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domingo, 26 de abril de 2015

Secretary III - Capítulo 23

Respire... Respire outra vez
(Músicas do capítulo: Shelter da Birdy, Open Your Eyes do Andrew Belle, Come Around da Rosi Golan, Civilian do Wye Oak, Breathe Again da Sara Bareilles, Boston do Augustana e Life Is Beautiful do Vega 4. (Se possível, deixe todas carregando e as coloque para tocar quando cada aviso surgir. Só lembrando que muitas vezes determinada música não está em determinada cena por sua letra, mas sim por sua melodia)




Mais um longo e angustiante dia se vai na vida da família Jonas, enquanto Joseph Jonas permanece desaparecido

Joseph Jonas fugiu de algo (provavelmente de alguém) ou foi sequestrado?

As informações continuam escassas, mas sabemos que os responsáveis pelo desaparecimento do dono da renomada Empire não possuem intenção alguma de exigir resgate, visto que essas vozes continuam escondidas. Ocultas como se de fato não existissem. ‘Talvez não estejamos lidando com sequestradores convencionais, talvez dinheiro não seja a solução nesse caso’, afirmou um dos responsáveis pela investigação.

(Coloque a primeira música para tocar!)
Após uma consulta com minha ginecologista, parte do pré-natal, optei por dirigir até minha casa, sem paradas pelo caminho. Era doloroso realizar procedimentos como aquele, sozinha, principalmente porque eu sabia que Joseph não gostaria de perder nenhum detalhe, sendo o pai tão presente que adorava ser. 
Firmei ambos os pés no chão molhado e abandonei a segurança do interior de meu carro, olhando de súbito para baixo ao notar ter pisado em uma folha molhada do jornal jogado sobre a calçada. A página exposta ressaltava as informações que desgastavam meu ser. Mais e mais a cada novo minuto. Ajeitei meus óculos escuros que ameaçaram escorregar delicadamente e ficar apoiados sobre meu nariz, apenas para me certificar de que ninguém pudesse vir a enxergar meus olhos, pois eu temia que fossem capturados; temia que toda a minha vulnerabilidade ficasse exposta no instante em que alguém fixasse seu olhar no meu, acompanhando então o meu martírio. Ainda sem dar atenção ao mundo turbulento ao meu redor, fitei o poste de luz materializado a minha frente. Preso em sua extensão, havia um cartaz. Por trás das lentes escuras, meus olhos lacrimejaram, forçando-me a desviar a atenção daquele informativo destacado na cor vermelho com letras garrafais. “Desaparecido ”. Era a foto de um Joseph sorridente impressa ali, uma foto linda, por sinal. Ele estava sorridente, e eu sabia bem o motivo. A fotografia fora tirada durante minha gravidez. Uma das melhores épocas de sua vida, como ele sempre gostava de citar. Engoli em seco, já acostumada com as malditas fisgadas em meu peito todas as vezes que eu simplesmente via o rosto dele. Muitos cartazes idênticos foram espalhados pela cidade, libertando a comoção em pessoas que se aproximavam como se quisessem somente assistir todo o drama, sem pensar em levantar um dedo sequer para ajudar. Incontáveis foram as vezes em que saí durante o dia, noite e madrugada para vasculhar lugares frequentados por meu marido, sempre com a esperança viva dentro de mim. Em vão, sofrendo uma decepção maior a cada nova busca fracassada, acabei por perceber que eu não conseguiria encontrá-lo de forma tão fácil, mesmo que contasse com a ajuda de pessoas próximas. Detetives particulares trabalhavam arduamente, corriam atrás de provas aparentemente invisíveis, mas nada parecia surtir efeito. 
A baixa temperatura rodeando meu coração se agravava a cada novo dia em que o tímido sol estava ali pela manhã, mas meu marido não. Admito, a hipótese de ter sido abandonada surgiu depois de um tempo. Talvez Joseph estivesse cansado de ter uma família. Eu sei, o pior pensamento que pude ter. Mas era inevitável, era algo que meu subconsciente produzia e lançava na direção de minhas deduções, como uma espécie de alerta inimigo, contra a minha vontade. Entretanto, eu podia desconhecer muitas coisas, mas tinha plena certeza de uma: Joseph jamais faria isso conosco. Se ele não voltava, certamente era porque não conseguia voltar. Parecia que não era a hora de encontrá-lo, como se eu ainda tivesse que lidar com a distância por muito tempo. Se é que essa distância um dia teria fim. Exasperada comigo mesma por voltar a permitir que aqueles pensamentos miseráveis povoassem minha mente, dei um passo a frente e tentei ignorar um flash de câmera que disparou bem diante de mim. Senti minha pele gelada, adotando cada vez mais aquele aspecto pálido. Linhas roxas e firmes abaixo de meus olhos desfocados e opacos eram apenas mais um motivo para não permitir que eu ficasse sem os óculos quando fora de casa. 
Às vezes eu simplesmente me esquecia do fato de que meu marido era um homem conhecido perante a mídia. Alguns paparazzi cercavam meu caminho, ignorando a situação em um geral e batalhando apenas para conseguir uma foto minha. Eu teria rido se não fosse tão absurdo. Tentei passar por um deles e abaixei meu rosto, tampando-o com a palma da mão para evitar um incômodo maior, apressada para enfim conseguir adentrar minha casa e me esconder outra vez. No entanto, meus passos eram vagarosos sem solicitar consentimento. Havia uma aparente lentidão de meus movimentos, assim como músculos pesados. Instabilidade circulando do topo de minha cabeça até a ponta dos meus pés, tornando-me um fantoche nas mãos da implacável e cruel obra do destino reservada para mim. Para nós. 
Sabe o que é olhar em um espelho e não reconhecer a figura a sua frente? Eu sabia.
Quando finalmente consegui passar pelo portão, corri em disparada pelo jardim, chegando até a porta em instantes. Ignorei a agitação que se mantinha firme ao lado de fora de minha casa e encostei-me à porta, retirando os óculos e tentando com empenho puxar uma generosa quantidade de ar para meus pulmões, tocando a região de minha barriga em um estalo, ação que se repetia pelo menos uma dúzia de vezes por hora. Eu tinha um medo excruciante de perder meu bebê, tinha medo de continuar vivendo aquele pesadelo até que a vida dentro de mim não resistisse mais. Ela sofria juntamente comigo, absorvia minhas fraquezas, continuava exposta às consequências de algo que ainda não tinha hora certa para acabar. 
Uma semana. Sete dias. Cento e sessenta e oito horas. E somente um sentimento: medo.
Uma semana. Eu estava há uma semana apenas existindo, não vivendo. Sabia que era algo terminantemente errado, porque existiam mais três vidas que precisavam se manter agarradas a minha, buscando por estabilidade, força e apoio. Eu precisava ser forte por meus três filhos, quando na verdade não conseguia ser nem por mim mesma. Encontrava-me perdida em meio a tarefa árdua de procurar compreender o que a vida estava tentando dizer com todo um conjunto de situações caóticas, com o roubo de parte da minha existência. Joseph. Existia uma dor lancinante ali, sempre companheira, uma dor que fazia minha cabeça girar, dopava meus sentidos e criava a ilusão de que havia algo tentando esmagar meu coração. Uma possibilidade tentava esmagar aquele coração tão cansado de acelerar a cada piscar de olhos. Durante o decorrer dos dias, foi como se eu me tornasse apenas a sombra de quem costumava ser. Sorrisos forçados, apenas quando eu sentia que meus filhos não mereciam ver sua mãe paralisada em desespero pelos cantos da casa. Mas eu não conseguia chorar, desabar de uma vez em lágrimas intermináveis. Isso provavelmente surpreendia um pouco as pessoas ao redor, já que a sensibilidade era uma de minhas características marcantes. Mas, naquele momento, meus olhos estavam secos. Secos e vidrados em uma direção inútil. Havia uma lacuna em minha mente, uma espécie de bloqueio que me impedia de assimilar e reconhecer a situação, aceitar por completo. Como se eu estivesse sonhando... E soubesse disso. Parte de mim queria chorar até que não restasse uma lágrima sequer, mas a outra se recusava, como se acreditasse que nada daquilo era real. Não faz sentido chorar por algo que não é verídico, certo?
Quando adentrei minha casa, o ar quente e aconchegante presente em seu interior não despertou a sensação de conforto almejada. Senti frio, um frio terrificante. Abraçando meu próprio corpo coberto por um sobretudo preto, calças e botas pretas, coloquei-me sorrateiramente para dentro. De luto. Não por uma morte, mas pela capacidade que costumava ter de enfrentar qualquer coisa, lidar com qualquer problema de cabeça erguida. Capacidade essa que fugiu para longe de mim, sem explicação aparente. Justamente como Joe. 
Suspeitava estar sentindo mais frio do que o clima baixo ditava. Não era um frio físico, mas psicológico. Deixei meus olhos correrem por um ponto vago do ambiente, de repente fixos onde uma grande quantidade de porta-retratos se concentrava. Nunca pensei que ver a imagem de Joseph pudesse ocasionar aquela dor latente em meu coração. A casa de aspecto tão solitário, apesar de abrigar um bebê tão alegre como meu Matthew, parecia também estar sentindo falta de um de seus moradores. Suspirei e me larguei sobre o sofá, dizendo em voz alta que já estava em casa. Minha mãe provavelmente se encontrava no andar de cima com os meninos, distraindo-os o máximo que podia. Eu não sabia o que estaria fazendo sem o apoio dela, provavelmente já teria enlouquecido se não fosse por suas sábias palavras, sempre descobrindo o momento certo para me confortar.
Massageei minha nuca e fechei os olhos firmemente, tentando amenizar a dor de cabeça que havia se tornado parte de minha rotina nos últimos sete dias. A ardência na área dos olhos ocasionada por uma desenfreada sequência de lágrimas estancadas em meus olhos - lágrimas que, por algum motivo, não conseguiam se desprender de meus olhos, deixando-me angustiada - que cessava apenas nos momentos em que minhas pálpebras se rendiam ao cansaço e se fechavam, enquanto eu tentava dormir. Embora a maioria das tentativas resultasse no fracasso, vez ou outra eu conseguia um descanso para meu corpo e mente. Era frágil, se abalava com qualquer barulho. E na maioria dos casos era interrompido bruscamente por um pesadelo. Um insistente pesadelo que não modificava sua informação principal, vinha incessantes vezes da mesma forma. Uma forma clara e angustiante. Um mundo em que Joseph não existe mais.
Sem pensar em retirar as botas, me aconcheguei melhor ao encosto do sofá e puxei o cobertor dobrado ao lado, espalhando-o pelo meu corpo para tentar cessar a tremedeira constante. Com o passar dos dias, abandonei minha cama. A cama cujo espaço ao meu lado permanecia vazio e frio. Frio como se nunca mais pudesse ser quente outra vez. Já havia me acostumado a dormir no sofá, a acordar com dores nas costas e no pescoço, mas queria passar as noites ali. Só para o caso de meu marido retornar pela porta da frente e me ver adormecida, esperando incessantemente para tê-lo de volta, percebendo que eu jamais deixaria de esperá-lo. Sentia falta de acordar e vê-lo dormindo ao meu lado. Sentia falta do seu sorriso aventureiro, de seus olhos intensos, dos beijos apaixonados, dos toques acolhedores, do seu silêncio confortável enquanto me olhava. Eu sentia falta até mesmo de seus defeitos. A saudade era tão palpável que eu quase era capaz de senti-la como uma sombra, sempre ao meu lado. 
O embrulho no estômago que nunca passava se tratava apenas de uma consequência, e acompanhava a sequência de pensamentos pessimistas que me assolavam enquanto eu não tinha forças o suficiente para levantar dali e tentar fazer algo de produtivo para trazer meu marido de volta. Incertezas beirando ao infinito. A cada novo e estridente toque do telefone, eu estremecia. “Nós encontramos um corpo, gostaríamos que o identificasse”, “Ele está morto”, “Sentimos muito, mas é como se seu marido nunca tivesse feito parte desse planeta. Ele simplesmente desapareceu”. O ato de pensar que poderia chegar a ouvir informações como aquelas elevava meu pânico a um patamar até então desconhecido, algo insuportável demais para aguentar por um tempo consideravelmente alto. Eu não poderia ver seu corpo sem vida. Não resistiria, sucumbiria a mais poderosa derrota que pode abater um ser humano.
Tudo vai ficar bem, tudo vai ficar bem, tudo vai ficar bem...
Será que gastei todas as minhas chances de obter a concretização desse desejo tão tangível?
Pensar em meus meninos e na falta que sentiam do pai era, sem dúvidas, uma das piores coisas a enfrentar. Eu não encontrava palavras boas o suficiente para justificar a falta da presença deJoseph ali, conosco. Seria o mesmo que tentar explicar de forma clara os motivos da humanidade se mostrar cada dia mais desumana, das guerras que marcavam seu início ao nascer do sol e talvez durassem uma eternidade. Explicar injustiças que abatem a mundo. Olhar em seus olhos inocentes era pior do que omitir o real acontecimento, pois eu sabia que cedo ou tarde aquela inocência seria corrompida, eu não tinha a opção de mantê-los para sempre em um castelo ilusório de proteção que, com suas paredes resistentes, poderia cegá-los do resto do mundo e impedir que se machucassem como eu estava machucada naquele momento. Jamie, com seus onze anos, sabia que havia algo errado. Ele não demonstrava coragem para investigações, apenas permanecia ao meu lado, sempre alerta e prestativo, caso eu precisasse de qualquer ajuda ou simples apoio. Eu queria lhe dizer que só o fato de estar ali comigo já fazia um bem imensurável, mas até mesmo minhas forças para agradecê-lo pareciam inatingíveis. Matthew, tão frágil, não cansava de pedir pelo pai, especialmente à noite, quando se aproximava sua hora de dormir. Eu estava começando a ficar sem desculpas, sem saída, sem fé. Organizar o turbilhão de pensamentos para não confundir minha própria mente se tornava mais difícil a cada segundo. Questionava aos céus o que tinha feito para merecer tal punição, o que tinha causava de tão cruel perante a humanidade para não possuir direito sobre uma vida plenamente feliz. O mal jamais deveria acompanhar aqueles que só querem seguir seu caminho em paz. 
O restante do dia transcorreu, até que a noite veio. O aperto no peito se agravava assim que o sol se escondia, a escuridão despertava a aflição diante do desconhecido, o medo ao imaginar onde o homem que eu amava se encontrava. Se continuava sob o mesmo céu que sua família. 
Ao olhar o manto negro e estrelado através da janela, meus batimentos cardíacos se elevaram.
Depois de ser persuadida por minha mãe a tomar um banho, me vesti de qualquer forma e permaneci largada sobre o sofá ao lado do telefone. Do silencioso e maldito telefone. Com olhos distantes, a mente projetando imagens memoráveis de nós dois, continuei a ouvir apenas o crepitar do fogo na lareira, demonstrando minha indisposição até mesmo para existir. Meus cabelos estavam sempre presos para que eu não precisasse me incomodar com eles, porque até mesmo os fios soltos faziam com que eu me lembrasse das incontáveis vezes em que Joseph os elogiou. Meu rosto era limpo, sem qualquer resquício de maquiagem, entregando todo o seu estado abatido e cansado. Em meu corpo, naquela noite, uma blusa dele. Na verdade, mais usada por mim do que por ele. Mas não era o meu cheiro impregnado nela. E nunca seria. Era o cheiro dele. Tão vívido como se ele a tivesse usado há muito pouco tempo. 
Logo, mamãe surgiu com uma bandeja, sentando-se ao meu lado, pedindo com um olhar firme que eu erguesse o corpo para jantar. Sentia-me doente, odiava continuar estagnada naquele sofá como se tivesse perdido a capacidade de me locomover sozinha. Felizmente, ela compreendia. Ela não me julgava, ela apenas respeitava meu estado e cuidava de mim como se eu fosse uma garotinha. 
Encarei a refeição a minha frente, soltando calmamente o ar pela boca, a fim de controlar uma náusea repentina. Não me lembrava de já ter olhado torto para a comida de minha mãe. Ergui meu tronco e trouxe a bandeja para repousar sobre meu colo, ainda incerta. Não tinha vontade alguma, mas precisava comer. Eu sentia fome, muita fome, mas meu estômago revirava quando o aroma dos alimentos adentrava por minhas narinas. No entanto, não era hora para ser egoísta. Pouco me importava com o fato de que eu poderia passar mal se continuasse tentando engolir aquela comida, o ser em desenvolvimento dentro de mim precisava de forças, ele precisava que eu me cuidasse. Só então poderia permanecer saudável também, vir ao mundo e me permitir contemplar seu lindo rostinho. 
Já alimentada, pouco tempo depois, notei novamente não estar mais sozinha no recinto, despertando amedrontada de meus devaneios quando senti um preso cair lentamente sobre o espaço vago ao meu lado no sofá. Apenas me limitei a abrir um sorriso forjado, porém longe de parecer sincero, estendendo uma mão para que Matthew pudesse vir se deitar comigo. Em silêncio, ele fez o que eu queria e permaneceu com uma mãozinha apoiada em meu peito, aconchegando-se em meu colo, enquanto a outra brincava com um fio solto de meu cabelo. Quis sussurrar em seu ouvido que logo estaríamos sorrindo novamente, sem pesar, mas não queria iludi-lo tanto, entretanto. Não queria me iludir com um lampejo tão incerto do futuro, que veio brilhante como uma estrela adornando o céu. 

Não sei como adquiri forças para me levantar quando a sonolência já aparentava estar tão expressa em meu sistema, mas lá estava eu na cozinha, com os olhos fixos nas duas canecas a minha frente. Despejei o líquido fumegante dentro de ambas, segurando-as com cuidado, virando-me para me dirigir novamente até a sala. Perto de deixar o cômodo, algo promoveu o congelamento de meu corpo. Meus olhos se fixaram em uma caneca e depois na outra. Afinal, o que eu faria com duas? Era evidente que uma delas permaneceria com seu conteúdo intacto. Movida pela força do hábito, acabei deixando que todos os acontecimentos se apagassem temporariamente de minha mente, preparando então chocolate quente para Joseph e eu, como sempre costumava fazer em noites frias como aquela. Espantada com minha própria atitude impensada, girei em meus calcanhares e pousei sem paciência as duas louças sobre a bancada, apoiando-me ali por um instante, cobrindo meu rosto com as duas mãos em um sinal claro de desapontamento. Eu estava ficando louca, só podia ser. 
Ouvi passos delicados sobre o chão da cozinha, desfazendo minha posição anterior e virando apenas o rosto para descobrir que se tratava de Matthew. Ele parou a pouco mais de um metro de distância e ergueu seus olhinhos para me analisar, mantendo um urso de pelúcia segurado por seus dedinhos. Desviei o olhar, sabendo bem o que viria a seguir. Não queria explodir ali, na frente dele, não queria assustá-lo, mas aquele era o momento em que eu caia na real. O momento em que a realidade se tornava tórrida diante dos meus olhos. 
Adê papai? - ele perguntou baixinho, talvez até capaz de sentir meu estado irritadiço. Tentei lhe lançar um olhar acolhedor, me esforçando ao máximo para mascarar a vontade gradual de chorar. Virei-me em sua direção, ainda sem coragem de me aproximar. Vê-lo ali, tão frágil e inocente, apenas com saudades do pai, era como receber uma dezena de socos no estômago. 
- Ele vai voltar logo, meu amor. - estranhando minha própria voz, como se tivesse me esquecido de como ela soava, soltei o ar com força ao pronunciar, vendo-o dar alguns passinhos a frente. Seus olhos verdes marejaram instantaneamente, e eu me sentia cada vez mais incapacitada de levar sua tristeza embora. Na verdade, desprezei meu timbre de voz por aparentar tanta frieza. Era uma completa tortura vê-lo entristecido, afinal, entre todos, sem dúvidas era quem menos merecia vivenciar tal tormento. 
Quelo papai! - Matthew pedia desolado, iniciando seu choro. A pelúcia que ele segurava caiu no chão, então uma onda de fraqueza me abateu quando percebi ter negado o colo que ele pediu com tanta carência. Afastei-me, repreendendo a mim mesma de todas as maneiras possíveis. Negar colo a meu filho não era de minha natureza, por isso constatei estar perdendo pouco a pouco minha essência. Isso precisava parar. - Mamãe, quelo papai! Mamãe! - o bebê contornou a distância entre nós e fixou as mãos em uma de minhas pernas, insistente, mantendo-se agarrado a ela, um pedido incessante para que eu lhe desse atenção. Seu chorinho baixo apertava meu coração, me causava falta de ar. Eu simplesmente não sabia o que fazer, não queria me exaltar, não queria. Não queria. - Adê...
- Chega, Matthew! Pare de me perguntar isso! Eu não sei onde o seu pai está!
Quando percebi, já era tarde para remediar. Tarde para abaixar meu tom de voz, tarde para evitar a expressão de medo em seu rostinho corado. O pequeno soltou minha perna e deu apenas um passo para trás, sem desviar sua atenção de mim. Continuei ali, incrédula, olhando para ele sem reação. 
Meu Deus, o que há de errado comigo?, por fim, o pensamento veio certeiro. 
Diculpa. - sua voz fraquinha não passou de um sussurro choroso. Quando percebi o que tinha acabado de fazer, não demorou para que a angústia resumisse minha existência. Eu nunca tinha elevado a voz para Matthew, nem para Jamie. Nunca havia perdido a paciência, muito pelo contrário, amava cada gesto de ambos; amava quando queriam estar por perto, quando queriam saber das coisas. Quando demonstravam interesse ou preocupação pelo mundo ao redor. Aquela não era eu. 
De repente, meus joelhos dobraram, então desmoronei. Vi-me ajoelhada diante de meu filho, sentindo meus olhos úmidos e ardentes. O arrependimento distribuindo choques por cada parte de mim, despertando a incontrolável vontade de abraçar meu bebê até que conseguisse levar todo aquele mau agouro embora. Por fim, senti uma lágrima quente escorrer por minha bochecha. Seguida por outra, e outra, mais uma vez... 
Depois de vários dias, consegui chorar. Chorava desimpedida na frente de meu bebê, que aflito ao me ver daquela forma, voltou a chorar também. Meu coração fora despedaçado mais uma vez. Como se fosse possível, como se aguentasse lidar com isso duas vezes. Bom, eu ainda estava ali, viva e chorando compulsivamente, então provavelmente foi possível aguentar.
- Eu sinto muito por isso, meu amor. Me desculpe, por favor! Por favor! - pedia com a voz mergulhada em um desespero incessante, acariciando seu rosto úmido a fim se limpar as diversas lágrimas. Matthew não se demonstrou magoado comigo em momento algum, na verdade, eu sabia que ele me entendia. Da sua maneira, mas entendia. - Me perdoe, meu ursinho, por favor. Eu não quis falar desse jeito com você, por favor... - minha voz saiu falha durante meu último pedido, quando não aguentei mais e o envolvi por entre meus braços, sentindo o calor puro de seu corpo. - Vem aqui, dá um abraço bem forte na mamãe! - logo ele retribuiu, encaixando sem medo suas mãozinhas em minhas costas, apoiando sua cabeça em meu ombro. - Eu te amo muito, muito, muito. - ao soltá-lo, olhei firme em seus olhos e enxerguei os de Joseph, como se através de nosso filho, de onde quer que estivesse, ele tentasse me dizer que passaríamos por aquela tempestade. Sorri. E sabia que aquele sorriso não tinha nada de falso como os anteriores. 
Só então percebi que não éramos os únicos ali. Jamie adentrou o cômodo, hesitante, aproximando-se de nós com cautela. Ele presenciou tudo, silenciosamente. Direcionei meu sorriso a ele, chamando-o para ficar mais próximo, tendo o gesto repetido por Matt, que se curava de suas tristezas de maneira impressionante rápida. Havia um sorriso em seu rosto, os dentinhos em formação expostos da forma que despertava a mais genuína das alegrias em mim. Jamie se abaixou e ficou quase a minha altura, chamando o irmão para vir em seu colo. Assim feito, o pequeno olhou curioso para Jam e depois para mim, pedindo pelo pai outra vez. 
- Nosso pai está salvando o mundo, sabia? - Matthew demonstrou interesse, tentando compreender as palavras do irmão. - Sim, Matt, ele é um super herói! - a calma de Jam ao pronunciar as palavras fez com que um alívio repentino corresse por minhas veias. Desde que Matthew acreditasse e não sofresse tanto pela falta do pai, eu acreditava ser capaz de aguentar firme por mais algum tempo. - E ele vai voltar para casa... - o garoto me olhou incerto, enquanto eu concordava com a cabeça em um estímulo para que ele continuasse a falar, sorrindo com gratidão. - Logo. - passou os dedos pelos cabelos do mais novo, abrindo um sorriso acolhedor. - Nós vamos poder ouvir as grandes histórias que ele vai contar, ok?
- Sim! - Matt abriu os bracinhos, de repente animado. Jamie me olhou ainda sorridente, demonstrando sua cumplicidade. Fechei os olhos por um instante e disse a mim mesma que precisava me livrar daquela depressão. Tinha motivos de sobra para reagir, emergir daquele mergulho fundo em meio ao mar de incertezas que adora me manter prisioneira. 
- Vem, ursinho. - levantei-me rápido e peguei meu bebê no colo, determinado a me mover, a lutar. Viver. - Hora de tomar banho e colocar seu pijama favorito. Depois a mamãe vai preparar sua mamadeira e escovar seus dentinhos. - beijei carinhosamente o topo de sua cabeça, assistindo-o concordar. - E então meu pequeno príncipe vai dormir. Vai sonhar com coisas boas. - sendo pega de surpresa, senti a pequena mão quente tocar minha bochecha em um carinho sutil e incrivelmente gratificante. - Obrigada, meninos. - após agradecer maravilhada, saí da cozinha, olhando para ambos antes de dizer o que mereciam ouvir, pois seria a nossa verdade. - Amanhã será um dia melhor, muito melhor. E caso não seja, teremos o próximo e o seguinte. Continuaremos tentando até que dê certo.


Acordei com disposição na manhã seguinte. Bom, pelo menos disposta a manter a positividade em abundância. Desde o primeiro dia em que me vi longe de Joe, o sonho era sempre o mesmo durante toda a noite. Começava com algo feliz, às vezes um passeio por uma praia, outras vezes uma simples conversa regada a nossa cumplicidade. Durante o decorrer do sonho, era como se a temperatura caísse sorrateiramente, escondendo o sol e revelando apenas um céu cinzento. De uma hora para a outra, eu perdia Joseph de vista e passava a procurá-lo, andando por um mesmo caminho, percorrendo uma gigante distância para então ir parar no mesmo ponto de onde havia iniciado a busca. Um labirinto
Já habituada com a reclamação de minhas costas, implorando que eu voltasse para minha confortável cama, coloquei os pés para fora do sofá e mantive meus olhos fechados por algum tempo, abrindo-os lentamente para conseguir me acostumar completamente com a claridade vinda da enorme janela de vidro presente no cômodo. Ao julgar pelo silêncio na casa, previ que todos dormiam. Ainda sonolenta, levantei-me e encarei a escada a minha frente, mudando de direção quando o receio se fez presente e preferi não subir, pois não queria ter de entrar em meu quarto.No nosso quarto. Por sorte, avistei roupas limpas colocadas sobre uma das mesas decorativas da sala, eu tinha deixado-as ali na noite anterior para não precisar sofrer com o incômodo de enfrentar meu quarto. Era tolice, era um absurdo, eu simplesmente não aguentava mais ficar presa naquele costume inútil. Não ganharia nada evitando um quarto, isso obviamente não melhoraria em nada as coisas. Tranquei-me no banheiro da parte de baixo da casa e ali permaneci por quase meia hora, tomando um banho e vestindo minhas roupas rapidamente, prendendo meus cabelos úmidos em um coque frouxo. Saí dali a passos tortos, levando a mão até minha barriga para acariciá-la, como de costume, sentindo meu estômago roncar desimpedido. Antes que eu pudesse pensar no que conseguiria comer, o som da campainha se fez presente. De súbito, movi meus pés com agilidade, rompendo a distância que me separava da porta. Esperançosa, segurei a maçaneta e a girei, torcendo para que fosse uma notícia, uma boa notícia. Talvez até Joseph, trazendo consigo um sorriso nos lábios e minha alegria plena de viver até então sem paradeiro.
- Bom dia! - não pude esconder a decepção em meu rosto, mesmo tentando ao máximo. Fui surpreendida ao avistar Jennifer parada a minha frente, erguendo uma cesta semelhante a que se usa durante um piquenique para ficar a altura de meus olhos. 
- O que está fazendo aqui tão cedo? - perguntei em um tom fraco de voz, quase inaudível. Queria ouvir minha voz novamente, da forma como costumava ser. Segura. Jennifer deu um sorrisinho e adentrou minha casa despreocupadamente, depositando a cesta sobre a mesinha de centro, sentando-se confortavelmente no sofá ainda bagunçado com minhas cobertas. 
- Falei com a sua mãe por telefone e ela me disse que alguém por aqui não está se alimentando muito bem. Quem será? - fingiu não saber, pousando o dedo indicador sobre o queixo, em seguida cruzando os braços na altura do peito, me estudando seriamente. - Eu trouxe algumas guloseimas, pelo menos elas vão te manter bem alimentada enquanto continuar teimando sobre não querer comer os alimentos que precisa. Pode comer de tudo que eu trouxe, não tem problema se engordar. Afinal, você está grávida, não está? E nem pense que vai se livrar dos legumes, verduras, frutas e da infinidade de alimentos saudáveis, porque não vai. - respirei fundo e tentei reconhecer que seu gesto e palavras abrigavam a melhor das intenções, apesar de não apreciar muito sua visita, pois ainda existia aquele lado de mim que queria permanecer solitário. 
- Mãe, quem deixou você trocar de corpo com a Jennifer? Ou será que existe um responsável para toda essa animação? - brinquei, vendo-a dar de ombros, procurando mudar de assunto. Eu sabia que Dominic havia surgido em sua mente. Não imaginava como, mas sabia. Isso me fez olhá-la de forma interessada, recebendo um olhar repreensivo. 
- Então... Sobre o que quer conversar? - ela arriscou logo depois, disposta a me fazer companhia.
- Jennifer, eu não entendo o que você ainda faz aqui. Você mora em Nova York, é uma designer de vestidos de noiva, não uma psicóloga. Realmente agradeço o que está fazendo por mim, mas não é necessário. - acabei por ser rude, mesmo sem querer, fazendo-a adquirir um semblante mais fechado. - Desculpe. - falei no instante seguinte, arrependimento revestindo a voz. Brinquei distraidamente com uma mecha de meu cabelo que se soltou do coque, perdendo-me em mais divagações sem rumo. 
- Estou em Londres agora. Não há nenhum vestido de noiva por aqui... - Jen olhou ao redor para confirmar. - E eu posso ser uma psicóloga se eu quiser ser uma. Aliás, sabia que quase iniciei a faculdade de Psicologia? - garantiu convencida. Quando percebi, eu estava rindo de seu gesto pomposo ao fazer referência a si mesma. Eu ria sem perceber, repreendendo a mim mesma a cada vez que deixava meus dentes expostos. Não parecia justo sorrir. Desde o dia em que Joseph desapareceu, Jennifer criou o hábito de me visitar sempre que podia. Visto o fato de que estava presente na hora exata do desaparecimento, ela alegava que se sentia totalmente envolvida na situação. Alegava que sentiria culpa se não viesse até minha casa pelo menos uma vez por dia, para checar meu estado. A princípio, não entendi sua preocupação, mas também não queria questioná-la. No fundo, eu sabia que era melhor ter apoio, pessoas por perto. 
Um silêncio fixo revestiu o ambiente, até que resolvi me manifestar.
- O que trouxe para mim? - perguntei infantilmente, de repente interessada. Aproximei-me curiosa da cesta, apenas para checar. 
- Um passarinho me contou que você adora sorvete de flocos, então eu lhe trouxe vários potes de sorvete de flocos. Aliás, temos que colocá-los no freezer antes que derretam. - concordei com a cabeça, pegando um pote juntamente com uma colher.
- Claro, porque é muito melhor tomar sorvete no inverno! - exclamei, animada com a ideia de adicionar um pouco de açúcar a minha corrente sanguínea.
- Com certeza!
- O que mais minha mãe contou sobre mim? - pedi, surpreendida quanto constatei estar revelando um leve risinho.
- Que você é uma pessoa muito corajosa. Ah, espere, ela não precisou me dizer isso, pude perceber. Até o Dominic percebeu, e olha que ele é bem idiota. - tive que rir novamente, mas dessa vez foi com descrença. Olhando bem para mim, onde seria possível de fato enxergar coragem?
O silêncio voltou a cair enquanto sugeri que fôssemos até a cozinha para organizar os alimentos presentes na cesta. Depois de algum tempo, após um café da manhã mais reforçado e calórico do que o planejado, permanecemos sentadas de frente para a bancada, conversando sobre assuntos aleatórios, coisas que não requeriam uma exploração maior de pensamentos. Coisas que não me fizessem lembrar de minha atual realidade. 
- Como você está? - Jennifer questionou em um tom baixo, olhando um pouco insegura em minha direção. Dei de ombros e neguei com a cabeça, sem coragem de realmente dizer o que queria. 
- Estou respirando. - por fim, escolhi utilizar aquelas duas palavras. Porém, algo dentro de mim exigiu que eu falasse mais. Que eu colocasse tudo que sentia para fora, de uma vez por todas. Caso contrário, explodiria. Abaixei meu olhar e iniciei a frase daquela forma, encarando insistentemente o chão, como se não quisesse erguer o rosto e arcar com minhas próprias palavras. - Às vezes juro que não sei se continuo viva... - ela arqueou uma das sobrancelhas, em silêncio. - Eu sei, eu sei, preciso ser forte porque existe esse bebezinho se desenvolvendo dentro de mim, necessitando de mim completamente. - relembrei o fato mais uma vez, somando então inúmeras vezes. - Tenho meus filhos e minha família, também. Eu só... Não consigo. Embora já tenhamos lidado com muitas tempestades, em todas elas eu sempre soube onde Joseph estava. Mas agora... - cessei meu desabafo, mordendo o lábio inferior com firmeza, tentando inutilmente acalmar minhas emoções. - Será que ele tem um lugar quente e seguro para dormir? Tem o que comer? Será que está com dor? Ferido? Vivo? - minha voz falhou ao final, enquanto eu despejava todas aquelas palavras. Senti uma ardência em meus globos oculares, mas me esforcei ao máximo para segurar todas as lágrimas desesperadas para escapar de meus olhos. - Toda vez que eu tento pensar de forma positiva e batalhar em busca de uma solução para que tudo isso vá embora, uma imagem vem certeira em minha mente. Joseph morto. Então meu corpo inteiro paralisa, o pânico se torna tão aparente quanto as batidas descompassadas do meu coração. Eu só consigo segurar lágrimas, teimar em mantê-las presas. Dói demais e eu tenho medo que o alívio nunca chegue. Sabe quando você está doente e tem a fria impressão de que não vai melhorar? É exatamente como me sinto agora. - Jen permaneceu calada, processando toda aquela informação. Em seguida, meneou com a cabeça e pousou uma mão sobre meu ombro direito, em um gesto de compreensão, demonstrando-se pronta para dizer algo. 
- Mas todas as vezes em que eu senti que não melhoraria, pouco, muito pouco tempo depois... Eu melhorei. - ela sorriu abertamente. - Ou melhor: eu me curei. Por isso, reaja. Reaja, Demetria! - ela recomendou com firmeza. Eu realmente queria que fosse assim tão fácil.
- Você nem sequer me conhece o suficiente para se preocupar. - falei sem perceber, adotando uma expressão de desconforto. Sendo rude mais uma vez. Por sorte, Jennifer parecia não se importar com isso.
- Conheço o suficiente para saber que você deveria ter mais esperança. Vamos, onde está a mulher que me disse que as luzes do Natal são pontos de esperança que devemos seguir? Por que você está deixando de segui-los agora e permitindo que se apaguem? Não faça isso, Demi, por favor!

Mais tarde, enquanto Jennifer permanecia comigo, Matthew veio até onde estávamos, recebendo um sorriso da loira e outro meu. Eu ainda era totalmente incapaz de acreditar que tinha falado de forma tão fria com meu pequeno na noite anterior. Provavelmente sentiria a culpa fluir por minhas veias durante longos dias. Matt passou a ignorar nossa presença e se distraiu com seus brinquedos, permanecendo sentadinho sobre o tapete felpudo. Sem que eu pudesse perceber, Jen se aproximou dele, pegando um de seus blocos, apenas para ajudá-lo a montar uma torre feita com vários deles. Observei os dois com a pouca distância que tinha, vendo a designer olhar fixamente para o rosto do bebê, como se analisasse suas feições e depois me lançou um olhar feliz. 
- Quem disse que o Joseph não está aqui? Bom, não totalmente, mas... - ela apontou para o pequeno, que percebeu ser o motivo de nossa conversa e se virou para me olhar, deixando um leve sorriso surgir por seus pequenos lábios. Novamente, foi como se Joseph estivesse sorrindo para mim. Jennifer tinha razão. Ali estava, a prova mais forte do que meu marido e eu tínhamos.Matthew. Eu precisava ser forte, precisava engolir aquelas lágrimas e voltar a ser a mulher de antes. E eu conseguiria, eventualmente. 
Durante esse pensamento, ouvi a campainha tocar novamente. Jennifer, mais perto da porta, ofereceu-se para abri-la, enquanto eu voltava a criar expectativas... Frustradas. Era Dominic parado ali, olhando da loira para mim. Pela expressão em seu rosto, ele não tinha notícias boas. Se é que tinha alguma. O advogado estava motivado a encontrar informações sobre o paradeiro deJoseph. Inclusive, ofereceu-se para ajudar os detetives. 
- Alguma notícia? - ele perguntou ainda parado do lado de fora do batente. Apenas neguei com a cabeça de um jeito vago. Logo, notei a presença do homem dentro do cômodo. - Isso não é justo! - Dominic se aproximou de mim, fitando meu rosto de feições apagadas, olhos distraídos. - Demetria, ele não abandonaria você e as crianças. Portanto, não pense nisso nem por um segundo. - parecendo ler pensamentos, ele fez com que meu rosto se virasse na direção do seu. - Joseph é um cara legal, ele não merece isso. Vocês não merecem isso. - sentou-se desajeitado no sofá ao meu lado, apoiando os cotovelos nos joelhos. Jennifer sentou-se cautelosamente ao seu lado, não sabendo para onde olhar. O homem permaneceu pensativo até que, durante um estalo, levantou bruscamente e caminhou em direção a porta, como se uma valorosa ideia adentrasse sua mente, motivando-o a se mover o mais depressa possível. Virou-se mais uma vez, deixando os olhos fixos nos meus, enxerguei segurança ali. - Eu vou encontrá-lo, Jonas. - disse simplesmente, tão convicto que por instantes senti que era apenas questão de tempo para que ele cumprisse sua promessa. - E, Jennifer... Nos vemos depois. - após um sorrisinho de canto, ele piscou para ela, antes de bater a porta e sumir pelo jardim. A mulher a minha frente desfez o olhar surpreso, revelando então as bochechas ruborizadas. Era bom ter pessoas como eles ali, determinadas a me ajudar.

A cada novo toque daquela campainha, era como se eu sofresse outro abalo emocional, tornando-me cada vez mais amedrontada em resposta aos barulhos inesperados. Já havia passado da hora do almoço, estávamos eu, mamãe, Jennifer, Jamie e Matthew a mesa, apenas conversando qualquer coisa. Bom, no caso de Matthew, tentando conversar. Minha mãe se ofereceu para atender a porta, eu apenas concordei com um aceno e continuei a alimentar meu filho, limpando os cantos de seus lábios com um guardanapo, feliz por, apesar de tudo, ele não rejeitar suas refeições. Isso já significava o mundo para mim. 
Algum tempo depois, envolta pelo silêncio que se fez presente, percebi dois pares de passos se aproximando gradativamente. Um, de minha mãe, é claro. Mas e o outro? Levantei-me com pressa, virando o corpo agilmente para poder enxergar o novo visitante. Mamãe adentrou o recinto com outra mulher em seu encalço. Permaneci estática, fitando sua expressão como se procurasse alguma explicação. A bagunça de emoções instalada em meu interior contribuiu para que eu voltasse a sentir os olhos marejados, dando um passo a frente, apesar de ainda hesitante. Completamente surpresa e um pouco contrariada, continuei com meus olhos firmes aos seus, que não desviavam por nada. 
- Eu precisava estar aqui com você. Por você. É a minha vez de ser uma amiga... Se eu ainda tiver permissão para isso. 
Cassie estava ali, a minha frente, os olhos transbordavam tamanha sinceridade que não havia sequer espaço para nutrir desconfianças. Não me importei em questionar seu aparecimento repentino, muito menos com memórias de dias passados, memórias amargas que já não importavam mais. Ela era minha melhor amiga - apesar de tudo -, por isso não pensei em esconder a felicidade que senti em tê-la por perto. 
- Cass... É muito bom te ver! - sem perceber, acabei com a distância entre nós e pude, enfim, abraçá-la como não fazia há muito tempo. Complacente, ela retribuiu ternamente minha demonstração de saudade, esperando pelo tempo que fosse necessário, até que desfiz nosso contato e enxuguei uma lágrima solitária ao canto de um dos meus olhos. 
O amor une as pessoas... Assim como a dor.


Joseph's P.O.V

Com um esforço que ao passar dos dias se tornava mais árduo, consegui abrir meus olhos. Eu não sabia se era dia ou noite, onde estava e tinha pouca noção do que ocorria ao meu redor. Baseando-me em informações deficientes, calculei que estava a mais ou menos seis ou sete dias longe de casa. A exaustão ultrapassava os limites do suportável, eu duvidava que conseguisse caminhar se alguém aparecesse para remover a prisão de meus pés. Ao contrário das condições do ambiente no primeiro dia em que me vi preso naquela emboscado, havia uma luz acima de minha cabeça, sua iluminação precária incomodando minhas retinas cansadas demais para resistir. Dormir era um privilégio difícil de conseguir naqueles dias, principalmente porque eu não queria. Todas as malditas vezes que meus olhos se fechavam, era a imagem de Demetria e meus filhos que vinha em mente. Eu acordava em um susto, por vezes tendo de me deparar com os olhares daqueles que permaneciam por perto, apenas para me vigiar. Tentavam, vez ou outra, me oferecer o que comer e o que beber, mas eu rejeitava na maioria das vezes. Como consequência, estava fraco, incapaz de me mover bruscamente, eliminando então minhas chances de escapar dali tão cedo. Minha garganta ardia de tão seca, e eu temia logo precisar implorar por água. 
Eu continuava sentado, pés e mãos atadas. A barba já um pouco crescida em meu rosto incomodava, mas eu não tinha meios para conseguir aliviar aquele incômodo, precisava fechar os olhos com força e resistir. Com a respiração ruidosa e instável, novamente tentei fazer um esforço inútil para me soltar dali. As tentativas foram tantas que eu já tinha me acostumado a acabar caindo no chão, sofrendo com o impacto frio todas as vezes que lutava para adquirir movimento e, talvez, liberdade. Por mais difícil que pudesse parecer, eu me recusava a assimilar todo aquele conjunto de informações. O mandante de meu sequestro raramente apareceu naqueles últimos dias, pude vê-lo apenas três vezes. Em nenhuma delas ele demonstrou algum tipo de remorso. Na verdade, estava claro como água que não havia resquício sequer de qualquer sentimento positivo naquele homem.
Ao pensar em água, voltei e engolir em seco e desfrutei do contínuo ardor na garganta. 
Tomado por uma habitual vertigem, pisquei os olhos algumas vezes para me livrar da visão ruim e ergui o rosto minimamente, carregando um olhar que denunciava exaustão, assistindo alguém se aproximar rapidamente. Ao julgar pelos seus movimentos e a risada debochada que ouvi, sabia de quem se tratava. A luz precária anunciou sua identidade, o olhar tão prepotente me analisando como se não estivesse satisfeito com as demonstrações de ódio que recebeu com um único gesto meu: a indiferença. Esforcei-me ao máximo para conseguir deixar meu rosto erguido, mas ainda sem expressar emoção alguma, apenas meus globos oculares continuavam em movimento, seguindo os passos do homem enquanto ele se aproximava de uma cadeira e a arrastava pelo chão, trazendo-a para ficar a minha frente, sentando-se ali. 
- Olá, Joseph, como vai? - ele perguntou, como se estivesse cumprimentando casualmente um amigo que não vê há muito tempo. Continuei imóvel, mas precisei dizer algo. 
- Por favor, diga que fiquei louco de vez e continuo vendo essa assombração detestável. - pedi, finalmente conseguindo olhar firme nos olhos de meu pai, escondendo toda a instabilidade mediante o estado crítico em que eu me encontrava, prestes a gritar por socorro. Joseph Jonas, aquele que um dia, sem hesitar, me senti seguro ao chamar de pai. Aquele que não passava de um ser opressor e repulsivo, um homem que carecia de humanidade, e que fingia não enxergar isso. 
- Sempre os mesmos olhares desafiadores e as palavras destemidas. - comentou, encenando admiração.
Existem duas coisas capazes de levar um homem a falência de espírito. O medo e, principalmente, o que esse medo pode vir a ocasionar. Havia um concreto exemplo dessa falência a minha frente, uma confirmação em carne e osso, quando na verdade ela já deveria ter se transformado em pó. 
Joseph passou a me ignorar e retirou um maço de cigarros do bolso de seu casaco, revelando também uma garrafa que até o momento eu não tinha sido capaz de notar. Pude reconhecer o rótulo daquele whisky, fora o mesmo que recebi em minha casa, dias antes de ser sequestrado. Existia uma história por trás daquele whisky, consegui recordar. Eu era o adolescente rebelde, vasculhando por todos os métodos mais desgraçados para irritar meu pai. Em seu escritório, existia uma infinidade de bebidas como aquela, cada uma com nome e ano diferentes, mas uma se destacava entre todas as outras. Seu whisky preferido. Aquele que eu fazia questão de roubar - mesmo sabendo que ele tinha dinheiro de sobra para comprar quantos quisesse -, guardar dentro de uma mochila, pegar meu carro e dirigir para longe. Aquela foi a prova de que eu não estava tendo alucinações em todas as vezes que acreditei ter visto Joseph. Ele queria que eu soubesse de sua presença.
Sem cerimônias, o homem revelou um isqueiro e brevemente acendeu seu cigarro, tragando-o despreocupadamente. Em silêncio, balançou o maço a minha frente, como se estivesse me oferecendo um. Fechei os olhos para tentar conter minha fúria. Não por sentir necessidade da nicotina, mas porque sabia que ele fazia tudo aquilo de propósito. A raiva era proeminente, eu queria encontrar um meio de erradicar suas intenções ainda secretas, de uma vez por todas. Por isso, julguei ser propício permanecer em silêncio, um observador. Jogar o jogo que ele acreditava cegamente ser o dono das regras. 
- David sabia. - murmúrio categórico, contrariando minha própria decisão anterior, vendo Joseph se esquecer de seu cigarro e direcionar sua atenção a mim. Não conseguia permanecer quieto quando tinha tanto para jogar em sua cara. - Ele me disse para ter cuidado, mas não explicou o porquê. Agora vejo bem. - dei de ombros, desviando o olhar. Joseph riu novamente, engasgando-se com a fumaça de seu cigarro no instante seguinte. Meu primeiro instinto: tentar matar um morto
- David, David... - levantou-se, caminhando pelo recinto. - Aquele velho é um bisbilhoteiro. A filha teve a quem puxar. - a menção implícita a minha mãe despertou novamente a fúria, me obrigando a tentar forçar meus braços na esperança de conseguir algum progresso e me livrar da prisão, podendo então calar a boca daquele ser. Então, ele percebeu que procurei evitar outro contato visual e permaneci com a cabeça inclinada, sentindo-a pesada, encarando fixamente o chão sujo, tentando canalizar meu ódio e transformá-lo em paciência. Pelo menos eu tentei. Percebi quando Joseph voltou a ficar a minha frente, dessa vez deixando a garrafa de whisky amostra, abrindo-a para dar um gole desajeitado, fazendo com que pouca quantidade da bebida derramasse perto dos meus pés. - Levante o rosto para falar comigo, garoto. Seja um homem. - elevando seu tom de voz, ele decretou, apoiando sua mão sobre meu ombro, mas em um movimento brusco consegui me livrar dele. 
- O que é que você sabe sobre ser um homem? - retruquei com um riso preso, satisfeito por deixá-lo em silêncio, sem reação. Notei que Joseph continuaria mudo, encontrei uma valiosa oportunidade para falar. Analisando suas expressões inteligíveis, deduzi que poderia pegá-lo de surpresa, conseguindo então expor alguma fraqueza que serviria a meu favor. Eu só queria ir logo para a minha casa, esquecer o pesadelo vivenciado, abraçar Demetria até que seu cheiro e amor curassem qualquer male. Abraçar meus filhos até sentir que passaria por tudo aquilo novamente se um sorriso de ambos fosse a minha recompensa. Não estava me importando com sanidade, faria de tudo para sair dali, até ferir o homem a minha frente, caso fosse necessário. - Estou tentando entender tudo isso, mas não parece possível. Eu vi o seu corpo em um caixão! - acusei, tentando arduamente esconder minha surpresa. Ainda era um choque enxergá-lo ali, vivo. 
- Não, o que você viu foi um boneco com a minha aparência. - respondeu simplesmente, como se de fato não significasse grande coisa.
- Você é doente. - falei negando com a cabeça, percebendo que minha voz se tornava cada vez mais falha. Era algo que se agravaria com o passar do tempo, até que eu não fosse mais capaz de falar. Precisava beber alguma coisa, mas não seria aquele whisky, se essa era a intenção de Joseph. Disso eu continuava convicto. 
- Eu sei, filho. - quando tentei protestar e pedir que parasse de me chamar daquela forma, ele foi rápido ao me cortar, erguendo seu dedo indicador antes de dar outra tragada em seu cigarro. - O restante foi muito fácil, na verdade. Eu só precisava conseguir uma falsa certidão de óbito e cuidar para que uma réplica perfeita do que viria a ser meu testamento garantisse a você direito absoluto sobre a Empire. Aliás, me surpreende saber que não permitiu que ela chegasse a falência. - admitiu, pela primeira vez demonstrando satisfação. - Depois, procurei uma forma de me manter “camuflado” em algum país bem distante. Feito. - processando aquelas informações, pensei em questionar o motivo para tamanha insanidade, mas não o fiz. - Agora, diga-me, o que o dinheiro não faz? - questionou sorridente. Ignorando todas as circunstâncias, imitei sua ação. Um sorriso.
- Não conserta a covardia. Não constrói um bom caráter. Não livra o mundo de seres como você. E eu apenas citei alguns exemplos. - ainda com um sorriso semelhante, apenas deixando-o repleto de escárnio, respondi categórico. Joseph demonstrou-se irritado, em silêncio. Ele nunca perderia o hábito de revelar seu aborrecimento de forma calada. Percebi que deixaria o plano de não pronunciar uma sílaba sequer para mais tarde. Ele precisava me ouvir, eu precisava vê-lo se corroendo com as palavras que imploravam para ser expulsas de minha garganta. - Aliás, por que “ressuscitou” agora? Quer perdão? Um jantar em família? Vá para o inferno. - rosnei, assistindo-o bater palmas, fingindo-se de impressionado com tudo que ouviu. 
- Você sente falta da sua mãe, Joseph? - ele decidiu mudar todo o rumo da conversa, fazendo com que meu corpo congelasse, sentidos alertas, a fúria voltando a borbulhar meu sangue. Ouvi-lo mencionar minha mãe, sob qualquer hipótese, era como receber uma facada no peito. Não uma que me mataria, mas sim uma que contribuía para a elevação do meu ódio. Eu não queria ficar tão possesso e ter ideias tão vingativas em mente, mas era inevitável. - Vamos, responda, não tenho todo o tempo do mundo.
- Pensei que um morto tinha tempo de sobra para fazer o que quisesse. - voltei a zombar, abandonando aos poucos o medo de que ele poderia vir a se vingar, talvez distribuir mais alguns hematomas em minha face. Provavelmente, a região abaixo de um dos meus olhos era marcada por um tom arroxeado, consequência do soco que recebi há alguns dias, fraco demais para reconhecer o autor. Mas naquele instante, concluí que ele fora o responsável. - E não se atreva a falar sobre a minha mãe. Você a enganou, fez com que ela se sentisse a vilã dessa história medíocre. Então nem sequer pense em me dizer que sucumbiu a derrota e se tornou esse verme por causa dela. Você a obrigou a se afastar de mim e ela morreu antes que pudesse remediar isso, remediar o estrago que você causou sozinho! - cuspi as palavras, deixando-o cada vez mais na defensiva. - Eu faria qualquer coisa para estar vendo ela agora, e não você. Sabe, Joseph, você costumava ser meu herói, agora se tornou um dos vilões que deveria combater. - despejei, ofegante, a sede cada vez mais forte. Não aguentaria manter aquela troca de farpas por muito tempo, mas estava valendo a pena. Vê-lo se remoendo em culpa era gratificante, diminuía consideravelmente meu sofrimento. - Tudo que eu queria era um pai. Alguém que apoiasse a mão sobre o meu ombro em um momento de rebeldia inconseqüente e dissesse: pare! Isso é errado. Ainda há tempo, então mude seu caminho agora mesmo. - ponderei se realmente era algo útil a dizer, mas acabei por perceber que parte de mim estava agradecida por vê-lo vivo, era uma oportunidade para dizer o que nunca pude. O que ele nunca quis ouvir. Um desabafo que, guardado depois de tanto tempo, atingiria sua vítima. 
- Não se esqueça que você conheceu sua esposa graças a sua rebeldia. - tentou inutilmente justificar. Primeiro minha mãe, depois minha mulher... Eu arrancaria sua língua se pudesse. Ele não tinha o direito de fazer menção a elas com aquela boca imunda, não tinha. 
- Não. - meneei com a cabeça, olhando para cima antes de respirar fundo. - Demetria é a mulher da minha vida. Eu teria encontrado ela independente dos meus atos, independente dos meus caminhos. Independente de tudo. - olhei fundo em seus olhos, atingindo-o com minha convicção. Sim, ele se mostrava impressionado com o homem a sua frente. Eu não era mais aquele garoto insolente que se defendia com rebeldias. Se ele queria ter uma conversa de homem para homem, estava conseguindo. 
Joseph largou a garrafa e após deixá-la jogada no chão, enfiou uma mão em um dos bolsos de seu casaco, retirando dali um aparelho celular. Após analisá-lo, concluí que era meu. O homem parecia vasculhar por algo, mantendo os olhos fixos, virando o celular para deixá-lo com a tela de frente para mim. Tive que lutar contra a fraqueza naquele momento, talvez mais do que nunca. Tive que ser forte e engolir as lágrimas que já ocasionavam um ardor em meus olhos. Era uma foto de Matthew que fui forçado a ver. Por dentro, apenas por dentro, eu desmoronei. Mas Joseph não teria a oportunidade de assistir. 
- Nesse exato momento, essa criança está perguntando pelo pai. - ele não se abalou com o que ouviu, na verdade, escolheu mudar de assunto. 
- A sensação de segurar um filho pela primeira vez é indescritível, não é? - retirando a fotografia de minha vista, ele voltou a contemplá-la, quase me fazendo acreditar estar feliz por ver a foto de seu... Neto. O tom de sinceridade impregnado em suas palavras teria me convencido se não fosse sua expressão seguinte. Frieza. 
- E como você seria capaz de saber? - desafiei, me recuperando aos poucos da sensação angustiante de olhar para meu filho quando não podia tê-lo por perto. 
- Você pensa que eu te odeio, garoto. - Joseph guardou meu celular, cruzando os braços na altura do peito, analisando meticulosamente minha expressão fechada. 
- Ou tem uma forma muito peculiar de demonstrar o contrário. - sugeri.
Você nunca foi o problema. - quando percebi, estava rindo. E só não ri mais alto porque não tinha condições, minha garganta se tornava mais seca a cada segundo. 
- Essa situação toda grita exatamente o contrário. Estou preso aqui, longe da minha família. E a culpa é exclusivamente sua. Tem certeza que não tem nenhum problema comigo, pai? - pronunciei a última palavra com desdém, deixando-o perdido outra vez. Era incrível a forma como ele conseguia perder a pose de imponente tão rápido. 
- Tenho, Joseph. - afirmou convicto, sustentando o contato visual. Eu tentava incessantemente fazer com que uma memória de minha infância abandonasse minha mente, exatamente como Joseph me abandonou, mas parecia mais difícil do que o previsto. Era uma boa memória. - E tenho certeza que você só fala desse jeito comigo porque sabe que não vou fazer nada. - respirei fundo, inconformado com sua dissimulação. 
- Não vai fazer nada? Você já está fazendo! - elevei meu tom de voz. - Olhe para mim, olhe ao seu redor. Imagine como minha família está agora... - outra vez tive que lutar contra um choro teimoso, não sabendo mais até que ponto aguentaria barrá-lo. - Eu nunca soube o que esperar de você, muito menos algo bom. Agora vejo que estive certo o tempo todo quanto a isso. - pisquei meus olhos para melhorar minha vista embaçada. - E, sim, a sensação de segurar um filho pela primeira vez é indescritível. Você sente que é capaz de aguentar o mundo nas costas por ele. Sua vida passa a fazer total sentido. - parecíamos, naquele ponto, envoltos em uma típica conversa de pai e filho, compartilhando as alegrias da paternidade. Mas era só prestar atenção e constatar a quantidade de ressentimento quase palpável circulando pelo ar, sendo lançada de um corpo para o outro. - Pensei que nunca mais sentiria nada parecido, mas então Demetria me disse que está grávida de novo e... Estou feliz. Apesar de toda essa droga que você me envolveu, eu estou feliz. Por isso, se minha mulher perder nosso bebê, eu juro por Deus que... - não aguentando continuar, precisei fechar meus olhos com firmeza, abaixando meu rosto o máximo que pude. Deixei que um soluço escapasse, revelando os primeiros indícios daquele choro. Joseph permaneceu em silêncio. - Me deixe sair daqui, seu desgraçado! - falei sem perceber, desistindo de tentar medir minhas palavras, o desespero veio tão certeiro que pedi aos céus que me mantivessem preso ali, caso contrário faria uma loucura. - Me deixe em paz! Eu nunca te fiz mal algum, só queria ficar longe de você... Ficar livre de você. - não senti vergonha por ter minha angústia sendo assistida, por ter dissipado a pose de destemido que tentei manter por tanto tempo. 
- Seja honesto, você acha que estou feliz com tudo isso? Eu deveria estar morto. Estive por poucos anos, hipoteticamente falando. - não pude vê-lo, mas sabia que o homem tinha se lançado contra o chão, sentando-se em um dos cantos do cativeiro. - Mas, não, continuo aqui... Ocupando espaço nesse mundo. 
- O começo da minha vida foi destruído. Você me fez acreditar ser tão inútil quanto lixo. Mas eu superei tudo isso e hoje faço questão que você veja. Veja que eu, ao contrário de você, sou um homem. É claro que tive, sim, muitos momentos difíceis, mas não desisti de tudo como você fez. Esse é o segredo, Joseph. Saber aguentar firme. - ele estava de pé novamente, caminhando na direção da porta. Tive que elevar meu tom de voz, porque queria garantir que ele me escutaria. - Sabe por quê? Porque vale a pena, e sem essa habilidade você não é nada. - sem resposta, observei aturdido enquanto o homem se distanciava cada vez mais, segurando a maçaneta da porta, pronto para me deixar sozinho outra vez. Não apreciava sua companhia, então não sei o motivo de ter pronunciado as palavras seguintes. - Não vire as costas para mim. Não se atreva a virar as costas como sempre fez. - desafiei-o, sentindo as consequências de minha voz grave, aos poucos tendo que pausar a frase para tossir duas ou três vezes, mas ainda assim determinado a continuar. - Olhe nos meus olhos e diga por que está fazendo isso comigo. Não seja um covarde imprestável, um desperdício de espaço! Era com aquela sentença que ele me reduzia a quase nada, sempre disposto a me enfraquecer. No passado, é claro. 
O expresso desafio em minha sugestão o fez cessar os movimentos e dar meia volta, voltando a ficar a minha frente. Em um ímpeto, pude ver a velocidade com que sua mão fechada em punho se aproximava de meu rosto, então fechei os olhos e esperei pela dor. Que não veio. Joseph permanecia estático, desfazendo aos poucos sua posição de ataque, recompondo-se em seguida. Sem coragem para questionar sua falta de coragem em me ferir novamente, voltei a tossir, sentindo o esgotamento físico cada vez mais evidente. Eu desmaiaria se não me alimentasse e bebesse água. Eu estava morrendo por dentro, saudade era pouco para explicar o que eu sentia, não achava que poderia aguentar aquele sofrimento por muito tempo, mas Joseph merecia ver apenas meu queixo erguido. Ele merecia ver que não me abalava. 
- Água. - pedi em um murmúrio, assustado com a frequência elevada de meus batimentos cardíacos. Meu corpo começava a demonstrar sinais claros de uma possível desidratação. - Preciso de água, por favor... - tentei, quase inconsciente, estranhando minha própria voz. Joseph aproximou-se, a expressão severa no rosto. 
- Claro, filho. Água. - fui pego de surpresa quando ele segurou um dos meus braços e me puxou para cima, fazendo que eu ficasse de pé, mesmo sem saber como, já que acreditei não ser capaz disso mediante o mal estar que enfrentava. De forma ágil e violenta, ele me guiou até outra porta, essa localizada do outro lado do cativeiro. Soltou-me por um instante, quando acreditei fielmente que chegaria ao chão. Porém, encontrei uma parede para me apoiar. Quando Joseph abriu aquela porta, senti o vento frio proporcionado por uma chuva forte atingir meu corpo por completo. Aquela era a primeira sensação boa em dias. 
Antes que eu pudesse prever, já estava sendo puxado bruscamente outra vez, sentindo as gotas me atingirem uma a uma enquanto era forçado a caminhar de forma dificultada pela chuva. O lugar era extenso e escuro, julguei se tratar de um terreno vazio. Tentei protestar e me segurar em alguma coisa quando senti as mãos de Joseph me largarem, empurrando meu peso até que atingi o chão, minhas costas reclamaram quando colidiram com a superfície dura. Fechei os olhos com força por um instante, tentando erguer meu tronco. Era difícil, já que a tempestade atrapalhava meus sentidos e minhas mãos continuavam atadas, os braços para trás, apoiados em minhas costas. 
- Nunca diga que eu não sou generoso com você. - o homem abriu os braços, explicitando a área. - Aí está a sua água! - esforcei-me para abrir os olhos, tentando me arrastar pelo concreto molhado, procurando alguma área para apoiar meu corpo. Ignorei as escoriações adquiridas pelo caminho, realmente desprezando a dor e suas consequências. Entretanto, tive que segurar o lábio inferior com os dentes quando senti o tecido da camisa molhada rasgar na área da manga, promovendo um ferimento na pele exposta de meu braço, resultado de um atrito brusco com o concreto.
Joseph voltou a ficar de costas para mim, determinado a retornar para o interior do local. Sua desgraçada maneira de me tratar reforçava a descoberta de que ele continuava exatamente o mesmo homem de sempre. E como eu queria enfrentá-lo! 
- Joseph... - chamei-o, mesmo fraco e com dificuldade para me mover, conseguindo sua atenção. - Saiba que isso é pior do que te ver morto. Bom, pelo menos eu pensava ter visto. Vá, me deixe aqui, você sabe que nada disso vai me abalar. - destemido, frisei bem as palavras, revelando um sorriso audaz, olhos marcados pela indiferença. Ele nada fez, apenas se afastou o máximo que pode, adentrando o local e batendo a porta. Aliviado por finalmente estar sozinho, continuei a me arrastar pela chuva até que consegui escorar meu corpo cansado em uma das paredes. Encarei um ponto qualquer da área, voltando a pensar em minha Demetria, em como ela deveria estar naquele momento. Imaginá-la desolada, perguntando a si mesma se eu teria coragem de abandoná-la foi o suficiente para que eu consentisse liberdade ao desespero que subiu pela garganta. Então, chorei o máximo que pude, o tanto que queria e precisava. As gotas da chuva se misturariam com as lágrimas, então não faria diferença. Ninguém veria. 
Ainda preso naquele pranto, pude jurar ter ouvido um estrondo se sobressair no barulho constante da tempestade. Ergui a cabeça e tentei me arrastar novamente, olhando incerto para a porta ao lado. O som pareceu ter vindo de dentro de um prédio com aspecto precário, abandonado. Sem saída, continuei ali, esperando o incerto. 
Até que a porta voltou a se abrir bruscamente, revelando algo que eu não esperava ver. 
Instintivamente, me preparei para o pior. 

/Joseph's P.O.V


Era um início de noite chuvoso. O fim de mais um dia sem respostas, sem soluções, sem Joseph. 
Por algum motivo desconhecido, acabou se tornando mais fácil sorrir quando Jennifer ou Cassie diziam algo esperando conseguir esse resultado. Elas insistiram em continuar comigo, passar a noite ali. A sala estava uma tremenda bagunça, como se fôssemos crianças realizando uma espécie de festa do pijama. Jamie permanecia em seu quarto, entregue a leituras que o distraíam o suficiente para não pensar no pai. Matthew dormia tranquilamente em seu berço, como um anjinho. Havia uma pilha de DVDs espalhada sobre o tapete, assim como vasilhas com doces e pipoca. Estávamos nós três sentadas, com as costas apoiadas no sofá. Os créditos finais de um filme subiam pela tela da televisão, e eu mal sabia dizer o que tinha acabado de assistir. Não conseguia prestar atenção, não conseguia desfazer o caminho que meus pensamentos percorriam, até se depararem uns com outros. Não era de todo ruim pensar inesgotavelmente em meu marido, pois eu tinha boas memórias para me agarrar, cenas que fiz questão de viver e reviver em minha mente durante todo o tempo em que ouvia a conversa calma das duas mulheres ali presentes, mas não fazia questão alguma de tentar entender ou participar. Deprimida, permaneci firme onde estava, enquanto assistia as duas se lançarem na direção da pilha de DVDs para selecionar o próximo que veríamos, então me movimentei lentamente e suspirei alto, deixando que ambas escutassem. 
- Nós podemos assistir outro filme e depois comer doces. Ou assistir um filme comendo doces. - Jennifer sugeriu animada, pronta para pegar a tigela com os mais variados doces. Eu não queria continuar naquele maldito ciclo vicioso. Respirando apenas por respirar. - Desde que você se distraia. 
- Eu não quero me distrair, Jennifer. - retruquei categórica. - E podem ir para suas casas, estou bem. - determinada a tomar um ar e assistir a chuva, levantei-me rapidamente e fui a passos vertiginosos em direção a escada, pronta para me trancar dentro de uma das portas e apenas refletir, sozinha. 
- Não, Demetria, você não está! - Cassie protestou antes que eu apoiasse o pé no primeiro degrau, me obrigando a cessar os movimentos. - E se quiser realmente ficar sozinha, terá que nos expulsar. Caso contrário, não vamos a lugar algum. - Jennifer pareceu apoiá-la com um gesto afirmativo de cabeça, me fazendo bufar. Um pouco de gratidão não me mataria, eu sei. Mas o grande problema seria lidar durante toda a noite com os olhares carregadas de pena que ambas me lançavam, talvez até mesmo sem perceber. Eu estava sentindo pena de mim mesma, não precisava desfrutar de sentimento semelhante vindo de outras pessoas. - Eu te conheço, duvido que tenha coragem de fazer isso. - Cass sorriu presunçosa, sempre tão disposta a falar pelos cotovelos. 
Concordei de má vontade, alegando a elas que subiria apenas para pegar um casaco e que retornaria em breve. Assim feito, vesti a peça de roupa bem quentinha e me preparei para voltar ao andar de baixo, pisando calmamente sobre os degraus, querendo adiar minha chegada até o local. Em um ímpeto desprovido de aviso qualquer, o telefone disparou a tocar insistentemente. Naquela noite, seu toque pareceu mais intenso do que nunca, incomodando prontamente minha audição. Jen e Cass olharam em minha direção, enquanto o som continuava a funcionar como trilha sonora para um dos diversos momentos confusos daquele mês. 
- Quer que eu atenda? - Jennifer perguntou, prestativa, levantando-se de imediato. 
- Por favor, Jen. - pedi estagnada em um dos degraus, olhando atônita para o telefone, apenas assistindo Jennifer retirá-lo da base e levá-lo até seu ouvido, dizendo palavras que não pude compreender, visto meu estado de distração. Seus olhos se direcionaram a mim, olhos que continham algo muito diferente do alívio. Não era a notícia de que meu marido fora encontrado. Pelo menos não como eu esperava.
É para você. - ela disse em um sussurro, trocando um olhar aflito com Cassie. Em resposta, apenas pisquei lentamente e deixei os lábios entreabertos, absorvendo o que observava. Desci rapidamente as escadas, correndo na direção do aparelho, agarrando-o apressadamente. Identifiquei-me e ouvi pacientemente tudo que a voz desconhecida relatava, sentindo um buraco sob meus pés voltar a se formar, pronto para me engolir com sua imensidão assombrosa. Com os olhos vidrados, senti o telefone escorregar da proteção de meus dedos e deslizar agilmente pelo ar, até tocar de forma brusca o chão. Permaneci imóvel, tentando pronunciar algo, mas minha voz não saiu. 
Por um segundo, eu parei de respirar. E voltar no segundo seguinte nunca fora tão doloroso. 
Encontraram um corpo, não é? - Jennifer se arriscou a quebrar o silêncio, com receio de se aproximar de meu corpo, ainda em estado de inércia. 
- Não! - bradei, despertando de repente, voltando a pisar com violência sobre o chão, cruzando todo o ambiente para poder subir correndo as escadas. Queria me esconder, queria deitar em minha cama e esperar até que o pesadelo terminasse. Porque, sim, não passava de um pesadelo. O pior de todos. 
Demetria... - Cassie tentou me chamar, então me virei mais uma vez, agora com lágrimas escorrendo desimpedidas de meus olhos inchados. Estupefatas, as duas não sabiam o que fazer. 
- Eu não quero ver um corpo que não é do meu marido!
A informação compartilhada ao telefone foi rápida e objetiva. Primeiro, me perguntaram se eu era a esposa de Joseph Jonas. Assim confirmado seu desaparecimento, foi como se disparassem um tiro de amargura em meu peito. Havia um corpo sem identificação, encontrado no fim daquela tarde perto de uma fábrica abandonada. Devido as condições desse corpo, seria necessário que, caso de minha vontade, eu me retirasse de minha casa e fosse até o local. Identificá-lo. Ou não identificá-lo, pois não saberiam definir se de fato era Joseph. 
- Como pode ter tanta... - Jen ponderou sobre continuar. - Tanta certeza? - demonstrando arrependimento quando por fim conseguiu. Um trovão ecoou pelo recinto, me fazendo tampar os ouvidos com as palmas das mãos, lutando contra meu próprio corpo que desejou ceder. 
- Eu sinto que ele está vivo, sinto isso de forma veemente. Não sei como, mas consigo. Joseph pode ficar desaparecido por semanas, meses... Mas ele não vai morrer antes que eu possa vê-lo de novo. Ele não vai, porque... - vacilei, reduzindo a voz a um mísero murmúrio, pensando em meus meninos. Pensando no que poderia estar reservado para o resto de minha vida, que, naquele instante, tornou-se insignificante mediante o estado alarmante das emoções responsáveis por remover qualquer resquício de bom senso. Meus dedos frios seguraram com firmeza um dos pingentes da pulseira solitária em meu pulso, o presente que Joseph trouxe quando retornou de sua longa viagem, como se eu buscasse apoio em um objeto. Segurei-me incessantemente para barrar outra remessa de lágrimas, preparando minha garganta, sentindo-a arder antes mesmo de sofrer com tal esforço. - Porque ele não pode! - bradei a todo pulmões, não sendo capaz de calcular meu próprio tom de voz, nem tentar diminuí-lo. Não me importava. - Eu não permito que ele faça isso comigo!
Dito isso, corri o mais rápido que pude, adentrando uma das portas do extenso corredor. Fechei-a de forma brusca, trancando-me ali dentro. Ofegante ao ponto de precisar levar a mão até meu peito inquieto e apoiar a outra sobre a porta, inclinei-me e tentei respirar sem tanta dificuldade. Choquei minhas costas contra o material resistente, tendo a visão embaçada do lugar onde pude compartilhar tantas alegrias com meu marido. O lugar demarcado com indícios dos diversos ímpetos de paixão permanecia escuro, intocado. Sem vontade de continuar presa naquela injusta realidade, senti meu peso deslizar pela porta, escorregando por sua extensão até que caí sentada sobre o chão. Encolhi minhas pernas e abracei meu tronco, fechando os olhos firmemente antes de me afundar em outra onda de depressão. O som de meu choro contínuo e intenso era o único distinguível pela penumbra. Eu não conseguia me mover, não conseguia pensar com clareza, existia apenas um ponto iluminado em minha mente, ponto que ressaltava o conjunto de sensações que tomaram conta de mim durante os dias felizes que tive a chance de compartilhar com aquele homem. O que diferenciava meu corpo de outro desprovido de vida, era apenas a respiração que fazia meu peito subir e descer. A dolorida respiração. Como se presa em um estado de coma, eu sabia que continuava ali, ainda consciente, mas não conseguia fazer nada a respeito. O chão frio não me motivava a deixá-lo. A parcial escuridão aliviava um pouco minha vista cansada. Ignorava as batidas constantes na porta em conjunto com as vozes alarmadas de minhas amigas, vindas do lado de fora. Por um frágil, repulsivo e fugaz instante, desejei a morte.
Então eu esperei. Esperei pelo momento que seria expulsa daquele universo irreal. Aquele não podia ser o meu mundo. Porque não existia mundo para mim se Joseph não fizesse parte dele.

Os pontos de luz da cidade e os pingos de chuva grudados no vidro do carro pareciam tão interessantes naquele período da noite.
Talvez porque eles me distanciavam da realidade. Eu não queria desviar meus olhos deles, pois sabia que teria de me deparar com um possível início do fim de algo que sempre pareceu tão perpétuo. Naquele instante, todo o conceito de que o amor supera as barreiras entre a vida e a morte pareceu transformar-se apenas em uma mera inutilidade inventada por alguém que nunca sofreu com a perda. Se de fato funcionava assim, então eu me conformaria em ser uma completa ignorante descrente, me conformaria em desobedecer toda a ordem de uma crença. Não fazia sentido, simplesmente não fazia. Passamos por tanto para conquistar um destino miserável como aquele? A parte racional de mim sabia que existia a possibilidade de estar de frente com um fato verídico, mas ser irracional era bem mais seguro. Assim como o branco não consegue sobrepor totalmente o preto, funcionava a batalha em meu interior. Meu coração dolorido implorava por algum lampejo de esperança, todavia, minha mente distorcia qualquer filete de positividade que pudesse aliviar a tensão de meus músculos imóveis, esperando até a hora em que precisariam batalhar para me manter de pé, até as últimas consequências. Meus filhos estavam em casa, adormecidos, sem consciência do que acontecia do lado de fora de nossa casa. Sem consciência de que talvez nunca mais fosse possível ver o pai. 
A porta ao meu lado sorrateiramente se abriu, revelando uma Jennifer apreensiva, incapacitada de dizer algo, provavelmente sabia que não adiantava de nada. Cassie parou ao seu lado e ambas me auxiliaram a sair do carro, oferecendo-me um guarda-chuva para que, além de estarrecida, eu não viesse a ficar encharcada também. Parei antes que pensasse em dar mais um passo, fixando meus pés sobre o concreto molhado. Dotada de uma coragem mísera, elevei meu rosto para fitar o pequeno prédio a minha frente. Pensei em desistir, em sair correndo dali, voltar para a minha casa e firmar a certeza de que ainda seria capaz de acordar. Senti uma mão amiga espalmar minhas costas. Amparando-me de forma silenciosa, Cassie aproximou-se da alta porta dupla em vidro, puxando-a para conseguir abri-la. Voltei a recuar, olhando entristecida para Jennifer, que apenas balançava sua cabeça de forma afirmativa, encorajando-me a enfrentar o inevitável. Pude reparar que as duas se mostravam determinadas a entrar comigo, e eu não poderia permitir isso de forma alguma. Neguei insistentemente, tentando me desvencilhar delas, abrindo mão do guarda-chuva, sentindo as gotas aos poucos tomarem conta de mim.
- Pare de ser teimosa! Nós vamos com você. - Cassie exigiu, ignorando o fato de que ainda mantinha a porta aberta.
- Não, ninguém mais precisa ver isso. - garanti com a voz embargada, encarando o vasto corredor revelado graças a fresta a minha frente.
- Já estamos aqui, não estamos? Tente entender que você não está sozinha. Sei que não sou uma das suas melhores amigas e que mal nos conhecemos, mas agora é tarde demais para pedir que eu me afaste. E independente do que você encontre lá dentro, lembre-se de que há pessoas que não vão deixar seu mundo ruir. Não para sempre. - foi a vez de Jennifer tentar me convencer, sem sucesso. Nada do que diziam parecia fazer diferença. Entrava por um ouvido e saia pelo outro. Eu estava ocupada demais tentando decifrar a guerra de sussurros dentro de minha cabeça. 
- Eu sei como está se sentindo, acredite. Deus, e como sei! Mas será diferente com você, porque não é o corpo dele lá dentro. Não é, Demetria. Pense dessa forma, entre lá com esse pensamento. - Cassie segurou de forma precisa minhas duas mãos, olhando firme em meus olhos encharcados. - Não é o corpo dele lá dentro. 
- Se pensar positivo resolvesse alguma coisa, ele estaria comigo agora. - expressei friamente, deixando-a desistente, incapaz de me direcionar qualquer outro conselho. Como se eu quisesse me sentir daquela forma, como se agisse feito uma adolescente deslocada e imatura por espontânea vontade. Elas não estendiam o crescente pavor asfixiante acumulado dentro de mim. Até mesmo Cassie, vítima da perda de Jared, não seria capaz de compreender. Porque nem eu era. - Se eu perdê-lo, estarei perdendo o pai dos meus filhos, meu melhor amigo e o amor da minha vida. Tudo isso de uma só vez. Você consegue superar uma perda, eventualmente, mas não três. - despejei com pesar, eliminando as palavras de minha boca lentamente, os olhos ainda perdidos em algo dentro do prédio. - Não poderei conviver com o fato de que o coração dele deixou de bater para sempre. 
(Coloque a segunda música para tocar!)
Quando voltei a adquirir percepção do mundo ao redor, já estava dando passos vagarosos pelo interior do local. 
Sozinha. 
O que eu faria se ele estivesse morto? O que eu faria? Não poderia lidar com isso, não poderia jamais viver em um mundo em que ele não estivesse presente. Não poderia. Não aguentava mais suportar toda a fraqueza eminente que sentia penetrar meus ossos. 
A sensação de sentir falta de um toque como sentiria do indispensável ato de respirar mesclava-se com o frio psicológico percorrendo abundantemente meu frágil corpo em movimento. Eu nunca tinha me permitido pensar na possibilidade de ser forçada a viver sem Joseph. Ele me conhecia tão bem que, naquele segundo, longe dele, era como se eu desconhecesse detalhes de mim mesma. Detalhes que só ele captava e admirava, fazendo de mim uma pessoa melhor a cada novo dia. Pensei em nossas conversas, nos momentos em que falar não era necessário para que um entendesse as necessidades do outro, completasse a existência do outro. Novas remessas de pavor vinham em ondas constantes, quebrando-se de encontro a muralha que meu coração tentava erguer para não ser tão castigado com divagações mórbidas. Um eco de memórias infindáveis ressoando através dos quatro cantos que me abrigavam, mesmo que funcionasse apenas dentro de minha cabeça confusa. Enquanto o céu parecia cair sobre mim, o chão parecia se abrir. Eu estava por um fio.

Flashback

Nossos passos desleixados pelo cascalho que mesclava entre várias cores escuras cessaram e ele parou bem ao centro da praia, erguendo seu rosto para olhar além das pequenas montanhas ali presentes. Após respirar fundo e soltar um risinho por algo desconhecido de minha parte, continuou a andar. Estávamos a alguns passos de distância, e ele parecia andar a minha frente apenas para que pudesse me proteger do que viria pela frente. Ao alcançá-lo, descansei minha cabeça em seu ombro e permanecemos parados, encarando o mar. 
- Qual de nós dois você acha que vai partir primeiro? - um calafrio me fez desgrudar o corpo do seu e dar um passo para o lado, olhando espantada para seu rosto, mas Joseph nada fazia a não ser continuar a olhar de forma tão serena para a água. Como podia considerar aquela pergunta algo comum? 
- Não quero falar sobre isso. - admiti, aborrecida com ele. Por que trazer à tona um assunto tão mórbido quando poderíamos celebrar o fato de estarmos vivos e sozinhos em um lugar tão encantador? 
Tentando me afastar, senti sua mão segurar a minha e puxá-la para frente, amolecendo meu corpo e quase o fazendo cair em seus braços. Vulnerável. 
- Responda. - era uma intimação. Ele me atormentaria com aquilo até que eu respondesse. 
- Os dois, juntos, ao mesmo tempo. - olhei fundo em seus olhos, sorrindo sem mostrar os dentes. 
Insatisfeito com a resposta rápida e objetiva, tratou de demonstrar sua sede por mais. 
- Por quê? Não será dor demais para quem continuar vivo? 
- Os dois deitados em uma cama, de cabelos brancos. Os dois fecham os olhos. Os dois partem. Juntos! - concluí, segurando meu lábio inferior com os dentes e sentindo meu estômago agitar-se só com a mera ideia de que nada dura para sempre. E que um dia algo nos separaria. Algo inabalável como a morte. 
- Bela resposta, Demi. Espero estar de cabelos brancos mesmo. 

Fim do flashback

Ele não podia estar falando sério naquele dia, não era justo. Confesso que aquelas palavras encobertas por um brando tom de irrealidade me assustaram imensamente, mas nunca deixei queJoseph soubesse disso. Falar sobre a morte com alguém que você ama não é nem de longe algo saudável. 
Você não pode fazer isso comigo, meu amor, você não pode ir primeiro, não tão rápido. Você não pode! Não é justo fazer com que eu te ame mais do que qualquer outra coisa no mundo, mas não me ensinar a como resistir e lutar sem você. Não me deixe, eu te imploro. Joseph...
Deparei-me com outro corredor, esse tendo uma branca e dupla porta como destino final. 
Um corredor que separava a alegria da tragédia. 
O cheiro forte de formol incomodava minhas narinas ao extremo. Era como andar sobre uma corda bamba, tendo a abismo como consequência da queda. Continuei o percurso, silenciosa e imperceptível como um fantasma, sendo conduzida por um homem robusto que em silêncio caminhava a minha frente. Torci mentalmente para que os céus ouvissem minhas preces, que tivessem um pouco de misericórdia, que me entregassem Joe a salvo, vivo.
Como produto de minha imaginação, todos os momentos felizes que partilhamos revestiam as paredes pintadas em um tom apagado e entristecido de azul, como um filme em câmera lenta. 
Nosso namoro a cada dia alimentado com uma nova e generosa dose de cumplicidade, a troca de alianças, a adoção de Jamie, o nascimento de Matthew, a descoberta de minha segunda gravidez, as viagens que fizemos, os momentos simples que nenhuma grandiosidade presente no mundo inteiro conseguiria se igualar, nossas conversas. Seu sorriso, sua risada, seus lindos olhos verdes, suas palavras capazes de tirar o meu fôlego... 
Se aquela sala - tão perto e ao mesmo tempo protegida por uma distância surreal interminável - abrigava o corpo frio e vazio do amor de minha vida, então tudo estaria acabado. Eu nunca mais sentiria o paraíso ao estar em seus braços, nunca mais sentiria seu coração bater junto ao meu, o toque de seus lábios, uma fortaleza se formando ao meu redor quando suas palavras sempre tão estimulantes e gentis levavam minhas incertezas embora. A doçura intensa e arrebatadora do seu amor. Nunca mais viveria da forma que ele me ensinou a viver. Resistiria, sim, por meus filhos, família e amigos, mas não poderia mais ser quem costumava ser. Demetria Jonas, aquela que esperava o melhor do mundo... Desistiria de esperar qualquer coisa. 
Vamos, Demetria, onde está sua força?
Força? 
Foi então que percebi ser uma completa fraca. Minhas forças vinham dele, única e exclusivamente dele. Uma vez que Joseph abrisse mão de suas forças, as minhas se perderiam pelas encruzilhadas escuras do medo. A mulher tão forte que Joseph sempre alegou ter por perto, estava ali, estilhaçada com a mera possibilidade de nunca mais ver o rosto que traria esperança e conforto o suficiente até para suportar um impiedoso inferno. 
Inevitavelmente, fui forçada e cessar meus passos. O homem ainda mudo abriu sorrateiramente a porta e me lançou um olhar frio, mas ainda assim carregado por algo que julguei ser pena. A típica pena tão constante nas íris daqueles se que dirigiam a mim nos últimos dias. Senti um vento gélido, sem conseguir identificá-lo. Não sabia se era ilusão ou se de fato a temperatura do ar caiu naquela região. Meu coração disparou a bater como asas de uma amedrontada borboleta pronta para fugir em busca de segurança. Então, aos poucos, toda a extensão do ambiente ficou exposta. Não havia muito ali a não ser um grande armário, uma mesa de madeira com alguns papéis e uma única maca ao centro, onde o relevo pertencente a um corpo humano se encontrava, encoberto por um tecido branco. Engoli em seco, recebendo uma única orientação para entrar. 
Com o passar do tempo, a cada novo esforço de minhas pernas para me deixar próxima o suficiente da maca, eu conversava mentalmente com Joe. Apesar de saber que, mesmo se estivesse vivo, ele não me ouviria. Não importava, era o que me acalmava minimamente. 
Joe, você se lembra de quando levamos nosso Matthew a praia pela primeira vez? Lembra de como ele chorou ao fixar os olhinhos no oceano pela primeira vez? Pois é, a princípio ele revelou sentir medo de toda aquela imensidão. Então, você sorriu para ele, aquele sorriso tão seguro e corajoso, e o tirou do meu colo, levando-o para mais perto da água. Olhou para trás, me convidando silenciosamente para ficar ao lado dos dois. A imagem era tão linda que não resisti e corri, atendendo seu pedido. Você respirou fundo e, quando nosso bebê já demonstrava estar mais habituado com a paisagem, segurou minha mão com a sua livre. Você olhou fundo em meus olhos e disse que, assim como Matthew, também tinha medo da imensidão. Te questionei com o olhar, um pouco confusa, porque sabia que você adorava o oceano. Você revelou que a imensidão que se referia não era a do oceano, mas aquela que um dia poderia se estender entre nós. Lembro claramente de ter rido, pois eu sabia que era impossível. Aproximei meu rosto do seu e selei nossos lábios docemente, reforçando a promessa de que imensidão alguma jamais poderia nos separar.
Suspirei ao lançar um olhar para o teto, apenas tentando conter lágrimas insistentes. Por um instante, desejei que elas embaçassem minha visão ao ponto de eu não conseguir enxergar o que permanecia abaixo dela. Esperei durante tantos dias para estar diante de meu marido... Mas não poderia ser daquela forma. Não. 
Eu não queria reescrever minha história. Não queria manter e conviver com a lembrança dele preservada apenas com base em fotografias. Momentos que nunca mais teria de volta. 
Notando a repentina e sufocante densidade do local, lancei um olhar afirmativo ao homem, que veio para mais perto e começou a puxar, a partir da cabeça, a proteção que mantinha o corpo protegido da luz, eliminando-a até deixar a região do tronco totalmente exposta. 
Talvez um dia eu seja capaz de explicar o sentimento que me abateu naquele momento.
Após se arregalarem, meus olhos inundaram, lágrimas começaram a ser expulsas de ambos com uma velocidade pavorosa. Meu corpo inteiro ficou preso em uma tremedeira constante, enquanto eu não sabia como fazer para me livrar do que era forçada a enxergar. Levei a mão trêmula até a boca, constatando a ardência quase insuportável na região central de minha face, proveniente do choro. Fui tomada por um asco potente o suficiente para fazer meu estômago revirar-se. O odor ligeiramente desagradável, as condições mortificantes. Uma imagem atormentadora. Ouvindo meu choro ganhar cada vez mais intensidade e volume, deixando o responsável por aquele processo angustiado, lancei meu corpo para trás, controlando os soluços estrangulados que tentavam travar a passagem de minha garganta. Com as mãos cerradas em punho, continuei a recuar. Movida por uma tontura implacável, senti o chão ficar mais próximo, atingindo-o em um baque, forçando-me com as mãos e pés par me distanciar mais, arrastando-me e encontrando uma parede no canto frio para me apoiar, velada pela morte. Encolhi as pernas, deixando-as junto ao meu corpo. Não tinha coragem de levantar, não queria erguer meu olhar e voltar a me deparar com uma imagem tão cruel. O homem deu passos apressados em minha direção e voltou a cobrir o corpo, abaixando-se diante de mim, perguntando se eu precisava de ajuda. Neguei com a cabeça, debatendo internamente se conseguiria cessar aquele choro tão desenfreado algum dia. Não me lembrava de já ter chorado daquela maneira antes. Apesar de tudo, o alívio se fez presente. 
Movida por uma força desconhecida, vi-me de pé, obrigando minhas pernas enfraquecidas a me tirarem dali o mais rápido possível. Corri mesmo sabendo que poderia sofrer uma queda quando meu corpo ordenasse “basta!”, corri mesmo sabendo que não era certo. Corri para o mais longe que pude porque nunca deveria ter ousado pisar naquele local. 
Não era meu Joseph, aquele corpo pertencia a um desconhecido. Joe ainda estava por ai, vivo. Seu coração batendo, seus olhos brilhando, sua vida intacta. Não estava feliz com a morte daquele homem, alguém que certamente possuía família e amigos, mas feliz porque fui presenteada com uma nova chance para acreditar na possível beleza do amanhã. Insensato seria se eu não vibrasse com essa descoberta. 
Em meio a correria e lágrimas, eu sorri minimamente. Ali, sozinha, sem certeza de nada, apenas sorri. 
Sim, alguém ouviu minhas preces.
Por fim, avistei Cassie e Jennifer paradas a alguns metros de distância. As duas levantaram-se quando me viram, caminhando rápido em minha direção até que ficamos frente a frente. Elas não perguntaram nada, o sorriso ainda fixo em meu rosto eliminou qualquer dúvida. Sem pensar, atirei-me em seus braços, tendo o abraço correspondido por ambas. 
- Não é ele... - sussurrei mais para mim mesma do que para elas. - Não é ele! - precisei repetir - dessa vez com a voz finalmente estável - para assimilar o fato de uma vez. - Me tirem daqui, por favor. - tendo meu pedido atendido, caminhei decidida até a porta, sem olhar para trás.


Na manhã seguinte, foi o rosto de Charlotte que vi quando procurei pelo dono dos passos apressados em direção ao cômodo em que eu estava. Perdida nas contas de quantas visitas já havia recebido desde o fatídico dia, sorri fracamente para ela, assistindo-a dar meia voltar e abrir a porta para prender Max, seu cão, do lado de fora. Observei a cena, levemente angustiada pela semelhança entre ela e Joseph. 
- Deixe-o entrar, está frio lá fora. - aconselhei, recebendo um aceno de cabeça em concordância. 
- Então não reclame se ele rasgar algumas almofadas. - ela avisou de forma descontraída, aproximando-se para me dar um curto abraço. Correspondi, me ajeitando sobre o sofá para que ela pudesse sentar-se ao meu lado. Continuava ali, não conseguia evitar. Principalmente após lidar com uma interminável noite em claro depois do que tinha presenciado horas antes. 
Logo, Max estava solto, vindo agitado em minha direção, como se sentisse minha tristeza. Sim, até um cão demonstrava preocupação comigo. Ele parou a minha frente, me analisando com seus olhos brilhantes. 
- Oi, amigo! - acariciei por entre suas orelhas, notando que o carinho fora apreciado. Depois, após fazer uma busca ao redor, como se quisesse me proteger do que poderia estar por perto, abaixou-se e deitou a cabeça sobre as patas dianteiras, chorando baixinho. 
Charlotte prontamente perguntou a quantas andavam as investigações. Suspirei antes de lhe contar todo o ocorrido na noite anterior, não conseguindo lidar com as lágrimas durante o processo. Ela se dispôs a ouvir, me dizendo para melhorar aquele semblante e colocar um sorriso em meu rosto, porque logo Joseph estaria ali, me presenteando com um abraço recompensador. Mas que garantia eu tinha?
- Tem que existir algo, alguém... Qualquer coisa que nos leve até ele. - concluiu Charlotte, depois de alguns minutos em uma conversa regava a teorias e hipóteses. Bom, era falava, eu apenas escutava.
- Se eu soubesse, estaria contornando os quatro cantos do mundo para encontrá-lo. Acredite em mim. Mas essa impotência, essa cegueira diante da minha própria vida é tão... - antes de finalizar a frase, houve um breve momento de reflexão. Encarei um ponto fixo da sala e deixei que uma súbita memória ganhasse mais intensidade, mais forma em minha mente. Os detalhes consistiam em palavras ouvidas durante uma conversa entre Joseph e seu avô, David. Eu não tinha prestado muita atenção, porque ouvia também o que as mulheres próximas falavam. David alertava Joseph sobre algo que não ousou revelar com detalhes. Na época, não fiz questão de investigar, pensava se tratar de apenas um conselho prestativo de um avô para um neto. Mas não se tratava apenas dissoDavid sabia de algo.
Eu precisava visitar Greenwich o mais rápido possível.

(Coloque a terceira música para tocar!)
Precisei adentrar meu quarto, por mais que ainda quisesse continuar a evitá-lo. Afinal, todos os meus pertences permaneciam ali dentro. Não era mais possível fugir. Encarreguei-me de garantir que mamãe ficaria com os meninos durante o decorrer do dia. Assim que Charlotte foi embora, comecei a planejar minha ida a Greenwich. Não esperaria o dia seguinte, tinha de chegar lá nas próximas horas. Não me preocupei em avisar a família Montgomery que receberiam minha visita, seria uma surpresa. Não totalmente boa, visto a informação que eu levaria para compartilhar - se é que eles já não tinham conhecimento -, mas senti que conseguiria novas pistas. 
Dentro daquele quarto, tudo ao meu redor pareceu estranho. Como se eu jamais tivesse estado ali antes. Houve outro eco de memórias, uma sequência de cenas nos mais variados tons de intensidade, todas juntas, entre aquelas quatro paredes. Foi inevitável dar de cara com o reflexo do espelho posicionado em uma das laterais da cama, de onde pude avistar resquícios de quem costumava ser. Eu sentia falta da Demetria, a verdadeira Demetria. Meu rosto era o mesmo, meu corpo era o mesmo, minhas palavras poderiam ser as mesmas também, mas a mudança acontecera em meu interior. 
Após trocar de roupa e arrumar meus cabelos - que permaneciam presos -, encarei o intocado notebook de Joseph repousando sobre a escrivaninha, pegando-o com cuidado, abrindo-o com receio. Após ligá-lo e permanecer vasculhando qualquer coisa, ponderei se era apropriado continuar. Quando pensei em fechá-lo e parar de me torturar, encontrei um vídeo. Cliquei para vê-lo, esperando sem paciência até que a imagem ganhou movimento. Joseph tentou ajeitar a imagem da câmera e olhou para trás, revelando uma vista linda, porém indecifrável naquele instante, durante uma de suas viagens de negócios. Após sorrir e olhar para os lados, como se pensasse sobre o que falar, ele abriu os lábios sorrateiramente e deixou que eu ouvisse sua voz:
Aqui é muito bonito, mas ficaria ainda melhor com a sua presença. Eu queria tanto que você estivesse aqui... Não sei ficar longe de você, Demi.” 
Dito isso, ele permaneceu em silêncio por algum tempo, não sabendo como continuar. Ouvir sua voz reativou aquele frio em meu estômago, tão característico quando eu o tinha perto o bastante para não deixá-lo escapar, deixando sua voz rouca soar ao pé de meu ouvido.
- E você acha que eu sei ficar longe de você? - falei com a tela, sentindo-me tola. - Olhe para mim, veja no que me transformei. - contemplando sua imagem pausada, senti um soluço preso em minha garganta. - Volte para mim, Joe. - pedi em um sussurro triste, erguendo meus dedos para alcançar a tela, promovendo um sutil toque. A saudade era tanta que eu acreditava fielmente conseguir sentir ele mais próximo apenas tocando sua imagem. Inútil, eu sei. Mas, eu garanto, ações irracionais estão sempre ligadas de forma estratégica àquele sentimento denominado amor. 
Uma troca de olhares.
Um sorriso.
Um toque.
Um abraço.
Um beijo.
Desejos que fazia todas as noites, olhando para as estrelas. 
Ao avistar uma pasta com diversas fotos, desisti do notebook. Meu estado só viria a piorar se eu continuasse a olhar fotos. Fotos aquecem o peito quando são de pessoas que você sabe que pode ter por perto quando quiser, ou telefonar para elas, simplesmente ouvir sua voz. Quando você sabe onde estão, mesmo longe demais. 
Sem pensar, larguei meu peso sobre a cama arrumada, ficando deitada ao centro, fechando os olhos e deixando meu olfato deliciar-se com a mistura de aromas. Seu cheiro tão característico envolvendo meu corpo lenta e completamente. Era tão fácil esquecer o mundo ao redor, o que não era ilusão, e fingir que ele estava ali, deitado ao meu lado. Bom, funcionaria enquanto eu não ousasse virar meu rosto, voltando a me deparar com o lado vazio da cama. 
O toque estridente de meu celular rompeu o casulo revestido com cenas utópicas, onde escolhi me isolar. 
Levantei-me para pegar o aparelho, sentindo tudo ao redor entrar em segundo plano. Até mesmo minha respiração. De fato, eu não sabia se respirava enquanto fitava embasbacada a sequência de números mostrada no visor. 
Era o número de Joseph.

Alguns minutos antes...

Joseph's P.O.V

(Coloque a quarta música para tocar!)
Um soldado ferido, instalado no centro da guerra. Sem armadura, sem munição, sem esconderijo. Carregando apenas esperança consigo.
Aquele corredor escuro não era um campo de batalha, mas certamente poderia ser comparado a um. Pelo menos eu me sentia como se pudesse ser atingido pelo inimigo a qualquer instante. 
Pensei que não viveria o suficiente para ver o amanhecer daquele dia. Quando Joseph me jogou em plena chuva, algum tempo depois, após meu pai já ter desaparecido, outra pessoa veio ao lugar onde eu permanecia imóvel, apenas tentando aliviar um pouco minha dor. Era um dos responsáveis por me manter preso naquele prédio. O homem portava uma faca, objeto que fez questão de apontar para a região do meu pescoço quando tentei me mover. Ele nada dizia enquanto, na velocidade da luz, livrava meus braços e pés daquela prisão. Lembro-me de ter lhe lançado um olhar duvidoso, questionando sua iniciativa. O indivíduo apenas negou com a cabeça e disse de forma quase inaudível que meu pai tinha deixado o local por algumas horas, dando tempo o suficiente para que eu tentasse escapar. De fato, eu acreditei nele. Pude, enfim, ter os braços e pernas livres, a princípio estranhando-os, sentindo o sangue voltar a correr desimpedido pelas extremidades. Mas eu continuava fraco, sem conseguir me manter de pé por muito tempo, logo sendo tomado por uma implacável tontura. O homem, mais uma vez, ofereceu-se para me ajudar. Passou um braço pelo meu ombro e tentou me levar para dentro do prédio, pedindo que eu aguardasse dentro do cativeiro enquanto ele ia buscar água e algo que eu pudesse comer, pois sem isso não teria forças para fugir. É claro que, eventualmente, pensei se tratar de uma armadilha. Mas não era tolo para recusar aquela ajuda. Correr e usar meus punhos passou a ser possível, eu conseguiria me defender caso precisasse. 
Depois que aceitei de bom grado a mão amiga que o sujeito ofereceu, foi apenas questão de tempo até que eu sentisse o cansaço evidente, tendo de continuar deitado ali, cedendo a sonolência. Já alimentado e com a garganta não mais seca, eu acabei pegando no sono. Acordei quando o sol já se amostrava, uma fresta de luz incomodou minha visão quando tentei abrir os olhos, totalmente lúcido. O homem que me ajudou não estava mais ali. Porém, a porta do cativeiro permanecera aberta. Voltei a duvidar, levantando com cautela, já sentindo maior resistência em meu corpo. Conseguir caminhar perfeitamente bem já era um grande progresso. Olhei ao redor, encontrando a garrafa de whisky deixada ali por Joseph na noite anterior, fitando-a mais tempo do que o recomendado. Não era o certo a fazer, mas talvez fosse a única maneira viável de sair dali. Eu não queria me abaixar e pegá-la, mas o fiz. 
Retornei a órbita, constatando que continuava estagnado naquele corredor, segurando com precisão a garrafa de whisky. Eu não sabia dizer onde me localizava, mas se tivesse que arriscar, diria estar dentro de um enorme prédio abandonado. Deixando o corredor de portas, entrei em outro. Esse contava com sinais claros do que um dia foram elevadores, mas apenas o contorno e o espaço vago possibilitando a visão de um abismo continuavam presentes ali. Não havia iluminação por meia de lâmpadas, apenas o sol se esforçava para manter tudo visível. O silêncio me obrigava a virar o rosto em diversas direções de forma repetitiva, vasculhando pelo perigo possivelmente escondido, pronto para atacar de qualquer canto. Já me enxergava livre, já era quase capaz de enxergar Demetria a minha frente. Sentir o cheiro de Demetria, correndo para os meus braços.
Mas não foi isso que aconteceu. 
Cessei meus passos e recuei dois deles, escondendo-me atrás de uma das paredes ao ouvir o som de uma conversa baixa. Encarei o ponto, voltando a caminhar para chegar mais perto. Uma porta entreaberta revelava um homem desconhecido falando ao celular. Sobre a mesa, único móvel do cômodo, outro celular. Era o meu. 
Após me perguntar onde Joseph estaria, não pensei duas vezes antes de adentrar o local com passos vertiginosos, atingindo em cheio a garrafa no crânio daquele que continuava de costas para mim. Sentindo o whisky jorrar para todos os lados, inclusive em meu rosto, abaixei-me por impulso e esperei até que o corpo do homem caísse inconsciente ao meu lado. Ofegante, voltei a ficar de pé e retirei meu celular da mesa. Após verificar e perceber que ainda tinha um pouco de bateria, saí rápido dali, a fim de procurar um lugar seguro para fazer uma ligação. Ligaria para Demi e diria que tudo estava bem. 
Contei os segundos para me livrar daquele inferno, apegado a ideia de que logo veria minha família. Encontrei, depois de algum tempo de busca, uma sala completamente abandonada e escura. Verifiquei se de fato era o único habitante da mesma, indo até o canto, deixando meu corpo cair sentado, escorado na parede. Meus dedos trêmulos digitaram um número, então levei o aparelho até meu ouvido, não sendo capaz de conter um sorriso aliviado. 
Ela atendeu. 
Joe? Joe, é você? - Demetria pediu, e era fácil notar a mistura de surpresa com desespero em sua voz. Eu teria respondido, tentado acalmá-la, mas havia um par de olhos opressores grudados em qualquer movimento meu, alertando com um gesto de mão que eu não deveria dizer nada. - Pelo amor de Deus, diga alguma coisa! Isso é algum tipo de brincadeira? Quem é? O que você fez com o meu marido? Por favor, me responda! - Demi continuava a falar, e eu sabia que já chorava. Mas nada podia fazer a não ser ouvir. Apesar disso, o som da voz dela me acalmou. Se meu fim estava próximo, pelo menos fui presenteado com sua voz uma última vez. 
Joseph adentrou a sala, sorrindo de forma indecifrável. Demetria não ousava encerrar a chamada e, quando Joseph percebeu, pediu que eu firmasse a mão sobre a parte inferior do aparelho para que ela não pudesse ouvir o que ele pretendia dizer. Não sei por que, mas segui sua ordem. Tinha medo de nunca mais ver minha esposa novamente se o contrariasse. Esperava qualquer coisa dele. Até mesmo covardia a ponto de matar o próprio filho.
- Pensei que seria mais ágil. Pensei que já estivesse bem longe. - explicou desapontado, fazendo menção a minha liberdade. Eu sabia. Era parte de algum dos seus malditos planos. Eu só estava solto porque ele queria que eu estivesse. - Eu queria ver do que você seria capaz. Até onde iria para sair daqui... Bom, vejo que continua me causando prejuízos com garrafas de whisky. - ele se referia ao pequeno acidente em outra sala, onde um homem atingido por mim continuava desacordado. Joseph mantinha o tom de sua voz concentrado em um silvo, provavelmente para Demetria não ouvi-lo. Eu nem sequer sabia se ela continuava na linha. - Ligou para a Demetria, estou certo? - não respondi. Não era necessário. - Quer falar com ela? Pois então fale, garoto! - firmei meus olhos nos seus, tentando descobrir se ele falava a verdade. - Diga que está bem, porém muito longe. Depois peça para que ela pare de te procurar. - tudo que me permiti fazer foi rir. 
Ou? - desafiei, erguendo as sobrancelhas. Sem responder, Joseph veio em minha direção e lutou comigo, determinado a retirar o celular de minha mão. Naquele momento, eu soube queDemetria pôde ouvir o que se passava. Mas era tarde demais, afinal, o celular fora lançado contra o ar, atingindo em cheio a parede ao lado, estilhaçando-se até atingir o chão. - Você não vai vencer, Joseph. - alertei, ofegante pela luta. 
- Prefere não falar nada ao invés de feri-la. Interessante. - cruzando os braços, ele encostou-se à parede. - Porém, estúpido. Vai continuar resistindo e não colaborando? Vai continuar preso aqui só porque tem medo de dizer meras palavras a uma mulher? Meu filho vai morrer por uma mulher?
- EU NÃO SOU SEU FILHO! - bradei, calando-o. Minha mão agilmente socou a parede próxima, então apoiei minha testa nela, fechando os olhos e respirando fundo. Meu pulso latejou, assim como toda a extensão de meu braço. Mas eu não me importava com a dor, ela era o de menos. Não era como se eu nunca tivesse a sentido. - E não vou fazer o que você quer. Não fiz no passado, tampouco farei agora. Estou fraco, cansado e com dor... - apenas virei o rosto, voltando a encará-lo. - Mas vivo o suficiente para deixar que meu desprezo por você ganhe cada vez mais força. 
Meu pai me lançava um olhar analítico.
- Você ama mesmo essa mulher. - deduziu por si só, disparando a rir quando ganhou apenas meu silêncio. Sim, era inútil falar o que ele não daria um pedaço de lixo para ouvir, mas em todas as vezes em que consegui esfregar as alegrias de minha vida em sua cara, senti como se isso me fortalecesse. Vê-lo ruir me fortalecia. 
- Já pensei não ser o suficiente para ela, não ser o homem que ela merece ter ao seu lado. Muitas vezes. Mas, então, eu percebi que ela me ama da mesma forma e com a mesma proporção que eu a amo. Ou mais. Se é que isso é possível. - sorri, mas não para Joseph. - Você sabe. Você simplesmente sabe quando encontra o primeiro e único amor da sua vida. Eu nunca tinha sentido isso por alguém, e sei que não vou sentir por mais ninguém. E nossos filhos... Eu sou capaz de qualquer coisa por eles, para ver o sorriso deles. - mais uma vez, disparei a falar como se reencontrasse um pai depois de muito tempo. Como se estivéssemos sentados em uma varanda, assistindo o tempo passar enquanto conversamos feito dois amigos, compartilhando histórias vividas. Era em momentos como aquele que outra remessa de lembranças de minha infância vinha sem pedir permissão. - Acha que estão sorrindo agora, Joseph? - e, mais uma vez, eu arruinava o reencontro entre pai e filho, transformando-o no de dois inimigos irremediáveis, adotando o olhar frio tão idêntico ao dele. 
Joseph intercalou seu olhar entre a porta e eu, erguendo uma de suas sobrancelhas quando pareceu constatar algo. Ignorando completamente o que eu havia dito anteriormente sobre como me sentia a respeito de Demetria. Eu sabia que não tinha um pai de verdade, estava acostumado com o fato de ele não ligava minha a minha felicidade, mas vez ou outra acabava arriscando acreditar que sim. Apesar dos pesares. 
- Percebeu que está diante de mim há vários minutos, livre, e ainda não tentou me atacar? Percebeu que a porta continua aberta e você ainda não tentou fugir? - só então, depositei atenção ao fato mencionado. Era verdade, a porta estava aberta, como um convite para que eu me retirasse o mais rápido possível. Entretanto, algo não me deixava fazer isso. Eu precisava continuar confrontando Joseph. 
- Por que está fazendo isso? Tudo isso? - voltei a perguntar, dessa vez torcendo para obter resposta. 
- Vai descobrir se continuar fazendo companhia ao seu pai. - ele se aproximou, depositando uma mão em meu ombro. Congelei, esperando a hora exata para acertar meu punho em sua face. - A propósito, não precisa se preocupar. Você está solto agora, pés e mãos livres. Mas precisa tomar uma decisão, filho. Vai sair por aquela porta ou vai procurar entender o motivo de eu estar fazendo você passar por esse inferno? Conseguiria ir para a casa e lidar com uma dúvida eterna? Chance única, Joseph... Antes que seu pai de fato se junte ao mundo dos mortos. 
A resposta era fácil, clara, rápida. Então por que não consegui pronunciá-la?

/Joseph's P.O.V


Greenwich

Era bom ter o vento brincando com meus cabelos, dirigir por ruas praticamente vazias enquanto minha imaginação voava para longe com a ajuda de uma música de efeito tranquilizante. 
Após estacionar o veículo, permaneci dentro dele por algum tempo, remoendo o estranho fato ocorrido poucas horas antes. A ligação com o número de Joseph, o som que julguei ser de sua voz alterada antes da não ser capaz de ouvir mais nada do outro lado da linha. 
Respirei fundo e decidi fazer o que pretendia, saindo do carro e observando a fachada tão bem cuidada da casa dos Montgomery. Como de costume, havia alguém do lado de fora, provavelmente sempre pronto para receber uma visita inesperada. Dessa vez, a pessoa em questão era Lacey, que hesitou um pouco antes de se aproximar, provavelmente sendo capaz de deduzir o que eu fazia ali. Era evidente que a informação do sequestro de Joseph chegara a Greenwich. 
Após nos cumprimentarmos apenas com acenos de cabeça, fui convidada a entrar. Pedi por Regina e David, recebendo a reposta de que ambos estavam na casa, porém muito tristes com o ocorrido. Lacey me contou que Regina, quando deprimida, passava o dia todo cozinhando. E, ao ser conduzida até a área onde a família fazia suas refeições, não era difícil de acreditar, visto a farta mesa tentando seduzir olhos e estômagos alheios. A casa, como sempre, cheia, crianças correndo por todos os lados. Típico quando os donos têm vários filhos e netos. Perguntei-me mentalmente se um dia teria a casa tão cheia daquela maneira. Sorri sozinha com a hipótese.
Balancei a cabeça para me livrar daqueles pensamentos quando, por fim, encontrei David, sentado em um banco no jardim dos fundos. Ele pareceu se assustar quando me viu, levantando-se para vir me cumprimentar apenas com um aperto de mãos. Lacey nos deixou e foi cuidar de seus filhos. A princípio, o silêncio prevaleceu. O semblante do avô de Joseph era deprimido, como se sentisse culpa. Suspirei e optei por ser objetiva, afinal, qualquer segundo seria crucial naquela busca por informações.
- Eu ouvi quando você alertou que Joseph tomasse cuidado com alguma coisa. - recebendo um olhar compassivo, eu revelei. Enxerguei o senhor ao meu lado limpar a garganta e depois encarar o horizonte, talvez debatendo consigo mesmo se falar o que sabia era a melhor opção. - O que sabe? - insisti, mesmo paciente.
- Não é o que eu sei, é o que eu acho vi. - ele disse em um murmúrio, não querendo que mais ninguém ouvisse. Olhou em meus olhos, depois para o chão. Pensou mais um pouco, até que soltou as palavras pausadamente: - Eu vi Joseph Jonas.
Franzi meu cenho, quase pedindo que ele repetisse a frase, com receio de ter escutado algo totalmente diferente do que ele havia dito de fato. David demonstrou sabedoria analisando minhas feições, provavelmente esperando aquela exata reação de minha parte. 
- Isso é impossível, ele está morto. - falei convicta, tentando preservar ociosa a região de minha mente em que qualquer pista faria sentido, qualquer loucura viria a se tornar uma firme realidade. - David... - chamei-o, aos poucos aflita com seu silêncio. - Você está falando sério?
- O que te faz pensar que falsificar uma certidão de óbito e simular um corpo dentro de um caixão é algo raro, especialmente quando se tem tanto dinheiro como ele tem? - o senhor lançou a pergunta, esperando pacientemente por uma resposta que não ousei pronunciar. Ao mesmo tempo em que não fazia sentido, passava a fazer. Ligando alguns fatos, sim, a morte de Joseph se tornou duvidosa. 
- Um pai não faria algo assim com o próprio filho, faria? - indaguei, criando uma controvérsia interna. De fato, não se espera que um pai traga trevas a vida de um filho, mas eu vivenciei uma experiência que provou que o contrário pode vir a acontecer. Meu pai trouxe trevas a minha vida. 
- Também se espera que um pai não trate o filho como um inimigo, porém... - ele uniu as sobrancelhas, rindo sem alegria. 
Sem saber o que fazer e como agir em seguida, mas percebendo que fora possível recolher uma valiosa informação, não tardei a me despedir da família Montgomery, voltando ao meu carro rapidamente. Antes de pensar em retornar para minha casa, outro destino me pareceu mais certo. Pelo menos naquela ocasião.

Saving Grace Children's Hospital

(Coloque a quinta música para tocar e deixa repetindo durante a sequência de cenas a seguir.)
Realmente pensei que demoraria mais tempo a reunir forças para voltar ao Saving Grace. Porém, lá estavam minhas próprias ações voltando a me surpreender. Caminhei calmamente até a recepção, perguntando por Philip. Uma das recepcionistas disse que ele estava em uma consulta, mas que logo teria tempo livre para mim. Após agradecer, decidi sair da parte interna do hospital e encontrei uma área mais aconchegante, sem todo aquele cheiro de limpeza misturado com o de tristeza. O prédio era adornado por uma praça bem cuidada em uma de suas laterais. Sentei-me em um dos bancos brancos e ali permaneci, fitando o nada. Pensei em Madeline. Será que já tivera a chance de enxergar algo? E William? Será que seu coração continuava a bater?
Entristecida ao lembrar da terrível condição do garotinho, obriguei meus pensamentos a se redirecionarem, buscando imagens mais saudáveis para analisar. Eu ainda não sabia como reagir mediante a revelação de David, toda aquela encruzilhada alcançava um novo patamar, tornando-se mais confusa a cada novo segundo. Se de fato Joseph era o responsável pelo desaparecimento de Joseph, então meu marido estava sofrendo. Ele não nutria bons sentimentos pelo pai, o tempo em que conviveu com o mesmo quase o arruinou para sempre. Foi como se eu conseguisse sentir sua própria dor em mim.
Demetria! - alguém promoveu a dissipação de minhas divagações, então ergui o rosto para averiguar de quem se tratava. Philip. 
- Oi. - respondi simplesmente, sem vontade de estender cumprimentos.
- Eu sabia que você voltaria, mas não imaginei que seria tão cedo. - confessou, ainda surpreso. Encarei sua vestimenta de cirurgião e voltei a pensar em Joe. Não seriam apenas os meus sonhos arruinados se ele nunca mais voltasse para a casa. Os seus também seriam. 
- Eu também não imaginava. Até que fui forçada a imaginar. 
Poupando detalhes que me incomodavam, lhe contei sobre a atual situação de minha vida. Tendo uma vida tão corrida e focada em seus pacientes, Philip demonstrou espanto quando ouviu tudo que eu disse. Ele não sabia nada sobre o desaparecimento. Acabei contando também sobre minha gravidez, o que pareceu deixá-lo feliz.
- Parabéns e... Eu sinto muito pela circunstância em que isso teve que acontecer. Não que exista circunstância certa para que o seu marido seja sequestrado, mas acho que você entendeu o que eu quis dizer. - explicou um pouco desajeitado, sentando-se ao meu lado no banco com a cabeça baixa. - encarei o horizonte, recordando uma das piores noites de minha existência. Ainda tão recente e tangível...
- Eles ligaram e pediram que eu comparecesse ao local para identificar um corpo. - fiz uma breve pausa para fechar os olhos e soltar o ar com calma. - Chegando lá, me levaram até esse corpo e ele estava tão... - não consegui terminar, sentindo meus olhos já marejados.
Diferente de nós, os vivos. - prontamente, Philip utilizou de um eufemismo para que eu não precisasse narrar com detalhes o que vi. Encarei-o agradecida, repousando as mãos sobre minha barriga. Pena que ainda era muito cedo, mas eu adoraria sentir meu bebê se mexendo, dando-me um pouco de alegria.
- Eu teria morrido ali mesmo se aquele fosse o meu marido. Não é o tipo de imagem que você consegue apagar com facilidade. - confessei desolada. 
- Eu sei. Ainda consigo me recordar do primeiro corpo em péssimo estado que vi durante a faculdade. - ele sabia que não era a mesma coisa, então logo demonstrou um significativo sinal de arrependimento. Dei de ombros, realmente não me importando. Sua intenção não fora piorar meu estado, eu sabia.
- Já sentiu como se não estivesse vivendo, apenas existindo? - perguntei de forma desatenta pouco tempo depois, absorta na imagem que tive de um céu acinzentado. Parecia tão impossível existir sol naquela época do ano, ele raramente dava o ar de sua graça. Philip juntou as duas mãos e pareceu pensar antes de me responder, visivelmente cansado, agradecido por estar tendo um breve descanso de seu dia tumultuado.
- Não tenho muito tempo para pensar nisso, mas considero algo completamente normal. Para viver, nós temos que sentir, mas nem sempre queremos sentir, certo? - concordei com um aceno, desejando mudar de assunto. E não tardei a fazer isso.
- A história que você mencionou na última vez em que estive aqui... É uma história boa? Feliz? - não precisei detalhar muito, ele logo percebeu do que eu falava. 
- Depende muito do ponto de vista. - advertiu, sério. - Mas eu acho que é, sim, uma boa história.
- Então me conte, porque é tudo que eu mais preciso ouvir agora. Algo bom. - o tom de minha voz provavelmente revelou minha necessidade em ouvir algo que não trouxesse aperto ao peito logo após sua menção. 
Demetria, eu estou trabalhando. - Philip disse um pouco sem jeito, dando a entender que não queria me contar nada. Olhei em sua direção e arqueei uma sobrancelha, descendo meu olhar para suas mãos livres. 
- Não vejo um bisturi em sua mão. E você é cirurgião, então, se estivesse trabalhando, precisaria de um agora. - concluí brilhantemente, ocasionando um leve riso ao homem, que meneou com a cabeça. - Vamos, conte a história! - demonstrei interesse, mas ele apenas continuou a rir. - Qual é a graça, Philip? - pedi, desaprovando suas ações tão desleixadas.
- A semelhança. - ele soltou, encerrando então seu riso. Não precisei sequer pensar para saber ao que ele se referia. - Ele costumava ser destemido e mandão também. Mas, ao mesmo tempo, era a pessoa mais altruísta e bondosa que pude conhecer. - quantas vezes eu teria de implorar as pessoas para que não me comparassem a um monstro? Era mesmo tão difícil de entender que eu já tinha problemas o suficiente para ter também que me remoer por alguém que, ao invés de utilizar seus braços para me abraçar, pensou em utilizá-los para promover minha dor?
- Por favor, não me compare a ele. Não faça isso. - fui tudo que pedi, em um silvo. 
- Por que não? Quentin foi um bom homem, não vejo motivos para se envergonhar. - tentei evitar, mas não pude desistir do olhar incrédulo que lancei na direção do médico, que continuava a me fitar como se a errada da história fosse eu. 
- Um bom homem? - desviei meu olhar para não rir de forma debochada. - Nós estamos falando da mesma pessoa? Tem certeza? - Philip lançou um olhar desafiar, como se esperasse que eu encontrasse uma resposta para a minha própria questão. Toda vez que mencionava meu pai, ele agia como se ocultasse algo. Gesto que, claramente, não passou despercebido a minha percepção.
- Ok, aqui vamos nós. - sem responder a pergunta anterior, o homem levantou-se e sugeriu com um olhar que eu fizesse o mesmo. Imitei seus movimentos e quando percebi, ele começava a caminhar para uma área que não o levaria para dentro do hospital. Mesmo estranhando, caminhei silenciosa em seu encalço. - Antes de mais nada, quero deixar algo bem claro por aqui. Não tenho nada material que sirva como prova fixa do que vou relatar, mas pense bem: o que eu ganharia inventando uma mentira como essa?
- Eu deveria entender o que você disse ou ainda é muito cedo? - estreitei meus olhos, arriscando indagar. Philip deu de ombros e continuou seu caminho, até que nos aproximamos da outra lateral do prédio, onde também havia uma praça, mas essa possuía uma quantidade menor de bancos e contava com uma espécie de lápide em granito de tamanho elevado implantada ao centro da região. Apenas mais alguns passos foram necessários para que pudéssemos ficar frente a frente com o que acabei concluindo por ser um pequeno memorial. Flores secas adornavam a peça, onde um nome gravado despertou minha atenção. 
Quentin Mason Wight
Havia também algumas inscrições esculpidas na peça, mas algo impediu minha curiosidade de ganhar mais força, fazendo com que eu permanecesse estagnada, alguns poucos passos atrás de Philip. O homem encarava a imagem do memorial sem expressão, provavelmente deixando que memórias do irmão ocupassem sua mente tão centrada em sua profissão. 
- Você era quase careca quando nasceu. - sendo pega desprevenida, ouvi a voz de Philip comentar. Voltei a estreitar meus olhos, precisando que ele repetisse a frase para compreender com clareza. Ou meu raciocínio estava lento, ou eu realmente não quis ouvir o que ele disse.
- O quê? - pedi, a boca entreaberta e as mãos inquietas, aos poucos se fechando em punhos. 
- Alguns bebês nascem já cabeludos, outras não. Você era quase careca. - explicou com um semblante calmo, virando o rosto para voltar a fitar o granito ladeado por grama bem podada. 
- Como você sabe disso? - perguntei um pouco aflita, me aproximando dele para tentar conseguir obter uma explicação, a confusão expressa em minha face. Sim, ele estava certo, nasci com pouco cabelo. Mas como ele sabia?
- Eu fui te visitar, pouco tempo depois que nasceu. Junto com o seu pai. - fechei meus olhos firmemente e dei meia volta, pronta para caminhar para longe. Se ele pretendia ficar relembrando meu pai a cada milésimo de segundo, que fizesse isso sozinho. Eu já tinha problemas demais. E não queria acabar revelando lágrimas em excesso na frente de alguém que praticamente não me conhecia. - E a história, Demetria? Não vai querer ouvir? - cessei meus passos, ainda de costas para ele. Suspirei e retornei, ficando frente a frente com Philip, meu semblante era severo. 
- Deixe-me adivinhar... Ela é sobre o Quentin? - sorri falsamente, relaxando meus ombros logo após, encarando uma região qualquer enquanto uma leve brisa acariciava meu rosto. 
- Por favor, pare de odiar alguém que mal chegou a conhecer. Odeie o Arthur o quanto você quiser, mas não é justo nutrir o mesmo sentimento pelo Quentin. - Philip alertou de forma categórica, visivelmente exasperado com minhas atitudes. Havia algo até então indecifrável em seus olhos carregando seriedade, e eu temia estar chegando perto de descobrir o que era. 
- Pare de falar como se eles fossem pessoas diferentes. - pedi, desistindo de manter aquela pose de incredulidade, permitindo que a tristeza pintasse meu rosto com suas cores mortas. 
Eles são
Então era mesmo verdade. A fatalidade dos acontecimentos recentes tinha levado minha sanidade embora. Eu escutava o que minha mente abalada queria que eu escutasse, não o que de fato as pessoas me diziam. Certo? Errado.
Nunca me senti tão sã em toda a minha vida, principalmente porque, parte de mim, mesmo desconhecendo toda uma explicação que Philip precisaria dar, iluminou-se com a hipótese de ser verdade. 
- Meu... Meu pai era outro homem? - ainda embasbacada, sentindo uma tremura ganhar início por todo o corpo, pisquei os olhos algumas pessoas, tentando esconder minha instabilidade. Minha sensibilidade não aguentaria se manter encoberta por muito tempo. 
- Até que enfim você entendeu o que eu tanto queria que entendesse. - Philip demonstrou-se aliviado, retirando seu gorro de cirurgião para bagunçar os próprios cabelos, encarando o chão antes de voltar a prestar atenção em minhas reações. - Quentin Mason Wright foi seu pai. Ele morreu alguns anos após seu nascimento. Sue não foi capaz de perdoá-lo pelo abandono durante a gravidez, então meu irmão seguiu em frente. Bom, pelo menos fingia que sim. Eu me lembro claramente... Todo dia ele falava de você. Em como deveria estar, se já andava, se falava...
- Espere! - cortei-o em voz alta, percebendo ter atraído a atenção de algumas pessoas que transitavam pela região. - Mas... Como... Isso... Não... - eu não sabia o que dizer, por um instante foi como se tivesse perdido a capacidade de formular frases com sentido. 
- Tenha calma, eu não terminei a história. Ouça com atenção, sim? - concordei com um aceno, sentindo que poderia enlouquecer ou sofrer uma síncope a qualquer momento. Era muito para a minha cabeça. Muito. - Minha falecida mãe, Eleanor, sua avó paterna, engravidou de gêmeos cerca de dois anos após dar a luz a mim. Nove meses depois, lá estavam Quentin e... Arthur. - a simples menção aquele segundo nome provocou arrepios malévolos em minha pele que tentava lidar com o clima frio. - Eles eram gêmeos idênticos, minha mãe dizia que às vezes não sabia distinguir um do outro, precisava da ajuda do meu pai para isso. Porém, apesar de tão parecidos, existia uma crucial diferença entre ambos. Quentin era uma criança saudável, hiperativa, normal... Mas Arthur era diferente. Ele agia como se fosse superior a todos a sua volta, parecia acreditar fielmente ser um rei comandando um império. Meus pais acreditavam que era apenas coisa da idade, que ele acabaria ganhando noção do mundo real e conseguiria se adaptar a ele, mas não foi isso que aconteceu. - Philip fez uma pausa, querendo checar se eu continuava respirando. Depois que comprovou que sim, limpou a garganta para continuar. - Os anos passaram, Quentin e eu fazíamos planos com a medicina, nosso sonho desde sempre. Arthur ficava cada vez mais isolado de nós e de toda a família, saindo e voltando a aparecer apenas várias noites depois. Mesmo contra a sua vontade, meu pai conseguiu levá-lo a um psiquiatra, mas não soube aceitar o diagnóstico. Ele queria procurar por todos os cantos possíveis a normalidade do filho, queria que ele fosse uma boa pessoa como o Quentin era. Mais tarde, acabei por descobrir que Arthur adquiriu a obsessão em imitar o irmão. Ele fingiu ter uma boa conduta, passou a frequentar os mesmos lugares que Quentin frequentava, até sorrisos passamos a ver em seu rosto. Não preciso dizer que meus pais voltaram a respirar como almejavam quando viram o filho tão normal, certo? Bom, eles acreditaram naquela mudança, mas eu não acreditei. No entanto, eu não queria me intrometer, não queria acabar sendo o responsável pela ruína daquela família. Mais algum tempo passou, nós já éramos homens, todos maiores de idade. Quentin e eu estávamos em nossa tão sonhada faculdade de medicina, já Arthur havia desaparecido, se mudado para longe. Não tínhamos notícias dele. O que, de certo modo, foi bom. - não era possível enxergar um fim para aquela história, pelo menos não tão cedo. Exausta por continuar em pé, de frente para Philip, vasculhei um banco para me sentar, mesmo assim demonstrando interesse para ouvir o restante. - Essa é a parte em que uma mulher chamada Sue rouba totalmente o coração de Quentin. - sem perceber, acabei sorrindo quando ouvi o nome de minha mãe. - Eu via futuro neles, apesar de ainda tão jovens. Ela não sabia que ele tinha um irmão gêmeo. Afinal, ninguém quer contar a pessoa amada que seu irmão gêmeo é um pouco maluco, pois ela pode vir a pensar que você é maluco também. - ele riu, mesmo sabendo que eu não o acompanharia. - Namoraram por um tempo, até que Sue disse a Quentin que estava grávida. Eu juro, meu irmão era um homem corajoso, mas nunca vou esquecer da expressão de pânico em seu rosto quando ele me procurou para contar aquilo. Ele tinha medo de ser obrigado a mudar toda a vida, obrigado a desistir da medicina, que era seu maior sonho... Mas ele amava Sue. Quentin tentou, sim, arcar com as consequências e fazer o que julgou ser certo, ficar ao lado dela, mas eles não eram mais o mesmo casal. Por fim, foram para lados opostos. Eu sabia que ele não tinha superado o fim do relacionamento, e isso foi se tornar evidente apenas nove meses depois, no dia em que você nasceu,Demetria. Alegre-se, pois você teve, sim, um pai de verdade. Por insignificantes minutos, mas teve

/Demetria's P.O.V

Flashback

(Coloque a sexta música para tocar!)
Era uma noite chuvosa de sábado. A maternidade do hospital local revelava uma notável e frequente agitação, enriquecendo a certeza de que muitos bebês resolveram presentear o mundo com sua vinda naquela noite. Entre mulheres a caminho da internação - sofrendo com contrações cada vez mais frequentes -, futuros pais nervosos que riam e choravam ao mesmo tempo, médicos e enfermeiros circulando por toda a área com os rotineiros movimentos apressados, surgiram duas pessoas visivelmente desorientadas no meio de toda a agitação. Dois irmãos. Um deles lançava o olhar alarmado por todas as direções possíveis, como se procurasse alguém, o semblante idêntico ao do restante dos seres do sexo masculino ali presentes. O outro apenas o acompanhava, mantendo uma mão fixa em suas costas, demonstrando apoio. 
Quentin procurava desesperadamente por algum indício de Sue, algo que garantiria que ela estava bem, que logo poderia vê-la e tentar consertar seus estúpidos erros do passado. Sem sinal da jovem mulher, ele olhou aborrecido para o irmão, que o encorajou a continuar a busca. Afinal, se conseguiram descobrir que Sue havia entrado em trabalho de parto naquela noite, talvez fosse possível descobrir também como ela estava. Philip apontou em silêncio para o outro lado da recepção, onde Quentin pode avistar Marissa, mãe de Sue. Exasperado, Quentin bufou e encostou-se à uma parede, escondendo o rosto com as mãos. Não sabia mais como controlar o nervosismo tão aparente em suas feições joviais. 
- Marissa me odeia. E com razão. - comentou desolado, tentando ao máximo não permitir que a mãe da mulher que amava notasse sua presença. Não queria causar problemas, principalmente em uma noite tão especial como aquela. - O medo da paternidade e o egoísmo me fizeram deixar a filha dela. Grávida, cara, grávida! - ele olhava inconformado para o irmão, que apenas o observava, concordando com a cabeça. 
- Não aja como se o medo da paternidade fosse algo anormal. A questão é que alguns homens sabem lidar melhor com isso do que outros. - Philip explicou brilhantemente, percebendo que o irmão nem de longe aprovara sua dedução. 
- Aprecio sua ajuda. Obrigado, Philip, de verdade! - utilizando de uma ironia explícita, Quentin esfregou as duas mãos e sentou-se em uma cadeira próxima, sendo acompanhado pelo irmão que ficou ao seu lado.
- Eu só estava tentando descontrair. - Philip explicou-se, vendo o outro dar de ombros. Tinha os olhos fixos no chão, divagando sobre algum momento perdido em seu passado, um momento que gostaria de recuperar para então refazê-lo. Conseguiria, sim, conciliar sua faculdade com a tarefa de ser quem Sue precisava que ele fosse. Seria capaz disso. Pena que descobriu, talvez, um pouco tarde. 
Em um ímpeto, Quentin ficou de pé.
- Quer saber? Isso não é justo com a Sue. Eu tentei fingir que ela não existia durante os últimos nove meses, simplesmente não é justo aparecer agora, na noite do nascimento do filho dela como se eu tivesse algum direito sobre ele. - concluiu resignado, ou pelo menos fingindo estar. - Vamos, Philip, vamos embora! - totalmente desistente, o homem iniciou uma sequência de passos que fora interrompida quando Philip o chamou em voz alta. Alta demais, inclusive.
- Quentin, seu idiota! - repreendendo-o com o olhar, Philip disparou a falar, não se importando com o tom de sua voz que já incomodava algumas enfermeiras. - Deixamos o hospital durante nosso plantão para vir até aqui. Eu já posso imaginar o quanto vamos ter que ouvir por causa disso... Então volte aqui agora, sente e espere. Eu não vou comprometer minha carreira em início por um medroso que vive com base em seus erros do passado. Isso só vai valer a pena se você conseguir ver o seu filho. - tinha o dedo indicador apontado na direção do irmão, que o fitava visivelmente embasbacado, não tendo outra opção senão voltar a se sentar. 
Algum tempo depois, Quentin se via da mesma forma há quase uma hora. Ali, largado naquela cadeira, tão nervoso que logo sentiria a insuportável necessidade de gritar para tentar amenizar sua situação. Philip se “aventurava” pelos corredores do hospital, a fim de conseguir alguma informação que ajudasse seu irmão incapacitado de usar as próprias pernas no momento. 
- Quentin, Quentin, Quentin! - sendo pego de surpresa, Quentin despertou de um desconfortável cochilo quando avistou Philip vir correndo de um corredor em sua direção. O mais velho parou a sua frente e o forçou a levantar, não conseguindo controlar o sorriso nos lábios. - Cara, nasceu! - Quentin parou de respirar por um instante.
- Como você sabe? - pediu, atônito. 
- Acho que a enfermeira responsável pelos bebês gostou de mim, deixou escapar a informação quando perguntei. - Philip sorriu presunçoso, recendo um rolar de olhos do irmão. - Sua filha já está no berçário. Pronto para vê-la? - dentre todas as experiência vivenciadas pelo homem, aquela, sem dúvidas, era a mais memorável. Mesmo sem ter participado da gravidez de Sue, sentiu naquele momento que sua vida estava completa. Pois havia um ser que tinha a chance de conhecer e participar do mundo graças a ajuda dele. 
- É uma menina? - perguntou emocionado, não se importando com as lágrimas brotando em seus olhos. 
- Sim, é uma menina! Parabéns, irmão! - então os dois se abraçaram. Philip deu tapinhas nas costas de Quentin, que precisou segurar as lágrimas antes que o irmão utilizasse o momento para fazer piadas com ele.
Naquela noite, Demetria anunciou sua chegada ao mundo com um valoroso choro.

Quando finalmente conseguiram permissão para ver o bebê, depois que Philip jogou seu charme em uma das enfermeiras responsáveis e contou toda a história de Quentin e Sue -tendo a gesto desaprovado pelo irmão, é claro -, deixando-a comovida, os dois contemplaram os berços enfileirados, cada um responsável por abrigar um novo ser humano, alguém que poderia vir a mudar o mundo algum dia. 
- Esse é o tipo de presente que vai dar para sua filha que acabou de nascer? - Philip apontou para o pequeno urso de pelúcia segurado pelo irmão. Era de cor caramelo e uma fita vermelha envolvia seu pescoço, formando um laço.
- Foi a única coisa decente que encontrei na loja de presentes. - Quentin tentou se defender, olhando todos os nomes impressos nas plaquinhas acima dos berços, até que encontrou um que voltou a fazer seus olhos marejarem. Aproximou-se com cautela, não querendo fazer barulho para não assustá-la. O bebê a sua frente tinha os olhinhos entreabertos, evidenciando sua sonolência. Havia um macacão rosa aquecendo seu frágil corpo, assim como uma manta de mesma cor. Ele se mexia vez ou outra, deixando Quentin desconcertado.
- Oi... - ele ergueu os olhos para olhar a plaquinha cor de rosa com o nome “Demetria Davis”, logo acima de um dos berços móveis encontrados em berçários de hospitais. - Oi, Demetria! - sorriu abertamente ao pronunciar o nome, gostando de como soava. - É muito bom conhecer você, bebezinha. - com cuidado, entregando a pelúcia para o irmão segurar, ele tocou a pequena mão deDemetria, que reagiu ao toque com um resmungo baixinho. - Sabia que eu sou o seu pai? Sim! Mas não sei se vou conseguir ouvi-la me chamar assim. - trancou os lábios em uma linha reta, sentindo os pequenos dedos da recém-nascida se fechando sobre seu dedo indicador. - Talvez não, pois é. Mas, mesmo assim, eu quero que você cresça feliz. Seja uma boa pessoa, seja forte, não deixe ninguém destruir seus sonhos. E não meça esforços por quem você amar de verdade. Espero que tenha uma vida incrível, minha princesa. - inclinou-se para enfim depositar um beijo na testa da filha. - E que ela comece agora
Philip aproximou-se, também maravilhado com o bebê, lembrando-se de que havia uma câmera dentro do bolso de seu casaco. Após retirá-la dali, chamou a enfermeira e perguntou se Quentin poderia tirar uma foto com Demetria. Conseguindo tal consentimento, Philip posicionou-se a frente do bercinho, onde seu irmão abaixou-se um pouco para ficar mais próximo da filha, sorrindo para que a foto fosse tirada. 
Inevitavelmente, Quentin teve que se despedir do bebê. Tentou falar com Sue, mas ela deixou bem claro que não queria vê-lo. Nunca mais. Então, pedindo que a mulher pelo menos aceitasse o presente comprado para Demetria, ele tomou a decisão de que seguiria com sua vida. Quentin saiu do hospital com o coração apertado, segurando as lágrimas, pois sentia que nunca mais veria aquele anjinho. Nunca mais teria a chance de fazer parte da família que tanto sonhou ter, apesar de não se dar conta disso a tempo.

Fim de flashback.

Demetria's P.O.V

Senti uma quente e solitária lágrima correr desimpedida por minha bochecha, atingindo meu colo. 
Sem saber o que dizer, tentando manter a respiração firme o suficiente para prender aquele choro, encarei estarrecida o rosto de Philip, que também demonstrou tristeza após compartilhar uma memória tão... Inacreditável. O homem ficou de pé e disse que precisava me mostrar uma fotografia. Sem forças para ousar falar, concordei e o segui, caminhando sem nem mesmo conseguir sentir minhas próprias pernas, como se presa em um estado de torpor. A razão travava uma batalha árdua com meu coração, que insistia em me fazer acreditar que tudo que ouvi era real. 
Quando, sem perceber, cheguei ao interior do hospital, me deparei com o que considerei se tratar do escritório de Philip. O homem dirigiu-se até uma das gavetas de uma escrivaninha, retirando dali dois pequenos pedaços de papel fotográfico. 
Sem hesitar, estendeu um deles para que eu o segurasse, mantendo o outro preso na segurança de seus dedos, explicitando que de fato era mais importante que o entregue a mim. Levei meus olhos até a imagem, avistando três garotos. Philip, Quentin e Arthur. Diferente de dois irmãos, o outro permanecia com um semblante sombriamente sério, tomando certa distância dos outros dois, que se abraçavam. 
Olhei para o médico em busca de mais respostas, sentindo mais lágrimas escaparem de meus olhos com o passar do tempo. Ele segurou a respiração e a soltou de forma firme antes de prosseguir com sua história.
- Então, alguns anos depois, Quentin sofreu um acidente e faleceu. Vi-me sem rumo, perguntava todos os dias ao meu reflexo no espelho se parecia justo seguir com um sonho que dividi durante a vida toda com um irmão, agora morto. Eu sabia que ele me odiaria eternamente se eu desistisse da medicina, então segui em frente, por ele. Afinal, já tínhamos o projeto do que hoje é o Saving Grace, então eu não poderia abandonar o que conseguimos com tanto empenho. - Philip sentou-se em sua poltrona e apontou para outra colada do outro lado de sua mesa, pedindo silenciosamente que eu me sentasse ali. Ainda muda, sentei-me e apenas esperei. - Arthur veio me visitar antes de ser morto. Ele me contou tudo. Ele tomou a vida do irmão, de certo modo. Acabei por descobrir que durante toda a adolescência, Arthur manteve um diário escondido, diário esse em que registrava todas as observações que fazia sobre o próprio irmão, como se quisesse memorizar todos os seus movimentos, ações e trejeitos. Não bastasse tudo isso, ele descobriu sobre Sue quando Quentin já estava morto, decidido a tê-la para si. Arthur se apaixonou pela sua mãe, Demetria. Não, eu não chamaria aquilo de amor, mas, enfim... Se eu contar que ele fez uma cirurgia para ficar com o nariz completamente igual ao de Quentin, você vai acreditar? - arregalei meus olhos de súbito, inevitavelmente lembrando de um fato crucial em toda aquela bagunça. Lembrava-me com clareza dos planos macabros de Arthur em transformar o homem de nome Julian em seu falecido filho, Carter. Então, outra dúvida me atormentou. Carter não era meu irmão? - Arthur conseguiu encontrar Sue, conseguiu fazê-la acreditar que ele era Quentin. Eu não sei como, mas conseguiu. Inventou que tinha se envolvido em problemas sérios demais, por isso a mudança de nome, por isso os novos hábitos de vida. Por isso tantas diferenças inexplicáveis.
- E minha mãe acreditou? - perguntei incrédula, as mãos fechadas em punhos, minhas unhas já machucando a pele das palmas. 
- Dizem que o amor cega as pessoas. E eles eram gêmeos idênticos, não se esqueça. - alertou ele, ajeitando-se na cadeira. - O resto você é capaz de imaginar, certo? Arthur, dizendo ser Quentin, conseguiu o coração de sua mãe novamente. Ele a engravidou, apenas para depois mudar todas as decisões anteriores e deixá-la. Fazendo Sue acreditar ter sido abandonada duas vezes... Pelo mesmo homem
Eu não acreditei no que ouvi. Primeiro porque parecia uma história mirabolante demais para ser real. Segundo porque, após juntar todas as peças, concluí que Peter era meu meio-irmão.
- Então Peter é filho do Arthur e eu sou filha do Quentin? - não reconheci minha voz, visto a fraqueza evidente. 
- Sim. - Philip confirmou, sério. 
Escondi meu rosto com as mãos, respirando fundo. Meu corpo inteiro doía, mas não era algo físico. Não era capaz de acreditar em tal loucura, em tal crueldade. Quem aquele desgraçado chamado Arthur pensava que era para causar tantas tormentas na vida de minha mãe? 
Meu irmão nunca se importou com o fato de que não teve um pai, provavelmente porque aprendera a lidar com a ausência desde bem pequeno. Mas eu não tinha aprendido, então o que ouvi fez toda a diferença. Eu diria até que ocasionou um estranho alivio em meu interior. 
Recapitulando os fatos: Quentin e Arthur eram irmãos gêmeos. Arthur tinha problemas mentais. Quentin se apaixonou por minha mãe e a abandonou quando ela engravidou. Quentin morreu anos após meu nascimento. Arthur assumiu a identidade do falecido irmão e armou uma armadilha para ter minha mãe. Minha mãe engravidou de Arthur. Ele a deixou quando grávida e ela acreditou que o mesmo homem havia pisado em seu coração da mesma forma duas vezes. Peter era meu irmão apenas por parte de mãe e Carter não era meu irmão. 
Minha cabeça explodiria a qualquer momento.
- Aquele... - gaguejei, precisando encher meus pulmões de oxigênio antes de pensar em continuar. - Aquele monstro não era o meu pai?
- Não. - Philip sorriu. Não entendi seu sorriso, era impossível. - Se você pudesse ver o sorriso que Quentin tinha quando te viu pela primeira vez, as lágrimas nos olhos... Certo, é errado omitir. Eu quase chorei também. O que você queria que eu fizesse? Era a filha do meu irmão! - o médico parecia determinado a enaltecer mais aquela parte da história, como se o resto fosse irrelevante. Ele queria que eu absorvesse apenas o que era bom. Apenas o que me faria bem.
Mas isso não me acalmava totalmente. Eu ainda estava indignada.
- E por que você nunca tentou impedir isso, já que sabe de toda essa história? - confusa, eu bradei. Philip meneou com a cabeça e se dispôs a explicar.
- Como eu já expliquei, acabei por descobrir tudo um pouco tarde. Digamos que sempre fui o mais ocupado dos irmãos, não tinha tempo para prestar atenção no que poderia estar acontecendo de errado. E, quando prestei, achei ser besteira da minha cabeça. Eu levava meus estudos muito a sério, como se minha vida dependesse exclusivamente disso. Fiquei sabendo semanas antes de Arthur ser morto. Ele veio até aqui, acredite, arrependido. - aos poucos, eu saciava minha vontade por descobrir mais fatos daquela revelação, torcendo para que acabasse logo. Precisava fazer apenas mais algumas perguntas.
- Mas por que me ligaram do hospital exatamente quando o Arthur morreu? Por que ninguém nunca tentou me procurar antes? Minha mãe sabia sobre o hospital, ela me contou sobre ele. Algumas coisas não estão se encaixando aqui... - alertei categórica, promovendo uma discussão que fazia minha cabeça girar. 
- Porque eu achei que seria o melhor momento para você ter conhecimento disso. Nós, do hospital, não queríamos atrapalhar sua vida, pois achamos que você estava bem acreditando que seu pai não te queria, pensamos que já tinha superado isso. E, sim, sua mãe sabia sobre o hospital porque Arthur contou tudo a ela, se passando pelo Quentin. - de repente, senti raiva de Philip. Não queria, mas senti.
- Como pôde deixar minha mãe conviver com a ideia de que o amor de sua vida tinha se transformado em um monstro? Você podia ter tentado saber como e onde ela estava após a morte de Quentin. Ou, não sei, podia ter procurado ela após a morte do Arthur, livrado ela desse tormento perpétuo! É fácil ficar sentado ai, apenas contando uma história que não afetou a sua vida. - acusei, despejando as palavras sem sequer me dar conta. Meu nervosismo agravado fez apenas com que Philip levantasse, imitando meus movimentos e se encostasse à janela ao lado. 
- O que seria pior? Dizer que ela foi enganada pelo gêmeo do homem que amava ou dizer que o homem que ela amava se tornou alguém diferente do que costumava ser? Talvez deixá-la criar suas próprias conclusões fosse mais certo. - ele tentou argumentar.
- Eu sei que a verdade seria o melhor para ela. - rebati com a voz firme. 
- E como você ousa dizer que tudo isso não me afetou? Não se esqueça que no meio de toda essa bagunça, eu perdi um irmão. Ou melhor, dois. Quentin era o meu melhor amigo, nós seguimos a mesma carreira, nos fundamos esse hospital. Arthur era distante... Mas não deixava de ser meu irmão. - suas palavras me amoleceram o bastante para que eu voltasse a jogar meu corpo na cadeira, desistindo de impedir o choro tão desesperado para sair. Presa em soluços constantes, senti uma mão se apoiar em meu ombro, permitindo que continuasse ali enquanto eu mantinha meu rosto escondido.
- Eu o odiei tanto... - minha voz era embargada.
- Não... Olhe para mim. - o homem tentou me acalmar, fazendo com que eu erguesse o rosto para olhar em sua direção. - Demetria, você odiou a imagem que decidiu criar dele. Mas essa imagem não pertencia ao seu pai. Eu sei, eu sei, é doloroso ter que lidar com algo assim. Você não faz ideia de como eu me arrependo por ter sido cego a ponto de não impedir tudo isso. Mas não podemos nos esquecer que o tempo não volta. Erros cometidos no passado só se transformam em acertos quando não nos fazem sofrer dessa forma. Estou dizendo isso porque, apesar de, na maioria das vezes, um erro permanecer um erro, existem exceções. Erros que nós cometeríamos muitas outras vezes. Quentin, por exemplo, que a princípio considerou a gravidez de Sue um erro. Então você nasceu. Mas, me diga, consegue imaginar como a humanidade seria melhor se todos os erros resultassem em acertos tão concretos como o cometido por ele? Você pode chorar o quanto quiser, não é errado. Apenas tenha consciência de que o que passou, passou, e remoer certas coisas faz com que não sejamos capazes de seguir em frente. 
- Qual foi o acidente que o matou? - eu me referia a Quentin, meu pai. Absorvi as últimas palavras de Philip, mas preferi deixá-las apenas em minha mente, guardadas. - Meu pai. 
- Foi um acidente de carro. - explicou complacente, negando com a cabeça quando meu choro ameaçou voltar com mais intensidade. - Mas eu acho que ele não sentiu dor alguma. Morreu na hora. Isso é bom, sabe? Como médico, é menos torturando saber que um ente querido foi embora de forma indolor. Ah, não posso esquecer de lhe contar que ele tinha esperanças em te rever, rever sua mãe, mesmo depois de alguns anos passados. Na última vez em que falei com ele, Quentin me disse que faria de tudo para recuperar sua família. 
- Posso ver a foto que você está escondendo? - ele riu de meu tom de voz desconfiado, tirando-a do bolso de seu jaleco, estendendo-a em minha direção. O homem sorriu quando viu meus olhos se fixarem na imagem. Não consegui esconder minha ansiedade e emoção enquanto media cada centímetro da fotografia, desde meu corpo pequeno no berço até o rosto sorridente daquele que, junto com minha mãe, me deu a vida. Tudo que consegui sentir ao olhar a foto foi... Amor. - Philip... Estou errada por chorar de alívio? - ele arqueou as sobrancelhas. - Alivio por saber que meu pai, mesmo que por muito pouco tempo, pode demonstrar o amor que sentia por mim? 
- Quem sou eu para te julgar? Vá em frente. - ele assegurou, arrancando um sorriso singelo de minha parte. 
Sentia-me um pouco tonta, feliz e triste ao mesmo tempo. Não sabia como organizar aquele turbilhão de emoções. - Você tem os olhos dele. - olhei em sua direção, curvando meus lábios em um sorriso fechado e breve. 
- Eu... Eu posso ficar com a foto? - pedi com hesitação, vendo-o concordar prontamente com a cabeça.
- É claro que pode! Agora, sim, ela está nas mãos certas.

(Coloque a sétima e última música para tocar!)
Algo não habitual circulava por meu sistema. Eu ainda não era totalmente capaz de processar e aceitar tudo que ouvi naquele dia, mas sentia um tipo novo de revigoração correr livre por minhas veias, levando certos incômodos embora. Em minha mão, permanecia aquela fotografia marcada pelo tempo, que eu fazia questão de olhar de minuto em minuto, como se não acreditasse que ela de fato era real. Uma de minhas reações após o término da história do médico, fora retirar o celular da bolsa e pensar em ligar para Joe para contar toda aquela loucura. Mas neguei com a cabeça, voltando a colocar o aparelho dentro da bolsa quando percebi que ele não estaria do outro lado da linha para me ouvir.
Philip me acompanhou até a saída do hospital quando decidi que seria melhor voltar de uma vez por todas para a segurança de meu lar, para então juntar todas as peças e solucionar o quebra-cabeça que traria minha felicidade de volta. Além de já estar com muita saudade de meus filhos. Por poucas horas, consegui me distrair o bastante para obter alívio da dor que sentia toda vez que pensava em meu marido. Mas, naquele instante, de volta a órbita, passei a sentir tudo novamente. 
Philip percebeu meu pranto iniciado, aproximando-se para tentar me acalmar. Contribuindo então para a quantidade de lágrimas elevar-se. Quando percebi, já havia me atirado em seus braços, em busca de algum consolo. Sem jeito, Philip retribuiu, em silêncio. Tínhamos um laço de sangue, e foi bom reconhecer isso.
- Como faça isso parar? Por favor, me diga. Eu não aguento mais me fingir de forte quando na verdade tudo que consigo fazer é me afundar cada vez mais nesse poço de sofrimento. E eu me odeio tanto por isso... - desabafei, notando que minhas lágrimas molhavam uma parte de seu jaleco. 
- Calma, calma. - ele tentou me amparar. - Você não está sozinha. Isso tudo vai passar. Você será feliz outra vez. Como se nunca tivesse deixado de ser. - em um gesto contraditório a sua tentativa de me acalmar, meus olhos arderam e foi então que, após um soluço agoniado, meu pranto intensificou-se ainda mais. - E por que diabos não me escuta quando eu digo para se acalmar? - eu teria rido de seu tom cômico e irritado ao mesmo tempo, se não houvessem tantas lágrimas saindo dos meus olhos. 
- Essas são palavras que um pai diria para uma filha. Eu esperei por toda a minha vida para ouvir algo assim de um... Pai. - fui sincera, apesar de me sentir um pouco tola. 
- Bom, eu não sou o Quentin, mas estou aqui, não estou? E sabe de uma coisa? Ele não pode te dizer isso, mas eu sei que, de onde estiver, é o que ele quer também. - concordei, fechando os olhos e sentindo um sorriso se formar em meus lábios. Soltei o corpo de Philip e tentei me recompor, enxugando lágrimas teimosas com as costas da mão. - Agora me escute. Eu sou um cirurgião, não um psicólogo. Não posso te dizer como se livrar completamente desses pensamentos excruciantes. Então se acalme, respire fundo. E respire de novo, se precisar. É claro que ela vai precisar de novo, Philip, não seja idiota. - tive que rir novamente ao escutá-lo falar consigo, de repente mais aliviada, os soluços diminuindo gradativamente até que cessaram por completo. - Agora, vá colocar alguma coisa nesse estômago e descanse, menina. Hoje, e durante os próximos meses, eu não sou o único que precisa zelar por uma vida que não é minha. Por uma vida que está totalmente nas minhas mãos. - o médico apontou para minha barriga, gesto que me impulsionou a acariciá-la. - Permaneça forte, garanta que esse bebê chegue saudável ao mundo e seja uma recompensa por esses tempos difíceis. Aliás, ele já é. - incapacitada, apenas concordei com a cabeça, tendo a visão ainda borrada por lágrimas. Eu não sabia definir um sorriso paternal quando direcionado a mim, mas a forma como Philip me olhou era semelhante a que Joseph olhava para nossos filhos. - Seu marido está bem. - ele disse por fim. Levei meus olhos levemente arregalados na direção dos seus, espantada com a convicção em sua voz. Mas ele não sabia nada sobre o paradeiro de Joseph, certo?
- Como pode ter tanta certeza? - investiguei.
- Notícias ruins não atrasam. Se reais, já estariam aqui. - e lá estava o sorriso paternal exposto outra vez. O som semelhante a um bip contínuo atraiu a atenção de Philip, que rapidamente retirou um pequeno aparelho de um bolsos de seu jaleco, olhando com olhos surpresos para uma pequena tela presente no mesmo. No exato instante, foi possível ouvir o som feroz da hélice principal de um helicóptero que se aproximava. - Meu Deus! - o médico encarou o mesmo ponto, não sabendo se sorria ou se corria para dentro do hospital. 
- O que está acontecendo? - perguntei confusa.
- Você se lembra do William, um dos pacientes do Saving Grace? - assenti. - Ele acaba de conseguir um novo coração. Lá está ele. - Philip apontou totalmente animado para o helicóptero ainda no ar, que já planejava seu pouso, agitando as árvores próximas. - Farei o transplante. 
- Você? - perguntei um pouco surpresa, não que duvidasse de suas habilidades. Ele apenas assentiu. - Isso é maravilhoso! 
- É o momento em que você sente todo o poder em mãos. E todo o fracasso. Porque basta um erro, um singelo e inesperado erro, então tudo é colocado a perder. A vida de uma criança está nas minhas mãos. - explicou um pouco atônito, como se nunca tivesse lidado com algo semelhante. 
- Está com medo? - perguntei, não conseguindo conter minha felicidade por William. Faria de tudo para conseguir vê-lo após o transplante, com seu novo coração. Saudável e feliz.
- Sou humano também, como qualquer outro, então é claro que estou com medo. Mas faz parte de quem me tornei aprender a lidar com esse sentimento. - após ouvi-lo, concluí que era a hora de sair dali, então me despedi de Philip e dei as costas para o Saving Grace, sendo chamada pelo médico outra vez. Virei-me, sentindo o vento ao redor envolver meu corpo. - E agora, Demetria, onde quer que ele esteja... - mirou o céu, sorrindo como se pudesse ver o irmão. - Eu sei que o orgulho que sente por você é maior que qualquer problema. 
- Obrigada. - segui a direção de seus olhos. O céu, apesar de cinzento, parecia mais amigável naquele instante. 
- Não desapareça, ok? Não se esqueça que você é minha sobrinha, é uma das provas de que a existência do meu irmão, apesar de curta, foi mais do que significante. - sorri-lhe sincera, assistindo-o caminhar as pressas para dentro do hospital com grande satisfação explessa no rosto, pronto para salvar uma vida. Encarei o helicóptero aterrisar em sua área própria no terraço, tomada por um sentimento gratificante. Era a chance da história de um inocente recomeçar, sem dúvidas. Sorri para o nada, enxergando vislumbres da beleza da vida, mesmo em meio a tanta dor. 
O momento em que um filme de felicidade não tem você como protagonista, apenas como espectador. A descoberta de que assistir não é nem de longe algo ruim. Não quando você sabe que o seu também será assistido. O seu chegará. Ou, talvez, ele já esteja sendo assistido, mas algo fez com que o botão “pause” fosse sutilmente pressionado durante um instante crucial... Então, quando finalmente poderá dar “play” e deixar que o espetáculo tenha continuidade? Talvez logo, talvez não tão logo. Desde que esse “quando” exista, tudo bem. Todos contam uma história, mas valioso é descobrir quem de fato está ouvindo. Quem de fato quer ouvir. Naquele instante, eu contemplava a de William, pronta para seguir meu caminho. Encontraria meu marido e recuperaria minha total felicidade. 
Antes de adentrar meu carro, voltei a olhar para o céu, dessa vez sem expressão, apenas dizendo oi e pedindo perdão a meu pai.


Minhas costas provavelmente agradeceram aliviadas quando acomodei meu corpo no colchão da cama de meu quarto, determinada a dormir ali. Após várias noites mal dormidas e dias mal vividos, eu sabia que não esperava sempre o melhor à toa. Meu pai, no primeiro momento em que me viu, desejou que eu tivesse uma boa vida, pediu que eu nunca deixasse de ser uma boa pessoa. Eu nunca havia tido um conselho como aquele para me apoiar, não de um pai. E pareceu algo tão valioso que eu tinha medo de perder, medo de acabar não dando valor a suas palavras amorosas. Por isso, naquela noite, enquanto me ajeitava por baixo das cobertas quentinhas, tive certeza de que jamais estaria sozinha. Fitei a fotografia repousando sobre a mesa de cabeceira e levei minha mão até a região para pegá-la, me perdendo em pensamentos enquanto a contemplava mais uma vez, juntamente a tantas outras vezes naquele dia. Ouvi o som de passos se aproximando, então ergui meu olhar, encontrando meus dois meninos parados a porta, lançando sorrisos em minha direção. Ajeitei-me sobre a cama e fiz questão de chamá-los, queria tê-los por perto. Jamie, que segurava um livro, sentou-se ao meu lado esquerdo e Matthew, precisando de meu auxílio para subir na cama, ficou no direito. Os dois vieram para mais perto, cada um aninhando-se a um lado de meu corpo. Sendo abraçada daquela forma, como eu poderia desistir de lutar? 
Acariciando os cabelos de ambos, enquanto permanecíamos em silêncio, fitei o livro que Jamie mantinha aberta em uma página qualquer. Perguntei do que se tratava e ele me mostrou a capa, revelando o nome “O Pequeno Príncipe”.
- Aliás, mãe, tem uma frase nesse livro que eu gostaria de ler para você. - Jam disse com um tom animado de voz, afastando-se para folhear seu livro, até que pareceu encontrar o que queria. Sorri para ele, distraída em seu rosto, não sabendo mais como agradecê-los por me passarem tanta força. Matt permanecia sonolento ao meu lado, a chupeta vermelha e o pijama de ursinhos dando a ele um aspecto mais adorável do que nunca. 
- Leia, meu amor. - pedi em um murmúrio, vendo-o sorrir antes de iniciar a leitura em voz alta:
- “Eis o meu segredo: só se vê bem com o coração. O essencial é invisível aos olhos.” - Jamie pausou a fala para simplesmente me olhar, satisfeito quando constatou que tinha minha total atenção. - “Os homens esqueceram essa verdade, mas tu não a deves esquecer.” - agilmente, ele fechou o livro, voltando a se aconchegar perto de mim, mas percebi que ele ainda tinha algo mais a dizer. - Sabe por que eu quis ler isso para você? - demonstrei interesse em saber com um simples “Hum?”. - Porque eu tenho certeza que o amor entre você e o papai está apenas se fortalecendo com essa distância. Não importa que vocês não tenham a chance de estar frente a frente agora, porque o que vocês dois compartilhar vai muito além do que podem tocar. Em todo o caso, ele vai voltar logo e nós vamos voltar para os nossos quartos, ok? Mas, até lá, Matt e eu vamos dormir aqui com você, não é, Matt? Não vamos te deixar sozinha, porque você nunca nos deixou. - maravilhada com tudo que escutei, fui apenas capaz de puxá-los para mais perto, abraçando-os com todo o meu amor. Jamie me surpreendia mais a cada dia. Era um garoto inteligente e compreensivo, sempre disposto a ajudar, a buscar pelo melhor em todas as situações. Por vezes, quando ouvia suas palavras, passava a acreditar estar de frente para um grande amigo, aquele que nós queremos manter pela vida toda. Sua mente era, sim, um pouco fantasiosa e ele ainda não enxergava todas as maldades no mundo, mas essa pureza era exatamente o que eu precisava. Afinal, viajar no surreal às vezes é a chave para suportar a realidade. 
Matthew pediu colo, repousando sua cabeça em meu peito, fechando os olhinhos e bocejando antes de concordar com o irmão. Sua presença aliviava meu martírio. Não tinha grandes conselhos, mal sabia falar direito as poucas palavras que conhecia, mas seus passinhos sempre se direcionavam a mim. E com apenas seu olhar inocente e brilhante, dizia que tudo ficaria bem. Onde poderia existir mais verdade do que naquele olhar? Não existe lugar melhor para procurar esperança do que nos olhos e sorriso de uma criança. 
Sentindo um carinho singelo em meu rosto, feito por Matt, suspirei antes de dizer:
- Eu sei que ultimamente não tenho sido a mãe que vocês merecem, devo estar fazendo vocês se perguntarem “Onde está aquela mulher alegre que brincava conosco como se também fosse uma criança?” E quero me desculpar por isso. Prometo que vou melhorar, que vou ser a mamãe de sempre. Eu amo vocês dois, independente de qualquer coisa, meus meninos. Sabem disso, não sabem? - ambos concordaram com a cabeça.
- Eu também te amo! - Jamie afirmou com olhos brilhantes, a voz amorosa.
Amo mamãe! - Matthew também quis participar, escondendo o rostinho e se aconchegando mais ao meu colo. 
- O quanto você me ama, ursinho? - deixei que ele saísse do enlace em meus braços e ficasse sentadinho na cama, olhando fixamente para mim. Ele esticou ambos os bracinhos e abriu um sorriso com dentes em formação, respondendo minha pergunta com aquele gesto, explicitando o tamanho do seu amor. - Só isso? - fingi um semblante emburrado, vendo-o tentar esticar mais os braços, fazendo bico quando percebeu que não conseguiria. Era adorável.
- Não consigo, mamãe... - ele resmungou, aborrecido consigo mesmo. Inclinei meu corpo e segurei suas duas mãos, aproximando meu rosto o suficiente do seu para que pudéssemos esfregar nossos narizes, como sempre fazíamos antes dele dormir. O pequeno gargalhou.
- É o suficiente, meu amor. - trouxe Jamie para mais perto outra vez, acariciando minha barriga quando Matt apontou para ela. Ele havia adquirido aquele hábito por ver seu pai e eu sempre a acariciando e até mesmo falando com ela. Cobri a nós quatro para que o frio não nos incomodasse, torcendo para o sol nascer logo. Queria a oportunidade de um novo dia, para lutar. - É o que a mamãe precisa, o que mais faz ela feliz. 

/Demetria's P.O.V


Dominic permanecia recostado ao portão do apartamento onde morava, encarando ambos os lados da rua iluminada com postes, em meio a escuridão da noite. Batendo um dos pés contra o chão de forma impaciente, ele encarou o relógio em seu pulso e bufou quando nenhum veículo parecia se aproximar. O combinado era que a pessoa que ele esperava chegasse ali às dez da noite. Em ponto. Quinze minutos mais tarde, ele ainda se via sozinho, sendo obrigado a divagar sobre coisas que de fato não queria. Não sabia o que tinha com Jennifer, e também não achava justo tentar descobrir quando ela se demonstrava tão evasiva. Não queria pressioná-la. Então, pensou em seu amigo desaparecido. Apesar de tudo, principalmente suas brincadeira fora de hora e a forma debochada como os dois se tratavam, o advogado sabia que ele e Joseph tinham, sim, se tornado amigos. Sentia raiva por ainda não ser capaz de saber nada. Podia ser um mulherengo egoísta, mas tinha coração o suficiente para saber que não era justo ver uma família sofrer daquela maneira. E ele faria o possível para ajudá-la a se recuperar. Sim, ele faria.
Voltou a órbita quando um carro em alta velocidade estacionou a sua frente, o som da buzina acordando-o daqueles pensamentos. Instantaneamente abriu um sorriso, enxergando a motorista abrir a porta e sair do veículo, caminhando em sua direção com passos decididos. 
- McGuinness. - ela o cumprimento, parando a sua frente com os braços cruzados, o vento brincando com seus cabelos que voltaram a adquirir um tom escuro de castanho. 
Russell. - o loiro respondeu, arqueando uma sobrancelha. Ambos permaneceram apenas se encarando em silêncio por algum tempo, até que a mulher demonstrou impaciência e o apressou para dizer o que pretendia. 
- Por que o atraso? - ele investigou, notando que ela não chegou sozinha dentro daquele carro.
- Porque encontrei alguns amigos pelo caminho, e não pude deixá-los para trás. - explicou sorridente, apontando para uma das portas do carro que se abrira, mas ainda sem revelar ninguém. 
- E eu posso saber quem são seus amigos? - Dominic cruzou os braços, ansioso. Então, outro indivíduo abandonou o veículo, revelando-se na parcial escuridão da noite. Primeiro Dominic encarou Karlie de forma surpresa, recebendo apenas um dar de ombros. Ela virou o rosto para que pudesse trocar um sorriso com o homem que vinha em sua direção, não deixando de notar o fato de que ele parecia muito diferente, uma diferença boa. 
- Eu trouxe, digamos... Um detetive. Um dos bons. - ela fez referência ao homem agora parado ao seu lado, que cumprimentou Dominic apenas com um aceno.
- Você por aqui, Austin? - o advogado indagou.
- Uma hora ou outra eu tinha que voltar, não tinha? - respondeu sorridente, cruzando os braços e adotando uma pose imponente. Karlie precisou rir, porque a imagem de um Caleb nerd e desengonçado ainda vinha em sua mente. 
Antes que Dominic demonstrasse interesse pelo terceiro convidado de Karlie, um movimento vindo do carro atraiu a atenção dos três. A outra porta fora aberta e o som de saltos contra o concreto penetrou a audição dos presentes, que continuavam esperando para ver sua identidade sendo revelada. Sobre o teto do carro, uma loira vestida socialmente apoiou uma mão, depois a outra e então seu queixo sobre ambas, sorrindo de forma angelical.
- Karlie trouxe um detetive e uma vadia louca... - Valerie explicou, promovendo outro arquear de sobrancelha no advogado, que a media com um semblante, até então, sério. - Só para o caso das coisas saírem do controle. - de fato, era estranho ter Valerie ali, mas Karlie notou, depois de algum tempo, que a mulher poderia ajudar. Ela queria ajudar. Talvez se redimir. Pensou em dizer aos homens o motivo da parceria, mas achou melhor esperar. Explicações seriam feitas apenas mais tarde.
- Cara, quando vão entender que não é aconselhável tentar fazer mal aos meus amigos? - irritada, Karlie comentou enquanto caminhava de um lado para o outro, não demonstrando interesse em apresentações. O que ela queria naquele momento era colocar logo seu plano em prática. Precisou retornar a Londres quando soube o que acontecera com Joseph. 
- Acho que, seja lá quem for, está muito perto de entender. - Caleb comentou, seguro de si. Já frente a frente, os quatro se entreolharam, certos sobre o passo seguinte a tomar. - Nós vamos encontrar o Joseph. - Caleb concluiu, tendo a frase aprovada com sorrisos destemidos. 
- Sim, nós vamos. - Dominic reforçou, não se importando com o que teriam de lidar.
Logo, o quarteto escondeu-se dentro do veículo negro, vagando por entre as ruas escuras, determinado a buscar justiça. 

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