instantes. Estava todo de preto, a jaqueta era de couro. Os cabelos estavam arrepiados, como se tivesse levado um choque. Os olhos verdes eram intensos e duas olheiras escuras e profundas estavam abaixo deles, dando-lhe uma aparência um tanto quanto assustadora. Ele me olhou, se demorando mais na direção dos meus olhos. Um sorriso surgiu em seus lábios no mesmo instante. Voltei a engolir em seco e tentei deixar com que aquela música me levasse. O espiríto da rebeldia, da inconsequência, da valentia. Era apenas disso que eu precisava. Ser a mulher que eu deveria ter me tornado. Sem medos, forte, segura de si. O tipo de mulher que jamais se sentiria intimidade com um cara como aquele. 
Deixei que Carter terminasse de fazer toda a sua análise em meu corpo e dei um passo seguro para mais perto dele, tentando manter as mãos calmas e os olhos intensos, a expressão convicta. 
- Eu sabia que encontraria você aqui, eu sabia! - ele disse em seu tom de voz normal, me obrigando a forças a audição para conseguir ouvir. Cruzei os braços e concordei com a cabeça, sendo direta: 
- Eu sei o que você fez. - soltei as palavras, mesmo sabendo que eram óvias demais. Eu precisava tentar intimidá-lo! Jamais conseguiria aquilo agindo como alguém que mede cada palavra. Era um jogo perigoso, e o único jeito de jogar era se tornando parte daquele perigo. - Sei que matou Erin Fields e Jared McDowell. - arrisquei, mesmo não tendo provas o suficiente para afirmar que Carter teria sido responsável por aquela segunda morte. 
- Ah, é mesmo? - Carter se aproximou mais um pouco, nos deixando apenas a pouquíssimos centimetros de distância. - Pelo jeito você não tem medo de se tornar uma possível terceira vítima, não é, querida? - eu odiava quando ele me chamava daquele jeito. Sua voz escorria irônia, intenções ruins. Soltei uma risada nasalada, sorrindo em seguida, deixando que ele visse meu rosto despreocupado.
- Você vai me matar? - apontei para todas as pessoas que estavam por perto. - Eu sei que é discreto no que faz, mas com tantas pessoas olhando é praticamente impossível. 
- Acredite em mim, Demetria, se eu quiser matar alguém, eu mato. Não importa quem seja, muito menos a hora e o lugar. 
- Tudo bem, então... - lancei um olhar desafiador para ele, que retribuiu. - Tente algo contra mim. Agora! 
Senti suas mãos seguraram meus braços cobertos pelo couro com força, mas não deixei que nenhum músculo da minha face se movesse. Eu estava chegando onde queria. Meu corpo se encostou no mesmo lugar em que eu estava apoiada antes e eu tremi. 
- Eu posso jogar você lá embaixo... Todos vão pensar que foi um acidente. - não tentei me soltar, apenas olhei fundo nos olhos dele e tentei enxergar alguma coisa diferente. Ele percebeu meu gesto e mandou embora um pouco da força que depositava em meus braços. Ficamos imóveis por quase um mínuto, permitindo que a música penetrasse nossos ouvidos. Uma luz vermelha passou por nós, indo do rosto dele para o meu, me obrigando a fechar os olhos. Quando uma luz verde circulou ao nosso redor, ele soltou meus braços como se dependesse daquilo para viver e deu um passo para trás. Não era mais com malícia e maldade que ele me olhava, e sim com medo. Tentei encontrar o que estava errado em toda aquela situação, até que ele levou as mãos até a cabeça, se irritando profundamente com tudo ao seu redor pela primeira vez naquela noite. Assim que dei um passo na região onde ele estava recuando, Carter soltou um som agoniado com a boca. 
- Você precisa me deixar em paz... - franzi o cenho. - Erin, você precisa me deixar em paz! - sua voz só ia ficando cada vez mais alta e desesperada. Por que diabos ele estava me chamando de Erin? Por que ficou com medo de mim de uma hora para a outra? 
Mas talvez aquilo fosse útil... 
Dei mais um passo, começando a caminhar lentamente enquando ele se afastava, se esbarrando nas pessoas que dançavam. Fomos parar do outro lado da pista, perto de uma parede vermelha. Ele se encostou à mesma e fechou os olhos fortemente, rangendo os dentes. Seja lá o que diabos estava acontecendo, seria usado como passaporte para o meu plano dar certo. 
- Por que acha que sou a Erin? - entrei no jogo, recebendo um olhar de pânico. Ele voltou a me segurar por força pelos braços, mesmo parecendo estar totalmente horrorizado com aquele feito. 
- VOCÊ PRECISA ME DEIXAR EM PAZ! - berrou. - VOCÊ ESTÁ MORTA... ELA TE MATOU, ELA TE MATOU! 
Ela? - suas mãos me soltaram e ele olhou para todos os lados possíveis, parecia estar procurando uma saída. Obriguei Carter a grudar o corpo na parede vermelha mais uma vez e tentei imitar a mesma expressão sombria que ele sempre fazia quando estava perto de mim. - Me responda, Carter. 
- Por que você não vai para o inferno de uma vez e para de me atormentar? - a situação não era passageira. Ele estava mesmo enxergando Erin Fields quando olhava para mim. Pena que achar uma explicação parecia fora de rumo. Olhei brevemente para o lado e discretamente coloquei a mão por dentro do bolso da jaqueta, me convencendo de que a hora de usar aquela coisa estava cada vez mais próxima. Em minha próxima tentativa de arrastar Carter para uma armadilha, esperei blefar. 
- Vou te deixar em paz se você me seguir e fazer exatamente o que eu mandar. - falei perto do ouvido dele, friamente. 
- Eu não acredito em você, não acredito. 
- Então morra se atormentando com isso! - virei o corpo para me afastar, mas sua mão me puxou pelo pescoço. Olhou sombriamente em meus olhos e respirou fundo. 
- Se você não me deixar em paz, eu juro que vou até o inferno me vingar, Erin. Eu juro por Deus! 
- Acho mais conveniente que você jure por Lúcifer, Carter. - não reconheci minha voz ao dizer aquilo. O que foi ótimo, é claro. - Venha comigo... - chamei, segurando em sua mão. Estava gelada e suada. - Venha comigo ou você nunca mais vai ter paz. E eu vou cuidar para que sua situação deplorável só piore! 
Surpreendida demais com minhas atitudes, depositei mais força em sua mão e o puxei para longe daquelas pessoas. Ela estava transtornado, falando sozinho. Me olhava e se assustava, deixando os olhos arregalados. O verde estava mais intenso do que nunca, principalmente quando uma daquelas luzes iluminava seu rosto. Nas laterais, notei dois corredores iluminados apenas por pequenas luzinhas vermelhas, indicando algumas portas que estavam fechadas. Não sabia onde estava indo, mas continuei a andar, virando o rosto durante o trajeto, me certificando de que Carter ainda me via como a falecida. Não sabia por quanto tempo aquilo duraria, então tinha que agir rápido. 
Joseph nunca aprovaria o que eu estava fazendo. Eu tinha certeza que quando ele descobrisse, ficaria em fúria. Mas não existia mais outra saída. Ser racional e ficar longe do perigo não fazia mais sentido. Conversar não adiantava de nada... Sentar e esperar por um milagre era inútil. Teria que agir até as últimas consequências, sujar as mãos caso fosse necessário. 
Soltei a mão de Carter e ele se encostou à parede, passou as mãos freneticamente pelos cabelos arrepios e soltou um gemido de dor. Parecia que sua cabeça estava latejando, já que ele a segurava com força, como se fosse capaz de arrancar a dor com os próprios dedos. Puxei a maçaneta de uma daquelas portas, me assustando ao perceber que um casal estava do lado de dentro. Ah, então era uma área restrita. Ao mesmo tempo em que o homem olhou para o rosto de Carter, soltou sua parceira e a puxou para fora, passando rápido por nós e olhando para Carter como se fosse algum tipo de aberração. Foi a primeira vez naquela noite que eu senti meu peito doer. 
Mas eu ignorei aquela dor psicológica e puxei Carter para dentro, fechando a porta e procurando por alguma luz. Não entendia o que quartos como aqueles faziam em uma boate. Será que resolveram improvisar e colocar um hotel por alí também? 
Me virei e olhei para Carter, que tinha deixado seu corpo cair sentado no chão. O olhei melhor... Não parecia o homem que tanto atormentava e colocava minha vida feliz em risco. Parecia só alguém fora de si, com medo de tudo e todos. 
Aproveitando a distração perturbada dele, tirei um dos pacotes e o frasco do bolso da jaqueta, me livrando rapidamente do plástico que lacrava a seringa. O joguei no chão, xingando baixinho por minhas mãos estarem tremendo e virei um pouco o corpo, ainda conseguindo ouvir a respiração descompassada de Carter. Segurei o frasco com força e puxei a pequena tampa, enfiando a agulha na parte de cima, puxando o conteúdo branco que estava dentro. Eu não fazia a mínima ideia do que era aquilo, mas Scarlett garantiu que uma pequena quantidade daquele líquido seria capaz de derrubar um cavalo. 
As cenas seguintes passaram como flashes em minha frente. Meus dedos que seguravam a seringa fraquejaram e o frasco que estava em minha outra mão caiu no chão, derrubando o conteúdo sobre minhas botas. Senti uma mão fria segurar meu pescoço com força. Puxei o ar para dentro com dificuldade, arregalando os olhos quando Carter parecia possuído por um demônio. Ele segurou meu pescoço com ainda mais força, dizendo palavras desconexas. Já sentindo uma falta de ar e uma agonia constante em meu pescoço, olhei para a seringa que ainda estava em minha mão. Uma lágrima caiu do meu olho, borrando minha visão. Carter jogou nossos corpos no chão, não diminuindo nem um pouco a agressividade que usava para tentar me matar. E eu realmente não sabia como ainda estava viva. Meu corpo estava jogado no chão, com ele por cima, praticamente implorando por minha morte. 
- Morra, sua desgraçada. Morra e eu encontro você no inferno! MORRA! - fechei os olhos e arrumei forças, erguendo meu braço e enfiando a seringa com força em uma região perto de seu pescoço. Não sabia se surtiria efeito, mas era a minha única chance de escapar viva. O aperto em meu pescoço diminuiu gradativamente e meus dedos ainda seguravam com força a seringa. Meus olhos assistiam a agulha perfurada na pele dele, o conteúdo já estava em seu corpo. Minha visão ficou embaçada mais uma vez, mas não o suficiente para que eu não percebesse que os olhos de Carter se reviraram e suas mãos me soltaram. 
O corpo dele caiu em cima do meu. 
Procurei desesperada por ar, deixando as lágrimas saírem. Totalmente fraca, tentei empurrar o corpo de Carter para o lado e ergui um pouco o meu, passando a mão pelo pescoço, sentindo a pele do local latejar. Me senti tão próxima da morte, tão frágil... Respirar ainda era difícil, parecia que eu ainda era capaz de sentir as mãos dele tentando me enforcar. Minha respiração era frenética e meus pulmões doíam quando recebiam o ar. Limpei as lágrimas que estavam em meu rosto e fiquei de joelhos ao lado do corpo de Carter, me sentindo melhor aos poucos. 
A primeira parte do plano estava concluída. 
E eu era uma idiota por me sentir mal. Ele merecia aquilo, ele merecia pagar. Scarlett poderia ter me dado uma droga letal, algo que pudesse até matá-lo, mas já estava feito. Seu corpo estava estirado no chão, congelado. Chequei sua pulsação e me dei conta de que estava fraca. Fiz força para levantar, mesmo com aquela maldita fraqueza nas pernas e procurei por meu celular no bolso. Tremendo, tentei discar o número de Scarlett, mas o aparelho escorregou de minhas mãos suadas. Me abaixei e o peguei de volta, finalmente conseguindo discar a sequência de números e levá-lo até o ouvido. Escutei toda a agitação do lado de fora e a voz de Scarlett ao fundo. 
- Está feito. Passem pelos corredores da parte superior... - tomei fôlego. - Espero vocês na porta. - desliguei, voltando a olhar para o corpo de Carter. Fiquei parada por um tempo, ainda incorformada com a visão que ele dizia ter. Aquilo não acontecia com pessoas normais. Carter podia ser o que era, mas eu sentia que algo estava escondido por trás daquela expressão psicopata. 
Quando a adrenalina começou a correr por minhas veias e levou a dor embora, me levantei e fui até a porta, puxando a maçaneta. Fiquei encostada no batente, com todos os sentidos funcinando a todo o vapor. Passei a mão mais uma vez pelo meu pescoço e esperei pelos outros dois. 

(n/a: Coloque para tocar)

No momento em que Scarlett me enxergou encostada na porta, ela arrancou a peruca e os óculos escuros, os jogando no chão e correu em minha direção. Caleb estava em seu encalço. Os dois perceberam meu estado e entraram rapidamente no quarto. Os segui e fechei a porta, limpando a maquiagem que estava borrada por toda a região dos olhos e tornava minha visão turva. Fiquei parada, apenas observando Scarlett se abaixar ao seu lado do corpo de Carter e levantar uma das palpebras dele, depois checou seu pulso. 
Demetria, o que ele tentou fazer com você? - Caleb veio até mim, visivelmente preocupado. 
- Ele... - falar ainda era um pouco difícil. Não pela falta de ar, mas porque eu estava totalmente amedrontada. - Ele tentou me enforcar, mas eu consegui enfiar a seringa a tempo. 
- Você fez um bom trabalho! - Scar se levantou e me olhou com cumplicidade, erguendo os cantos dos lábios. 
- Bom trabalho? Ela poderia estar morta agora. - Caleb exclamou, examinando a marca vermelha em meu pescoço. Scarlett bufou. 
- Não começa com isso de novo, ok? Você não apresentou nenhum plano melhor! 
- Eu... 
- Parem! - eu disse alto. - O importante é que conseguimos apagá-lo. Não importa que eu quase morri, não importa. Eu só quero que as outras duas partes do plano sejam concluídas e todo esse inferno acabe de uma vez. Agora nós temos a chance de tirar o Joseph da cadeia e livrar nossas vidas desse monstro. Então, por favor, parem de brigar, não é hora para isso... - parei para respirar e os dois me olhavam estáticos, como se eu fosse um chefe dando ordens severas. - Me chamem de louca, mas eu estou feliz porque ele apagou e tudo deu certo. Por enquanto, pelo menos. - os dois concordaram, em silêncio. 
- Vamos tirá-lo daqui e sair pelos fundos. - Scarlett se abaixou mais uma vez e puxou o braço de Carter, olhando para Caleb e pedindo ajuda para levantá-lo. Um braço de Carter foi colocado no ombro de cada de um deles, mesmo com dificuldade. Quando conseguiram segurá-lo, abri a porta e esperei que eles passassem. Tentamos não atrair olhares e sair o mais rápido possível daquela boate. Um lugar onde eu nunca mais colocaria meus pés. Depois de mais um lance de dificuldade para descer as escadas com o corpo de Carter, saímos pelos fundos e Scarlett nos deixou cuidando do ser desacordado, dando a volta e indo até o outro lado buscar o carro. 
- Você foi muito valente, Demetria! - Caleb comentou, atento a qualquer movimento que Carter poderia fazer. Estávamos agachados no asfalto, com o corpo de nossa vítima deitado. 
- Acho que descobri o que as pessoas são capazes de fazer quando a situação é extrema. Quando é um caso de vida ou morte. - comentei, olhando para o nada. 
- Aqui - ele rasgou um pedaço da camisa que estava coberta pela jaqueta e me ofereceu. - Limpe o rosto, você está me assustando. - rimos. 
Fiz o que ele pediu, me livrando de boa parte de todo aquele resto da maquiagem. O carro de Scarlett se aproximou e estacionou ao nosso lado. Ele saiu e nos ajudou a colocar Carter no banco de trás. Nós três nos encaramos severamente e eu respirei fundo, abrindo a porta e entrando. Fiquei ao lado de Carter, mesmo que fosse perigoso. Os outros dois entraram e tratamos de sair dalí, com um destino em mente... 
A casa de Carter. 

O caminho foi silêncioso, cada um estava perdido em seus próprios pensamentos e medos. A todo instante eu olhava para o rosto de Carter, tendo a impressão de que ele acordaria a qualquer momento. Voltei a sentir aquele estranho aperto no peito e desviei o olhar para a janela, prendendo minha atenção nos locais e nas luzes que passavam como flashes por mim. 
Na rua em que Carter morava, Scarlett me pediu para procurar pelas chaves. Hesitei um pouco e comecei a tatear por algum objeto que fosse capaz de nos colocar dentro da casa. Depois de uma difícil busca pelos bolsos de sua jaqueta, empurrei um pouco o corpo de Carter para o lado e senti que algo estava dentro do bolso de sua casa. Por sorte, era um molho de chaves pequeno. As balancei para que meus companheiros na parte da frente do carro tivessem consciência de que poderíamos entrar na casa. 
Um mínuto depois, lá estávamos nós em frente a enorme casa. Nenhum luz estava acesa e o jardim me causava medo. 

Entreguei as chaves para Scarlett e ajudei Caleb a tirar o corpo de Carter de dentro do carro. Praticamente travei uma batalha interior para conseguir aguentar o peso do corpo dele. Carter era alto e tinha bastante massa muscular, deixando minhas pernas fracas. Felizmente, eu estava aparentemente curada da tentativa de enforcamento. 
Scarlett sacou sua arma e caminhou com passos decididos e lentos, como um felino. Cruzou todo o jardim e parou na porta, esperando que nós conseguíssemos alcançá-la. Assim que chegamos, ele girou a chave e puxou a maçaneta, revelando o interior totalmente escuro da casa. Eu tentava ignorar o rosto de Carter tão próximo do meu, todo o medo que aquilo estava me causando. A mão dele estava caída em meu ombro... E se ele acordasse a qualquer momento e tentasse me matar outra vez? 
Respirei fundo, me focando apenas no principal: trancá-lo em algum lugar seguro. 
Scar bufou, irritada com toda aquela escuridão e correu de volta para seu carro, gritando que ia pegar lanternas. Logo ela voltou com três lanternas e as segurou para mim e Caleb. Ao ser iluminado, o lugar não ficou menos assustador, ficou mais assustador. 
Nas paredes, vários quadros com fotos de uma criança de olhos claros e cabelos loiros me faziam querer desviar o olhar. 
- Que medo, hein? - Scarlett iluminou uma das fotografias. E ficou claro que a criança era Carter. 
Outra parede foi iluminada a seguir, atraindo a atenção de todos nós. 
- O que diabos é isso? - semicerrei os olhos e tentei ler o que estava escrito na parede. As letras eram grandes, mas a caligrafia era confusa e desajeitada, apressada. 
- P, o, r... Porão? Por que ele escreveria isso na parede? - Scarlett olhou para nós, procurando por uma resposta. Ao tentar ligar a luz do que deveria ser a sala de estar, nada aconteceu. - Ah, legal, ele também cortou a energia. 
- Será que nós podemos encontrar um lugar para deixar o corpo dele? Eu não aguento mais... - choraminguei, assim como minhas pernas. Caleb olhou para a escada no centro da sala e me guiou até lá. Carter mexeu o rosto, e um som de pavor escapou de minha garganta. Olhamos para ele, mas continuava sereno e olhos poderiam não se abrir nunca mais. 
Depois que subir as escadas com ele deixou de ser um problema, achamos seu quarto com o auxílio de Scarlett e jogamos o corpo na cama, totalmente desarrumada. 
- Certo... Agora deixamos ele aqui e descemos. Acho que a palavra porão escrita na parede foi uma pista. - Scarlett disse. 
- Por que Carter deixaria uma pista para encontrarem algo que ele não quer que seja encontrado? - eu disse. Carter voltou a se mexer na cama e nós três olhamos receosos para ele. Talvez eu até sabia a resposta da pergunta que tinha feito... A experiência que tive com Carter naquela noite me provou que ele não era normal. Sua mente, suas visões... Tudo era uma bagunça. 
- O jeito e ir até lá e procurar. Droga! Por que eu não o segui quando ele foi guardar a maldita câmera? - Scar disse alto, entregando uma lanterna para mim e a outra para Caleb. - Vamos descer? 
- Vocês vão, eu fico. 
- Ah, mas nem pensar! - Caleb achava que era meu pai ou o quê? 
- Concordo com ele, gata. É perigoso... E se o Carter acordar? - eles não conseguiriam me fazer mudar de ideia. Eu atrai Carter, eu o apaguei. Eu tomaria conta dele e não permitiria que ele estragasse o plano. Scarlett e Caleb encontraria a câmera e meu marido não pagaria mais por algo que não fez. 
Nem que para isso eu tivesse que sair morta daquela casa. 
- Não me importo, eu vou ficar aqui. Anda, vocês estão perdendo tempo! 
- Porra, você é tão teimosa quanto o Arthur! - ela me olhou ao dizer o nome do meu suposto pai e engoliu em seco. - Fica com isso... - a observei estender sua arma em minha direção. - Eu acho que a droga vai mantê-lo desacordado por algumas horas, mas não podemos arriscar. Demetria, pega logo essa arma! - me dei por vencida e tomei a arma de sua mão, ligando minha lanterna e indicando a porta, para que ele fossem logo para o porão ou qualquer outro canto da casa. 
Assim que Scarlett e Caleb me deixaram sozinha com Carter, deixei meu corpo cair no canto da cama e fiquei sentada, observando a noite através da janela. O único som audível era a respiração de Carter, regulada e calma. Virei o pescoço e o olhei... 
O que levava uma pessoa a ser daquele jeito? Será que ele nunca se perguntou se realmente queria aquela vida? Ser um assassino? Será que nunca amou alguém o suficiente para mudar? Me ensinaram a acreditar no bem escondido dentro de cada ser humano, mas com Carter não era assim tão simples. 
Um caderno estava jogado próximo ao corpo de Carter, do outro lado da cama. Inclinei um pouco meu tronco e o peguei, sentindo a superfície desgastada da capa. Estava aberto na página do meio, repleto de rabiscos, frases, desenhos sem nexo e alguns pequenos textos. Prendi a arma em minha calça e me levantei, usando a lanterna para clarear as folhas amareladas. Dei alguns passos e encostei no batente da porta, não acreditando no que estava lendo. 
Em meio a declarações suicidas e lamentos claros de uma mente perturbada, palavras bonitas e bem colocadas enchiam as folhas. Foi invevitável não me distrair com o que meus olhos liam e minha mente absorvi. Não era possível que aquele homem estirado na cama tinha sido o responsável por escrever aquilo. Era bonito. Complexo, inteligente, envolvente. Emocionante. Um dos pequenos textos falava sobre um homem que não conseguia morrer, que inclusive já tinha tentado se matar uma vez. Me perguntei se por trás daquelas palavras existia uma verdade. Outro texto, com algumas frases confusas, revelava o que aquele mesmo homem sentia a respeito de si mesmo, como queria ter a chance de mudar. 
Mas o que mais me deixou de queixo caído, foram as palavras que ele usou para descrever o amor de sua vida. Então Carter realmente amava alguém? 
Ouvi um barulho vindo do corredor e senti todos os pêlos do meu corpo se arrepiarem. Coloquei o caderno sobre a cama novamente e passei pela porta, iluminando o corredor escuro com a lanterna. Nunca tive medo de assombrações, mas naquelE momento tudo era aceitável. Principalmente dentro de uma casa como aquela. 
O corredor estava vazio. Minha única companhia era minha sombra que só estava ali devido a pouca luz produzida pelo objeto amarelo que eu segurava com força. Virei o rosto na direção do quarto de Carter e me arrependi de ter saído de lá. Rapidamente retornei, passando pela porta com o olhar baixo, verificando se a arma ainda estava comigo. 
Quando levantei meu rosto, a lanterna automaticamente se soltou dos meus dedos e caiu no chão. 
A cama estava vazia
Congelei, movendo apenas meus olhos. Eles arderam e lágrimas se formaram. Não era possível que ele já tinha despertado. Meu pé esquerdo foi para trás, levando o direito junto, em uma tentativa de me afastar. Tudo aconteceu tão rápido... Onde ele estava? Por que aquela droga de plano não poderia dar certo? Maldição, mil vezes maldição! 
Meus ouvidos captaram uma respiração atrás de mim. 
Fechei os olhos e me preparei para o que aconteceria a seguir. Segurei a arma com força, já pronta para retirá-la do lugar onde estava e usá-la, mesmo que a coragem me faltasse. Uma escolha precisava ser feita: matar ou morrer. 
Provavelmente, Carter estava apenas fingindo durante todo aquele tempo estar inconsciênte. Talvez a droga de Scarlett não fosse tão forte, talvez fosse algo que ele estava acostumado a usar. Carter deve ter aproveitado que eu fui uma estúpida irracional por sair do quarto e se escondeu atrás da porta, esperando que eu voltasse... 
Ele estava parado atrás de mim. 

/Demetria's P.O.V


Louise tomava tranquilamente seu chá, sentada em uma mesa afastada do restaurante do hotel. Já estava tarde, mas algumas pessoas ainda faziam refeições e bebiam um bom vinho. Ao jogar mais um cubinho de açucar em sua xicara, mexeu rapidamente com uma pequenina colher prateada e percebeu que alguém estava parado diante de sua mesa. Ela levantou o rosto em câmera lenta e se surpreendeu mais uma vez naquele dia. 
- Mas que coincidência detestável... - comentou, não se deixando intimidar pelo homem que puxou uma cadeira livre e se sentou, continuando a encará-la nos olhos. Louise até queria não olhar na mesma direção, mas aquele par de olhos verdes eram tão intensos e nostalgicos. 
- Prefiro dizer que o destino é um desgraçado, Louise. O que faz em Londres? Pensei que morasse na França. 
- Eu moro na França, em Paris para ser mais específica. Depois de tudo aquilo, consegui irritar meu pai o suficiente para que ele desistisse da ideia miserável de me tornar parte de seus negócios. Fiquei livre, meu querido. E não finja que não sabe do que estou falando. 
- É bom ser livre, não é? Mesmo quando você não se esquece do tempo em que era prisioneiro de alguma coisa. 
- Fale por você, não por mim. Não tenho nada para querer lembrar daquela época. - ela respondeu firme, terminando de tomar seu chá. Se levantou educadamente da mesa e lançou um último olhar para o homem, que não se moveu. 
- Nenhuma recordação? - quando ia se virar e caminhar na direção do elevador, aquelas palavras a congelaram. Louise não sabia porque ele estava por alí, muito menos sabia quem aquele homem tinha se tornado. Aquele encontro poderia ser facilmente algo esquecível, mas uma coisa era certa: ambos compartilharam um passado. 
- Na verdade, Arthur... Tem uma coisa que não me deixa esquecer o que aconteceu entre nós. - mais uma vez ela olhou fundo nos olhos verdes do homem grisalho, que mesmo assim não perdera seu charme. - O nome dele é Carter




A fic ta chegando no ponto mais fofo, mais amor dela toda. Pelo menos pra mim.
E também ta chegando ao fim, choremos :(
Se alguém me ajudar a divulgar mais o blog, eu aceito do fundo do meu coração!

2 comentários:

  1. ameeei :)
    eu já li essa fic.. ela eh perfeita *-*

    poosta logoo

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  2. Adorei as historias quero mais
    posta logo
    beijokas

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Sem comentario, sem fic ;-)